Desobsessão do Sr. Marabô

Disponibilizamos um trecho do livro Os Dragões, que mostra um trabalho de desobsessão realizado pelos espiritos que se apresentam na falange do Sr. Exu Marabô.

Sem se opor à minha presença, partimos em direção às furnas do mal. Clarisse, eu, Cornelius e mais um grupo de defesa do Hospital Esperança.

Chegando ao local, presenciei algo inusitado. O ciclope da mitologia grega não era pura imaginação. Indaguei de chofre:

— Quem são os ciclopes, Clarisse?

— Espíritos rudes a serviço do mal. Estamos na região subcrostal chamada Pântano das Escórias, subúrbio enfermiço do Vale do Poder. Aqui são feitos prisioneiros os servidores da maldade organizada que não obtiveram êxito em seus planos nefandos. Castigos e sevícias de todo o porte são levados a efeito nestas plagas.

— Por que viemos aqui?

— Venha! Vamos encontrar nossa equipe.

Logo adiante estava Eurípedes com uma equipe de vinte a trinta defensores. Tinha o braço ferido. Quem imagina os espíritos isentos dessa contingência, não concebe com exatidão os mecanismos fisiológicos e anatômicos do corpo espiritual, sujeito, nas proximidades vibratórias da Terra, às mesmas injunções de saúde e doença, dor e prazer. Um corte de dez centímetros na altura do ombro do benfeitor era cuidado com carinho por uma diligente enfermeira da equipe. A diferença ficava por conta do domínio mental. Enquanto era tratado, conversava atentamente com os presentes sem demonstrar uma nesga de sofrimento. Os ciclopes o feriram com seus chicotes impiedosos. Tive ensejo, ali mesmo, de manifestar meu carinho ao amigo querido. Embora minha surpresa, o tempo e a experiência foram me mostrando que tudo era possível ocorrer em tais tarefas socorristas. Incêndios, tiroteios, ciladas, guerras armadas e outras tantas manifestações de violência já conhecidas da humanidade. Não cheguei a ver os ciclopes naquela ocasião, mas só a onda de crueldade deixada no ambiente já me apavorava. Clarisse não regateava esclarecimentos a mim.

— Estamos no inferno de Dante, dona Modesta.

— Parece-me ser até pior do que ele descreveu.

— Sem dúvida.

— O que faremos agora?

— A tarefa por aqui já está cumprida. As entidades que necessitavam de socorro já foram levadas para onde prosseguirá o trabalho.

— Eram almas arrependidas?

— Não. Eram escravos da perversidade. Servidores inconscientes das sombras. Foram necessárias mais de quatro horas de intensas iniciativas para alcançar resultados no amparo. Ainda assim, veja o estado de nossos companheiros. Eurípedes ferido, os defensores exaustos e tudo isso apenas para que seis entidades pudessem ter acesso à manifestação mediúnica.

— Vão se comunicar a essa hora da noite? Que centro abriria suas portas? – expressei sabendo que já passava da meia-noite no relógio terreno.

— Os verdadeiros servidores cristãos só se utilizam do relógio com intuito disciplinar. Não condicionam o ato de servir aos ponteiros limitantes do tempo. Visitaremos o Centro Umbandista Pai Guiné, nos arredores de Uberaba.

— O pai-de-santo Ovídio?

— Ele mesmo.

Tive de confessar, em um primeiro momento, meu preconceito. Guardava respeito pelas demais religiões, entretanto, nunca havia refletido sobre quem seriam e onde estariam as cartas vivas do Cristo. Por uma tendência natural asilei o despeito. Ainda bem que foi algo muito passageiro em meu coração, porque as experiências fora e dentro da vida corporal, cada dia mais, apresentavam-me uma realidade distante das ilusões que adulamos sob o fascínio impiedoso do orgulho na sociedade terrena dos mortais.

Após as despedidas, a equipe de Eurípedes regressou ao hospital. O pedido de socorro foi uma medida preventiva. Apesar dos feridos e exaustos, todos guardavam o clima da paz.

