Os diferentes tipos de liturgia umbandista – Parte III – Escolas

Após 100 anos de fundação da Umbanda pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, essa religião cresceu e se diversificou, dando origem a diferentes vertentes que têm a mesma essência por base: a caridade, a fé e a humildade.

O surgimento dessas diferentes vertentes é conseqüência do grau com que as características de outras práticas religiosas e/ou místicas foram absorvidas pela Umbanda em sua expansão pelo Brasil, reforçando o sincretismo que a originou e que ainda hoje é sua principal marca.

A descrição abaixo foi elaborada por mim, como uma forma útil de condensar as diferentes práticas existentes, possibilitando um melhor estudo das mesmas. É importante frisar que ela não é fruto de um consenso entre os umbandistas e nem é adotada por outros estudiosos da religião.

Umbanda Tradicional

  • Outros nomes: É também conhecida como Linha Branca de Umbanda e Demanda, Umbanda Branca e Demanda e Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas.
  • Origem: É a Umbanda original, fundamentada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, por Pai Antônio e Orixá Malet, através do seu médium Zélio Fernandino de Morais (10/04/1891 – 03/10/1975), surgida em São Gonçalo, RJ, em 16/11/1908, com a fundação da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.
  • Foco de divulgação: O principal foco de divulgação dessa vertente é a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.
  • Orixás: Nesta vertente existe uma forte vinculação dos Orixás aos santos católicos, sendo que aqueles foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de oito Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.
  • Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá (onde inclui as Crianças), de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum e Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Iansã e de Santo ou das Almas (onde inclui as almas recém-desencarnadas, os exus coroados e as entidades auxiliares).
  • Entidades: Os trabalhos são realizados principalmente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as) e Crianças e não há giras para Boiadeiros, Baianos, Ciganos, Malandros, Exus e Pombagiras (estes três últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda).
  • Ritualística: A roupa branca é a única vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas e pontos riscados nos trabalhos, porém os atabaques não são utilizados nas cerimônias.
  • Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “O livro dos espíritos”; “O livro dos médiuns”; “O evangelho segundo o Espiritismo”; e “O Espiritismo, a magia e as sete linhas de Umbanda”.

Umbanda Kardecista

  • Outros nomes: É também conhecida como Umbanda de Mesa Branca, Umbanda Branca e Umbanda de Cáritas.
  • Origem: É a vertente com forte influência do Espiritismo, geralmente praticada em centros espíritas que passaram a desenvolver giras de Umbanda junto com as sessões espíritas tradicionais, sendo uma das mais antigas vertentes, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada.
  • Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade.
  • Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos Orixás nem aos santos católicos.
  • Linhas de trabalho: Nesta vertente não é utilizada essa classificação das formas de agrupar as entidades.
  • Entidades: Os trabalhos de Umbanda são realizados apenas por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as) e, mais raramente, Crianças.
  • Ritualística: A roupa branca é a única vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e não são encontrados o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas e atabaques.
  • Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “O livro dos espíritos”; “O livro dos médiuns”; “O evangelho segundo o Espiritismo”; “O céu e o inferno”; e “A gênese”.

Umbanda Mirim

  • Outros nomes: É também conhecida como Umbanda Esotérica e Iniciática, Aumbandã e Escola da Vida.
  • Origem: É a vertente fundamentada pelo Caboclo Mirim através do seu médium Benjamin Gonçalves Figueiredo (26/12/1902 – 03/12/1986), surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 13/03/1924, com a fundação da Tenda Espírita Mirim.
  • Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: a Tenda Espírita Mirim (matriz e filiais); e o Primado de Umbanda, fundado em 1952.
  • Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de nove Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.
  • Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá, de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Iansã, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, das Crianças e de Yofá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).
  • Entidades: Os trabalhos são realizados principalmente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as) e Crianças e não há giras para Exus e Pombagiras, uma vez que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.
  • Ritualística: A roupa branca com pontos riscados bordados é a única vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de fumo, defumadores e a imagem de Jesus Cristo nos trabalhos, porém as guias, velas, bebidas, atabaques e demais imagens não são usados nas cerimônias, havendo o uso de termos de origem tupi para designar o grau dos médiuns nelas.
  • Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Okê, Caboclo”; “O livro dos espíritos”; “O livro dos médiuns”; e “O evangelho segundo o Espiritismo”.