Por nossa vez, partimos para o Centro Pai Guiné. Era um ambiente agradável em ambos os planos. Ao som dos atabaques, eram cantados os pontos em ritmo vibratório de alta intensidade. Cada canto era como uma verdadeira queima de fogos de artifício. Uma bomba energética explodia no ar em multicores.

Em uma das várias dependências astrais da casa havia uma enfermaria com oitenta leitos bem alinhados. Tudo nesse salão era limpeza e calmaria. Lá não se ouviam mais os cantos, e a conexão com o plano físico limitava-se ao trânsito de enfermeiros pelos vários portais interdimensionais. Regressamos ao ponto de intersecção vibratória com o plano físico.

Seis macas estavam dispostas no canzuá (terreiro). Em cada qual havia uma entidade de aspecto horripilante. Olhos que quase saíam das órbitas oculares, pele murcha, enrugada e suja, garras enormes no lugar das unhas, com dez centímetros, nas mãos e nos pés, todas retorcidas como as de águia. Magérrimos e nus. Causavam náuseas pelo odor. Olhavam para nós deixando claro que nos viam e, literalmente, grunhiam como porcos com a boca semiaberta. Alguns deles estavam muitos inquietos nas macas. Retorciam-se como se estivessem com dor, sem manifestar nenhum som. Vários hematomas estavam expostos em todos eles, devido aos castigos impostos nos paredões de penitência.

— As garras são colocadas para impedir a fuga. Não andam nem têm grande habilidade manual – informou Clarisse, com manifesto sentimento de piedade.

— Como serão socorridos?

— Pela incorporação profunda ou vampirismo assistido.

— Nos médiuns umbandistas?

Mal terminei a pergunta e vi uma cena nada convencional. Um dos enfermeiros da casa pegou uma das entidades no colo e jogou-a no corpo do médium.

Demonstrando câimbras na panturrilha, o médium, incontinenti, absorveu mental e fisicamente o comunicante que se ajeitou no corpo do medianeiro como se deitasse em um colchão, buscando a melhor posição. Os atabaques aceleraram o ritmo, criando um frenesi de energia no ambiente. Formavam-se pequenos redemoinhos de cor violeta e prata, que se desfaziam e refaziam em vários cantos do terreiro. Modulavam conforme a nota musical dos hinos cantados.

O médium estrebuchou no chão. Convulsões e grunhidos seguidos de gritos de dor. Ovídio, o pai-de-santo aproximou-se e disse:

— Oxalá proteja seus caminhos, filho de Zambi (Deus).

— Eu sou filho do capeta. Quem és tu para falar comigo? – redarguiu a entidade, que agora falava com facilidade por intermédio do médium.

— Sou um tarefeiro da luz.

— Eu sou uma escória da sombra.

— Engano, criatura!

— Não vê minhas garras? Sabe o que isso?

— Conheço essa técnica. São ferrolhos do mal.

— Vejo que estais acostumados ao mal.

— Vim desses vales da sombra e da morte – falava Ovídio com firmeza na voz.

— Mas andas e és livre. Estais no corpo, enquanto eu… Eu sou um verme roedor… Ou quem sabe uma águia que não voa… Nem sequer consigo andar graças a essa maldição que colocaram em meus pés… Nem comer mais… Veja minhas mãos… Eu tenho fome e sede.

— Em que te posso ser útil irmão? – indagou Ovídio debaixo de uma forte vibração.

— Quero bebida e comida. Quero que cortem minhas garras.

— Laroyê! Laroyê1 – gritou Ovídio já incorporado por um de seus guias que entoava o canto: “Eu sou Marabô2, rei da mandinga. Eu sou Marabô, exu de nosso Senhô. Laroyê!”

Uma energia colossal movimentou-se com a chegada do Exu Marabô. Os filhos-de-santo o saudavam com palmas rítmicas e pontos próprios da entidade. Muitos deles iam até Marabô, baixavam a cabeça em sinal de reverência à sua frente e batiam três palmas rítmicas na altura do abdômen do médium.