Umbanda Popular

  • Outros nomes: É também conhecida como Umbanda Mística.
  • Origem: É uma das mais antigas vertentes, fruto da umbandização de antigas casas de Macumbas, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada. É a vertente mais aberta a novidades, podendo ser comparada, guardada as devidas proporções, com o que alguns estudiosos da religião identificam como uma característica própria da religiosidade das grandes cidades do mundo ocidental na atualidade, onde os indivíduos escolhem, como se estivessem em um supermercado, e adotam as práticas místicas e religiosas que mais lhe convêm, podendo, inclusive, associar aquelas de duas ou mais religiões.
  • Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade, uma vez que não existe uma doutrina comum em seu interior. Entretanto, é a vertente mais difundida em todo o país.
  • Orixás: Nesta vertente encontra-se um forte sincretismo dos santos católicos com os Orixás, associados a um conjunto de práticas místicas e religiosas de diversas origens adotadas pela população em geral, tais como: rezas, benzimentos, simpatias, uso de cristais, incensos, patuás e ervas para o preparo de banhos de purificação e chás medicinais. Considera a existência de dez Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã, Nanã e Ibejis. Em alguns lugares também são cultuados mais dois Orixás: Ossaim e Oxumaré.
  • Linhas de trabalho: Existem três versões para as linhas de trabalho nesta vertente:
  1. Na mais antiga, são consideradas a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá (onde inclui as Crianças), de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô (onde inclui Xangô e Iansã), do Oriente (onde agrupa as entidades orientais) e das Almas (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas);
  2. Na intermediária, também são consideradas a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá, de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô (onde inclui Xangô e Iansã), das Crianças e das Almas (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas);
  3. Na mais recente, são consideradas como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.
  • Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras, Exus-Mirins e Malandros(as).
  • Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, incensos, pontos riscados e atabaques nos trabalhos.
  • Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbanda Omolocô

  • Outros nomes: Não possui.
  • Origem: É fruto da umbandização de antigas casas de Omolocô, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada. Começou a ser fundamentada pelo médium Tancredo da Silva Pinto (10/08/1904 – 01/09/1979) em 1950, no Rio de Janeiro, RJ.
  • Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: os noves livros escritos por Tancredo da Silva Pinto; as tendas criadas por seus iniciados; e o livro “Umbanda Omolocô”, escrito por Caio de Omulu.
  • Orixás: Nesta vertente encontra-se um forte sincretismo dos Orixás com os santos católicos, sendo que aqueles estão vinculados às tradições africanas, principalmente as do Omolocô. Considera a existência de nove Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.
  • Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.
  • Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Falangeiros de Orixá, Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras e Malandros(as).
  • Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, incensos, pontos riscados e atabaques nos trabalhos. Nesta vertente também são utilizadas algumas cerimônias de iniciação e avanço de grau semelhantes à forma como são realizadas no Omolocô, incluindo o sacrifício de animais.
  • Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “A origem de Umbanda”; “As mirongas da Umbanda”; “Cabala Umbandista”; “Camba de Umbanda”; “Doutrina e ritual de Umbanda”; “Fundamentos da Umbanda”; “Impressionantes cerimônias da Umbanda”; “Tecnologia ocultista de Umbanda no Brasil”; e “Umbanda: guia e ritual para organização de terreiros”.

Umbanda Almas e Angola

  • Outros nomes: Não possui.
  • Origem: É fruto da umbandização de antigas casas de Almas e Angola, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada.
  • Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade, uma vez que não existe uma doutrina comum em seu interior.
  • Orixás: Nesta vertente encontra-se um forte sincretismo dos Orixás com os santos católicos, sendo que aqueles estão vinculados às tradições africanas, principalmente as do Almas e Angola. Considera a existência de nove Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.
  • Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá, do Povo d’Água (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã e Iansã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, das Beijadas (onde agrupa as Crianças) e das Almas (onde inclui Obaluaiê e agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).
  • Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Falangeiros de Orixá, Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Exus e Pombagiras.
  • Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, incensos, pontos riscados e atabaques nos trabalhos. Nesta vertente também são utilizadas algumas cerimônias de iniciação e avanço de grau semelhantes à forma como são realizadas no Almas e Angola, incluindo o sacrifício de animais.
  • Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbandomblé

  • Outros nomes: É também conhecida como Umbanda Traçada.
  • Origem: É fruto da umbandização de antigas casas de Candomblé, notadamente as de Candomblé de Caboclo, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada. Em alguns casos, o mesmo pai-de-santo (ou mãe-de-santo) celebra tanto as giras de Umbanda quanto o culto do Candomblé, porém em sessões diferenciadas por dias e horários.
  • Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade.
  • Orixás: Nesta vertente existe um culto mínimo aos santos católicos e os Orixás são fortemente vinculados às tradições africanas, principalmente as da nação Ketu, podendo inclusive ocorrer a presença de outras entidades no panteão que não são encontrados nas demais vertentes da Umbanda (Oxalufã, Oxaguiã, Ossain, Obá, Ewá, Logun-Edé, Oxumaré).
  • Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.
  • Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Falangeiros de Orixá, Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras e Malandros(as).
  • Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens dos Orixás na representação africana, fumo, defumadores, velas, bebidas e atabaques nos trabalhos. Nesta vertente também são utilizadas algumas cerimônias de iniciação e avanço de grau semelhantes à forma como são realizadas nos Candomblés, incluindo o sacrifício de animais, podendo ser encontrado, também, curimbas cantadas em línguas africanas (banto ou iorubá).
  • Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbanda Eclética Maior

  • Outros nomes: Não possui.
  • Origem: É a vertente fundamentada por Oceano de Sá (23/02/1911 – 21/04/1985), mais conhecido como mestre Yokaanam, surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 27/03/1946, com a fundação da Fraternidade Eclética Espiritualista Universal.
  • Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são a sede da fraternidade e suas regionais.
  • Orixás: Nesta vertente existe uma forte vinculação dos Orixás aos santos católicos, sendo que aqueles foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de pelo menos nove Orixás: Oxalá, Ogum, Ogum de Lei, Oxóssi, Xangô, Xangô-Kaô, Yemanjá, Ibejês e Yanci, sendo que um deles não existe nas tradições africanas (Yanci) e alguns deles seriam considerados manifestações de um Orixá em outras vertentes (Ogum de Lei/Ogum e Xangô-Kaô/Xangô).
  • Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, fortemente associadas a santos católicos: de São Jorge (Ogum), de São Sebastião (Oxóssi), de São jerônimo (Xangô), de São João Batista (Xangô-Kaô), de São Custódio (Ibejês), de Santa Catarina de Alexandria (Yanci) e São Lázaro (Ogum de Lei).
  • Entidades: Os trabalhos são realizados principalmente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), e Crianças.
  • Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de uma cruz, um quadro com o rosto de Jesus Cristo, velas, porém os atabaques, as guias, as bebidas e fumo não são utilizados nas cerimônias.
  • Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Evangelho de Umbanda”; “Manual do instrutor eclético universal”; “Yokaanam fala à posteridade”; e “Princípios fundamentais da doutrina eclética”.

Umbanda Esotérica

  • Outros nomes: É também conhecida como Aumbandã, Aumbhandan, Conjunto de Leis Divinas e Senhora da Luz Velada.
  • Origem: É a vertente fundamentada por Pai Guiné de Angola através do seu médium Woodrow Wilson da Matta e Silva (28/06/1917 – 17/04/1988), surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 1956, com a publicação do livro “Umbanda de todos nós”. Sua doutrina é fortemente influenciada pela Teosofia, pela Astrologia, pela Cabala e por outras escolas ocultistas mundiais e baseada no instrumento esotérico conhecido como Arqueômetro, criado por Saint Yves D’Alveydre e com o qual se acredita ser possível conhecer uma linguagem oculta universal que relaciona os símbolos astrológicos, as combinações numerológicas, as relações da cabala e o uso das cores.
  • Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: os noves livros escritos por Matta e Silva; e as tendas e ordens criadas por seus discípulos.
  • Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de sete Orixás: Orixalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Yemanjá, Yori, Yorimá, sendo que dois deles não existem nas tradições africanas (Yori e Yorimá).
  • Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, que recebem o nome dos Orixás: de Oxalá, de Yemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Yori (onde agrupa as Crianças) e de Yorimá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).
  • Entidades: Os trabalhos são realizados somente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças e Exus, sendo que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.
  • Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias feitas de elementos naturais, um quadro com o rosto de Jesus Cristo, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais e tábuas com ponto riscado nos trabalhos, porém os atabaques não são utilizados nas cerimônias.
  • Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Doutrina secreta da Umbanda”; “Lições de Umbanda e Quimbanda na palavra de um Preto-Velho”; “Mistérios e práticas da lei de Umbanda”; “Segredos da magia de Umbanda e Quimbanda”; “Umbanda de todos nós”; “Umbanda do Brasil”; “Umbanda: sua eterna doutrina”; “Umbanda e o poder da mediunidade”; e “Macumbas e Candomblés na Umbanda”.

Umbanda Guaracyana

  • Outros nomes: Não possui.
  • Origem: É a vertente fundamentada pelo Caboclo Guaracy através do seu médium Sebastião Gomes de Souza (1950 – ), mais conhecido como Carlos Buby, surgida em São Paulo, SP, em 02/08/1973, com a fundação da Templo Guaracy do Brasil.
  • Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são os Templos Guaracys do Brasil e do Exterior.
  • Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados em relação às tradições africanas, havendo, entretanto, uma ligação dos mesmos com elas. Considera a existência de dezesseis Orixás, divididos em quatro grupos, relacionados aos quatro elementos e aos quatro pontos cardeais: Fogo/Sul (Elegbara, Ogum, Oxumarê, Xangô), Terra/Oeste (Obaluaiê, Oxóssi, Ossãe, Obá), Norte/Água (Nanã, Oxum, Iemanjá, Ewá) e Leste/Ar (Iansã, Tempo, Ifá e Oxalá).
  • Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.
  • Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Ciganos(as), Exus e Pombagiras.
  • Ritualística: Roupas coloridas (na cor do Orixá) são a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias, fumo, defumadores, velas e atabaques nos trabalhos, porém não são utilizadas imagens e bebidas nas cerimônias.
  • Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbanda do Aumpram