— Que tu quer, homem esfarrapado. Bebida pra mode se arrebentá mais?

— Não, senhor Marabô. Não é isso não.

— Não mente pra Marabô. Marabô sabe ler os ói (olhos). Nos ói tá a visão, mas tá também a verdade e a mentira.

— Eu não minto, senhor. Quero liberdade.

— Pra fazer o que dá na cabeça? Home tu preso é um perigo, livre é um desastre.

— O que o senhor vai fazer por mim? Não pedi a ninguém pra sair daquela joça de lugar fedorento. Por que me trouxe aqui?

— Não fui eu quem trouxe home. O véio Bezerra da luz é teu protetor. Sirvo a ele na graça de Oxalá, Pai de poder e misericórdia.

— Que queres comigo?

— Está feliz na matéria do cavalo (médium)?

— Sei que não é minha. Quero uma só pra mim.

— Esta gostando do contato?

— Só fartó bebida e comida.

— Olha suas garras.

— Não pode ser! O que aconteceu?

– O cavalo (médium) ta dissolvendo suas algemas.

– Pra sempre?

– Pra sempre!

– Quanto vai me custar?

– Nada. É serviço de Pai Oxalá. É de graça. Pedido do veio Bezerra de Menezes. Se voltar pro inferno, elas crescem de novo. Se subir com Bezerra da luz, vai ser cuidado no hospital da sabedoria, onde reina os filhos de Gandhi.

– Filhos de Gandhi? Por que se interessaria por escórias como nós. Veja lá nas macas os amigos estropiados – e apontou para a sala ao lado.

– Nada retira do ser humano a condição de Filho do Altíssimo…

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Zeladores de Santo, Curso de Sacerdócio, Guias de Reserva, Evangelho nos Trabalhos.

Saudações fraternas, irmãos de fé.

Mais um texto do formato bate-papo sobre os zeladores de santo, os médiuns que não podem trabalhar com outro guia da mesma linha e a evangelização nos trabalhos umbandistas.

Primeiramente, gostaria de expor a minha humilde opinião sobre o Zelador de Santo, primeiramente, na Umbanda não trabalhamos com Santos, Santos são espíritos que já encarnaram e podem continuar encarnando na Terra pelos mais variados objetivos, segundo a liturgia Cristã, foram todos aqueles que foram salvos por Jesus Cristo ou tiveram uma consulta ilibada em Vida, de devoção e de Trabalho Altruísta, essa é a definição básica de santo, claro, que se consultarmos com calma a história da maioria dos Santos, nada mais foram que pessoas comuns, algumas até hediondas, mas isso não é o assunto do Post. Não incorporamos o Santo, não incorporamos São Jorge, São Sebastião, nenhum deles, isso é apenas Sincretismo, consequentemente Santo é diferente de Orixá, porque Orixá é desdobramento Vibratório, é Vibração Divina, á uma Força Natural dispersa no Cósmico. Nem o próprio Orixá, incorporamos, e sim um representante Natural daquela Força, daquela Vibração. Então, irmãozinhos, não confundam Orixá e Santo, são assuntos completamente distintos, o Santo pode estar contido na Vibração do Orixá, e não o contrário é a mesma analogia de que Cristo é Deus, e não é bem assim, Deus está em Cristo e não o contrário. De certa forma, Cristo é a representação de Oxalá, porque ele veio para Terra, trazer a Fé, a Paz, trazer o Conhecimento Divino e acender a Luz Divina Interior que cada um nós temos, ele não é Oxalá, mas trouxe consigo toda essa vibração, compreenderam?

Com isso, espero ter sido o mais claro possível quanto a esse fundamento, então para que teremos zeladores de santo em um local que não existem Santos?

Agora vamos desmembrar o que significa um zelador: É aquele que zela, é aquele responsável por cuidar de um determinado assunto, então zelador de santo, é aquele que zela e cuida do santo. Contraditório.