  • Outros nomes: É também conhecida como Aumbandhã e Umbanda Esotérica.
  • Origem: É a vertente fundamentada por Pai Tomé (também chamado Babajiananda) através do seu médium Roger Feraudy (?/?/1923 – 22/03/2006), surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 1986, com a publicação do livro “Umbanda, essa desconhecida”. Esta vertente é uma derivação da Umbanda Esotérica, das quais foi se distanciando ao adotar os trabalhos de apometria e ao desenvolver a sua doutrina da origem da Umbanda, a qual prega que a mesma surgiu a 700.000 anos em dois continentes míticos perdidos, Lemúria e Atlântida, que teriam afundado no oceano em um cataclismo planetário, os quais teriam sido os locais em que terráqueos e seres extraterrestres teriam vividos juntos e onde estes teriam ensinado àqueles sobre o Aumpram, a verdadeira lei divina.
  • Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: os livros escritos por Roger Feraudy; e as tendas e fraternidades criadas por seus discípulos.
  • Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência dos 7 Orixás da Umbanda Esotérica (Oxalá, Yemanjá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Yori e Yorimá) e mais Obaluaiê, o qual consideram o Orixá oculto da Umbanda.
  • Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, que recebem o nome dos 7 Orixás: de Oxalá, de Yemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Yori (onde agrupa as Crianças) e de Yorimá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).
  • Entidades: Os trabalhos são realizados somente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças e Exus, sendo que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.
  • Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso da imagem de Jesus Cristo, fumo, defumadores, velas, cristais e incensos nos trabalhos, porém as guias e os atabaques não são utilizados nas cerimônias.
  • Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Umbanda, essa desconhecida”; “Erg, o décimo planeta”; “Baratzil: a terra das estrelas”; e “A terra das araras vermelhas: uma história na Atlântida”.

Umbanda de Síntese

  • Outros nomes: É também conhecida como Umbanda Iniciática, Ombhandhum e Proto-Síntese Cósmica.
  • Origem: É a vertente fundamentada pelo médium Francisco Rivas Neto (1950 – ), surgida em São Paulo, SP, em 1989, com a publicação do livro “Umbanda: a proto-síntese cósmica”. Esta vertente começou como uma derivação da Umbanda Esotérica, porém aos poucos foi se distanciando cada vez mais dela, conforme ia desenvolvendo sua doutrina conhecida como movimento de convergência, que busca um ponto de convergência entre as várias vertentes umbandistas. Nela existe uma grande influência oriental, principalmente em termos de mantras indianos e utilização do sânscrito, e há a crença de que a Umbanda é originária de dois continentes míticos perdidos, Lemúria e Atlântida, que teriam afundado no oceano em um cataclismo planetário.
  • Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: o livro “Umbanda: a proto-síntese cósmica”; a Faculdade de Teologia Umbandista, fundada em 2003; o Conselho Nacional da Umbanda do Brasil, fundado em 2005; e as tendas e ordens criadas pelos discípulos de Rivas Neto.
  • Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência dos 7 Orixás da Umbanda Esotérica, associados, cada um deles, a mais um Orixá, de sexo oposto, formando um casal: Orixalá-Odudua, Ogum-Obá, Oxóssi-Ossaim, Xangô-Oyá, Yemanjá-Oxumaré, Yori-Oxum, Yorimá-Nanã. Por esta associação nota-se que alguns Orixás tiveram seu sexo modificado em relação a tradição africana (Odudua e Ossaim).
  • Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, que recebem o nome dos Orixás principais do par: de Oxalá, de Yemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Yori (onde agrupa as Crianças) e de Yorimá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).
  • Entidades: Os trabalhos são realizados somente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças e Exus, sendo que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.
  • Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras de Umbanda e a roupa preta, associada ao vermelho e branco, nas de Exu, sendo admitidos o uso de complementos por sobre a roupa dos médiuns, tais como cocares de caboclos. Nela encontra-se o uso de guias, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais e tábuas com ponto riscado nos trabalhos, porém os atabaques não são utilizados nas cerimônias.
  • Livros doutrinários: Esta vertente usa o seguinte livro como principal fonte doutrinária: “Umbanda: a proto-síntese cósmica”.

Umbanda Sagrada

  • Outros nomes: Não possui.
  • Origem: É a vertente fundamentada por Pai Benedito de Aruanda e pelo Ogum Sete Espadas da Lei e da Vida, através do seu médium Rubens Saraceni (1951 – ), surgida em São Paulo, SP, em 1996, com a criação do Curso de Teologia de Umbanda. Sua doutrina procura ser totalmente independente das doutrinas africanistas, espíritas, católicas e esotéricas, pois considera que a Umbanda independe dessas tradições.
  • Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: o Colégio de Umbanda Sagrada Pai Benedito de Aruanda, fundado em 1999; o Instituto Cultural Colégio Tradição de Magia Divina, fundado em 2001; a Associação Umbandista e Espiritualista do Estado de São Paulo; os livros escritos por Rubens Saraceni; e os colégios e tendas criadas por seus discípulos.
  • Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de catorze Orixás: Oxalá, Oxum, Oxóssi, Xangô, Ogum, Obaluaiê, Iemanjá, Oiá, Oxumaré, Obá, Iansã, Egunitá, Nanã, Omulu. Os sete primeiros são chamados Orixás Universais e os outros sete, Orixás Cósmicos, sendo que alguns deles seriam considerados manifestações do mesmo Orixá nas tradições africanas (Obaluaiê/Omulu e Oiá/Iansã/Egunitá).
  • Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, chamadas de tronos divinos, que agrupam os catorze Orixás em casais: Fé (Oxalá-Oiá), Amor (Oxum-Oxumaré), Conhecimento (Oxóssi-Obá), Justiça (Xangô-Iansã), Lei (Ogum-Egunitá), Evolução (Obaluaiê-Nanã) e Geração (Iemanjá-Omulu).
  • Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras e Exus-Mirins.
  • Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias, fumo, defumadores, velas, bebidas e pontos riscados nos trabalhos, porém os atabaques e as imagens não são utilizados nas cerimônias.
  • Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “A evolução dos espíritos”; “A magia divina das sete pedras sagradas”; “A magia divina dos elementais”; “A magia divina dos sete símbolos sagrados”; “A tradição comenta a evolução”; “As sete linhas de evolução”; “As sete linhas de Umbanda: a religião dos mistérios”; “Código de Umbanda”; “Deus, deuses, divindades e anjos”; “Formulário de consagrações umbandistas: livro de fundamentos”; “Hash-Meir: o guardião dos sete portais de luz”; “Lendas da criação: a saga dos Orixás”; “O ancestral místico”; “O código da escrita mágica simbólica”; “O guardião da pedra de fogo: as esferas positivas e negativas”; “O guardião das sete portas”; “O guardião dos caminhos: a história do senhor Guardião Tranca-Ruas”; “Orixá Exu-Mirim”; “Orixá Exu: fundamentação do mistério Exu na Umbanda”; “Orixá Pombagira”; “Orixás: teogonia de Umbanda”; “Os arquétipos da Umbanda: as hierarquias espirituais dos Orixás”; “Os guardiões dos sete portais: Hash-Meir e o Guardião das Sete Portas”; “Rituais umbandistas: oferendas, firmezas e assentamentos”; e “Umbanda Sagrada: religião, ciência, magia e mistérios”.

Extraído do site:

http://registrosdeumbanda.wordpress.com/2009/07/05/as-umbandas-dentro-da-umbanda/

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O Canto do Sabiá e o Pio da Coral

 

Por Thiago Luiz Ferreira Miranda

Já com algum tempo de leituras e pesquisas incessantes sobre o assunto, a Umbanda me aparece com o curioso aspecto de religião em formação. Muitas são suas faces. Teses são apresentadas sobre seus múltiplos aspectos, almejando sempre a expressão completa, a totalidade das Leis que a regem, ou seja, sua Codificação.

Do muito e do pouco já dito, aparecem alguns pontos comuns, a presença das manifestações espirituais de antepassados culturais brasileiros como o preto-velho, o caboclo, o boiadeiro e tantos outros que se “manifestam” nos inumeráveis terreiros espalhados por este Brasil afora. Do uso da magia para fins diversos e cânticos sagrados (as curimbas), não há terreiro ou tenda que não possua.

Estamos então diante de um caldeirão fervendo chamado Umbanda. Seus mistérios vão desde o seu nome correto – uns dizem possuir origem sânscrita! – passando por sua origem, histórica ou mítica, e pelos Orixás – quais seus nomes corretos, quais deles devem ser cultuados e de que forma. Uma dentre as várias correntes existentes no movimento umbandista, vem crescendo em aceitação, seja em sua prática ritualística, seja em sua parte teórica e mesmo no esboço para uma filosofia na ou da Umbanda. Digo pois da Umbanda Esotérica, cujo divulgador mais conhecido foi W.W. da Matta e Silva (1917 -1988) escritor de nove livros sendo que, o primeiro é também o mais importante deles, “Umbanda de Todos Nós”, primeira edição em 1956.

As dificuldades de entendimento desta raiz estão – assim como toda a Umbanda – imersos ainda em alguns véus, principalmente aos novos umbandistas, ou melhor, aos umbandistas que não tiveram a oportunidade de conviver com os primeiros praticantes desta religião. Infelizmente eu também não tive esta oportunidade, não obstante meu espírito intrigado e sedento por conhecimento das coisas às quais me interesso não me deixam desistir da pesquisa, da investigação, da procura pelos primórdios desta religião bem como suas diversas correntes que quem sabe num futuro próximo ou distante venham a se unir em nome de um conhecimento único ou constituir escolas de entendimento que apesar de distintas em suas práticas apenas fazem engrandecer a Umbanda.

Dois problemas lançarei à discussão neste texto. O primeiro deles é sobre a origem histórica desta Umbanda Esotérica e o segundo, sobre a mudança paradigmática operada por esta corrente no entendimento do Orixá, influenciando drasticamente em suas formas de culto, bem como o ponto arquimediano que vem permitindo esta operação.

Dois motivos principais me impulsionam a publicar este texto em caminhos virtuais: a busca por novas informações que possam engrandecer meus conhecimentos e a discussão por parte de todo o meio umbandista, principalmente os seguidores desta corrente, sobre as trilhas abertas nas Matas da Jurema por este diferente pensamento instaurado e nem sempre, creio eu, tão bem analisado ou discutido em seus alicerces. A sua adoção depende de modificações profundas no consciencial umbandista e que dificilmente estão sendo percebidas. E se o canto da Sabiá dentro das Matas da Jurema é sedutor, a picada da Coral é certeira, venenosa e quase sempre mortal.

Deixo claro que nenhuma das palavras que direi neste momento em nada afetam a importância dos personagens envolvidos, seja pelas idéias, seja pela influência que vem exercendo no espírito de tantos. Meu objetivo único é conhecimento, conhecimento, conhecimento. Respeitados aqueles que possuem conhecimento. Respeitada é a religião cujos integrantes tem conhecimento de suas origens e de sua doutrina.

No início deste texto disse que o maior divulgador da Umbanda Esotérica, teria sido Mestre Yapacani. Ao que nos consta, realmente o foi. Mas alguns fatos me levam a crer que apesar de reconhecida importância, não fora este insigne mestre o iniciador de tal doutrina dentre o meio umbandista. No ano de 1941 fora realizado, dos dias 19 a 26 de outubro, na cidade do Rio de Janeiro, até então capital brasileira, o Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, com a participação de médiuns pertencentes a diversas Tendas, almejando por objetivo a apresentação de teses relacionadas à Umbanda em suas diversas matizes e interesses (estas teses estão registradas em um livro editado em 1942 pela Federação Espírita de Umbanda na época sito à rua São Bento n. 28 – RJ) Dentre elas estava a Tenda Espírita Mirim cujo delegado representante fora o sr. Diamantino Coelho Fernandes.

No dia 19 de outubro do transcorrido ano a Tenda Espírita Mirim apresentava a seguinte tese:

“O Espiritismo de Umbanda na Evolução dos Povos – Fundamentos históricos e filosóficos”. Eis pequena parte da tese (transcrição literal) : “O vocábulo UMBANDA é oriundo do sanskrito, a mais antiga e polida de todas as línguas da terra, a raiz mestra, por assim dizer, das demais línguas existentes no mundo. Sua etimologia provém de AUM-BANDHÃ (om-bandá) em sanskrito, ou seja, o limite no ilimitado… A significação de UMBANDA (o correto seria Ombanda) em nosso idioma, pode ser traduzida por qualquer das seguintes fórmulas: Princípio Divino; Luz Irradiante; Fonte Permanente de Vida; Evolução Constante.”

Bem, nos encontramos diante do primeiro problema. Tais afirmações seriam editadas no ano de 1956 por Pai Matta o qual requer autoridade intelectual sobre tal tese, não por ter ele mesmo formulado tais explicações mas, como por ele mesmo escrito, em Umbanda do Brasil pag.74 em sua 2ª edição “…essa Revelação que originalmente nos foi feita pelo Astral Superior da Lei de Umbanda.” Lembremo-nos que a primeira publicação de seu primeiro livro ” Umbanda de Todos Nós” seria em 1956 ou seja, aproximadamente 15 anos após o Primeiro Congresso do Espiritismo de Umbanda. Estamos portanto diante de duas informações, de dois fatos que não se coadjuvam.

Segundo pesquisas feitas pela Internet existe uma Federação no Rio de Janeiro tendo por nome Primado de Umbanda que professa os mesmos conceitos expostos por Mestre Yapacani, quanto à designação de 7 Orixás (Orixalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Yemanjá, Yori, Yorimá) bem como a concordância com a origem sanscrita da palavra Umbanda e o Nheenghatu (língua indígena derivada do Abanheegá, também indígena) usada com diversas finalidades dentro deste movimento, por exemplo, quanto à formação de nomes iniciáticos e mântras sagrados. Ao consultar a bibliografia usada por tal Federação bem como por todos os terreiros a ela filiados, constatei a não utilização dos livros de W.W. da Matta e Silva não obstante, dois livros formam citados como fonte e ambos anteriores a 1956 ou seja, anteriores à publicação de Umbanda de Todos Nós. Portanto, ou esqueceram de citar o uso de tal bibliografia, ou realmente estas explicações são anteriores a W.W. da Matta e Silva.

E curiosamente a entidade fundadora desta Federação chama-se Tenda Espírita Mirim, cujo fundador sr. Benjamim Figueiredo, médium do conhecido Caboclo Mirim, mesma entidade que apresentou a tese sobre as origens sanscritas da palavra Umbanda no Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda.

Gostaria que pesquisadores, umbandistas ou não, mas sinceros e que de fato sejam conhecedores deste momento histórico na Umbanda possam me disponibilizar informações com as respectivas “provas” para que possamos traçar linhas mais claras sobre o desenvolvimento desta corrente na Umbanda. Volto a afirmar que meu interesse neste momento é única e simplesmente histórico e que quaisquer afirmações não influenciarão em nada a figura de Mestre Yapacani, portentoso médium cujo esforços em muito ajudou e ainda vem ajudando de forma vigorosa o movimento umbandista através de seus livros, mesmo após 45 anos de suas primeiras publicações e 12 anos de seu desenlace.Com todas suas bênçãos, Saravá Pai Matta!

Iniciarei neste momento o segundo ponto que me propus a discutir neste texto, as mudanças operadas pela Umbanda Esotérica no culto aos Orixás e o ponto arquimediano desta mudança. Peço a partir de agora um pouco da paciência dos leitores e atenção redobrada, pois talvez o texto se torne algo mais denso para compreensão.

Nada mais claro nos é hoje que, com a vinda dos africanos para o Brasil, vieram com eles também a suas religiões. Estas, com o passar dos tempos e outras causas que não cabe a este texto discutir se uniram e se amalgamaram constituindo então aquilo que hoje chamamos de Candomblé. O Candomblé possui como cerne de sua adoração os Orixás, chamados por uns de Inkices e por outros Voduns. Estes de modo geral foram antepassados dos povos que para cá vieram, como por exemplo, Xangô era rei da cidade de Oyó e Ogum da cidade de Irê. Com uma série de contos sagrados os itán-ifá, que hoje simplesmente identificamos por “lendas” do candomblé, constituem todo a base deste sério sistema religioso possuindo inclusive uma profunda filosofia nos conceitos para entendimento do Homem e a profunda integração com a Natureza.

Estes mesmos Orixás eram lembrados por seus feitos quando humanos, e pelos motivos de suas transformações em Orixás. A transformações destes homens importantes em Orixás por vezes remetem a uma guerra ou a uma grande paixão, podendo passar por grande ódio ou desilusão, ou por possuírem poderes de cura. Eram lembrados também por suas principais características na Terra ( Aye ), como ser justo, ou brigão, vaidoso, charmoso ou mesmo vingativo. A lembrança destes Orixás, portanto seus cultos consiste em oferendas destas ou daquelas comidas, panos de diversas cores, ou bebidas que mais os agradam e isto também relacionado a todo um sistema de práticas de magias e curandeirismos daquele povo, ou melhor daqueles povos.

Geralmente estes importantes homens ao se transformarem em Orixás tornavam-se elementos da Natureza como um rio, uma árvore, o mar, ou do Orum poderiam ter domínio de uma força natural como os trovões, as chuvas, as matas. Então podemos ressaltar que para os povos africanos e também em seus cultos no Brasil, a ligação dos Orixás é com a Natureza sendo eles próprios os elementos da Natureza ou Forças Divinizadas dela e não com os astros, cuja presença em todo o sistema de culto aos Orixás é inexpressiva ou mesmo inexistente. “Os iorubás como povos da floresta, pouco se interessam pelos astros, para eles, florestas e rios são mais importantes que a Lua ou as estrelas.” “A morada dos deuses iorubás, emblematicamente, não fica no céu, mas sob a superfície da terra.” ( Prandi ,R. 2002 ).
Tentarei agora a delimitar o problema que quero expressar.

A noção da “morada dos Orixás sobre a superfície da terra” é um conceito importantíssimo para este culto pois representa, a meu ver, um profundo enraizamento do homem na Natureza. Tudo está aqui e aos nossos olhos e mãos. Isto é o Orixá: os rios, o mar, as matas, as folhas e o vento e tudo isto que é a Natureza é o Orixá. Guardemos claramente isto em nossa mente e espírito.

Vejamos agora a mudança operada na Umbanda Esotérica:

Por diversas vezes Pai Matta em seus livros cita o nome de um pesquisador francês, Saint-Yves D’Alveydre. Este pesquisador parece ter sido escritor de alguns livros, dentre eles “L’ Archéomètre”, ou “O Arqueômetro”. Poucas informações temos sobre o livro ou o autor mas, sabemos que ele apresenta um alfabeto dito como adâmico ou wattan, ou seja, um dos ou o primeiro alfabeto surgido entre os homens, segundo Mestre Yapacani. Sabemos ainda que este arqueômetro permitiu a ligação entre o dito alfabeto adâmico com os alfabetos hebraicos, sanscrito e latino, e destes com a numerologia bem como aos signos astrológicos.

Creio eu que a aplicação que a Umbanda Esotérica faz é, associar o nome dos Orixás à estas correlações dadas por Saint-Yves associando o nome do Orixá com suas correspondências numerológicas e astrológicas e daí a correlação com cores e dias da semana. Esta nos parece ser a grande diferença existente no ritual da Umbanda Esotérica. Isto a meu ver implica em drástica mudança ante o entendimento e culto do Orixá.

O Orixá como anteriormente dissemos, não está relacionado com o culto das estrelas ou quaisquer outras correspondências astrológicas, (apoiados estamos sobre pesquisas de respeitados antropólogos). O Orixá relaciona-se com as coisas da Natureza e não com a Lua ou as estrelas, segundo a Tradição. Não que na Umbanda Esotérica a Natureza e seus reinos, sejam descartados mas tornam-se moradas deste ou daquele Orixá pelas influências astrológicas que estas exercem sobre este ou aquele reino. Então a relação do Orixá com a Natureza torna-se secundária!

Apenas sete tornam-se os Orixás cultuados, Oxalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Yemanjá, Yori, Yorimá, sendo estes dois últimos termos completamente desconhecidos. Com uma interpenetração um pouco maior neste estudos e atenção nas leituras conseguimos entender o surgimento deste dois termos. Yori é cultuado por todos como Ibeji, são as crianças, os erês, os populares meninos-de-angola. Existe uma discussão se Ibeji é Orixá ou não, mesmo nos cultos africanos onde parece realmente não ser. Aqueles que queiram se aprofundar nesta discussão, ver livro Os Candomblés da Bahia, Roger Bastide.

Quanto a Yorimá, peço a licença para a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino para reprodução de um pequeno trecho do artigo “Os Sete Grandes Mistérios” publicada na “Revista Umbanda – Uma Religião Brasileira” em seu número sétimo, mês maio/junho, do ano 1995, seu autor, William do Carmo Oliveira. Hei-la:

“Yorimá: conhecido nos meios externos da Umbanda , como Obaluayê, Omulu, Shapanan, Yorimá é o termo sagrado do Orixá que assim era fonetizado pela Antiga Raça Vermelha. Representa a terra.” Apresentando um mito de Obaluaye, que interpretado sob correlações numerológicas, chega-se a um mesmo valor numérico do termo Shapanan e Yorimá. Seriam portanto uma mesma força, um só Orixá.

A explicação dada para tais modificações seria que, os termos Yorimá e Yori seriam termos litúrgicos esquecidos nas “noites do tempo”, num glorioso passado da humanidade, de forma pura e límpida estas sete vibrações eram cultuadas. Os mais habituados a tais leituras verificam que sempre referentes aos termos Yorimá e Yori, estão vocábulos como, desvelado, reimplantado ou reaparecido. Estes mesmos termos constituiriam a “Coroa do Verbo”, isto significa, termos sagrados para a movimentação das energias. Realmente, existe um mito narrando um nome oculto de Omulu/Obaluaiê, sendo, por algum motivo, muito perigoso ser pronunciado. Seria Yorimá!?

Na página virtual do “Primado de Umbanda”, complementar a estas informações, dizem: “… os fundamentos continuam os mesmos.” Será? As alterações também estão nas cores que representam as divindades. Estas anteriormente lembravam d’algum modo o Orixá e seus feitos ou moradas – por exemplo o verde das matas de Oxossi, ou o azul dos mares de Yemanjá, na Umbanda Esotérica sob as correspondências astrológicas tornam em amarelo, Yemanjá, Oxossi em azul, Ogum em alaranjado e Xangô, verde.

Problemas podem ser identificados; o primeiro relaciona-se ao ponto arquimediano desta operação, ou seja, o “arqueômetro”. Este livro ou aparelho faz relações entre os alfabetos wattan, sânscrito, hebraico e latino, não parece fazer diante das línguas e dialetos africanos. Não havendo a ligação entre estes alfabetos, improvável se torna a relação. Talvez o motivo de ligar estes termos litúrgicos africanos a um passado na Índia ou de um antepassado comum entre eles, expressados por Pai Matta e seus seguidores seja este.

Um último problema que vejo seria que Orixás tão queridos e importantes como Oxum, Iansã ou Nanã não mais podem assumir a “cabeça” de um filho, função esta restrita aos sete Orixás supracitados. Quais funções passam a assumir estes Orixás? Será que, sendas futuras, assim como fazemos nós, também chorarão termos sagrados, esquecidos nas brumas de um passado áureo, que incautos reformadores e seguidores pouco vigilantes não souberam honrar ?!

Espero que não tenha sido eu, pedante ao ponto de afastar-vos de meus escritos. Também deixo claro que sou “filho” da Umbanda Esotérica e que minha vivência nesta religião já trilhada por 6 anos initerruptos de práticas e estudos. Porém de olhos bem abertos tento caminhar. Que a beleza do canto do Sabiá e a força presente na Cobra Coral acompanhem a todos os que por Amor à Verdade caminham devagar porém firmes