Vale deixar bem claro que não estou questionando a serventia de um zelador de santo, pra mim, esse nome nem deveria existir mais, primeiramente porque é sabido que não temos santos na Umbanda, outro motivo, é que quem zela realmente pelo nosso orixá, somos nós mesmos, nós que damos as oferendas, trazemos sua Energia em nossa matéria, acendemos as Velas, vibramos com ele, então, todos nós somos zeladores de nossos próprios orixás, correto?

Então, está aí mais um estudo de vício, zelador de santo, pai de santo, são nomes que não fazem muito sentido quando estudamos minuciosamente o assunto. É um dos exemplos que eu sempre digo sobre estudar o vício, seguir uma tradição sem estudar a causa da mesma.

Esse é um termo que veio do candomblé, junto com os sacrifícios e outras centenas de fundamentos que incorporaram na Umbanda atual. Como dizia Pai Agenor, “No meu tempo o candomblé era de morim, hoje é de plumas e lantejoulas”.

Portanto, pai-de-santo, zelador de santo não é usual na Umbanda porque não ocorre esse tipo de zelo por parte do dirigente.

Agora vamos falar um pouco sobre o curso de sacerdócio.

Já conheci alguns irmãos que realizaram esse curso e gostaram bastante, mas é importante lembrar que esse curso o torna sacerdote de uma linha apenas dentro do contexto do Saraceni, é importante dizer que já é um tipo de Umbanda que sofreu algumas adaptações, já presenciei alguns centros que possui essa linha e para mim, particularmente não agradou muito, já vi muitas pessoas felizes com esse tipo de liturgia e eu mesmo já presenciei a eficiência dos trabalhos, mas é muito importante salientar, que te torna sacerdote de um tipo específico de liturgia de Umbanda, pra mim, já não seria útil, porque além de preferir um “curso” direto com os meus mentores, eu sou adepto e até mesmo parte de uma liturgia totalmente diferente. Os centros que eu presenciei que trabalham com essa linha, trabalha muito com o Orixá, e eu já não sou tão adepto a essa forma de trabalho, eu mesmo já fui instruído a ter um tipo de trabalho mais centralizado e focado em assistência e não muito em rituais, e a abertura para mim é um pouco cansativa.

Mas é o que eu sempre digo, para cada qual é dado conforme seu merecimento e conhecimento, como já havia dito. Já vi funcionar muito bem esse trabalho, os centros dessa linha são relativamente cheios, funciona pra muita gente, mas não para mim, o mesmo acontece com pessoas da linha Guaracyana, é muito bacana, um ritual agradável, mas não é a minha praia.

O curso de sacerdócio para quem GOSTA da linha do Saraceni, que tem muitos livros dentro da Umbanda, quem gosta de todo aquele Esoterismo explanado em seus livros, é um curso bacana, mas é muito importante salientar que o sacerdócio de um Terreiro, quem o torna é o seu mentor, é a corrente mediúnica que você tem, não adianta você ter uma missão de ser filho de fé, de você ter mentores que ainda não querem uma casa e fazer esse curso, você será sacerdote no “diploma”, mas não terá preparo “espiritual” para tal, o curso é um apoio, mas isso não o torna um dirigente e nem tampouco capaz para dirigir um terreiro, nem todo médico é bom, como nem todo formando é competente em sua área, nesse mesmo preâmbulo, um pedaço de papel não o tornará capacitado para dirigir um templo espiritual, isso é muito importante ter em mente.

Nesse mesmo assunto de linha de Saraceni, linha de Carlos Buby, que é a linha Guaracyana, tem também algumas limitações da forma de trabalho dos médiuns, por exemplo, conheço alguns irmãos de algumas escolas umbandistas que não podem trabalhar com mais de um caboclo, ou melhor, com mais de um mentor durante os trabalhos na casa, uma vez que seu caboclo deu o nome ou apareceu no terreiro, será esse até o fim de seus trabalhos dentro da casa. Eu particularmente não concordo, mas como eu sempre digo, dentro da Umbanda existe diversas linhagens, e com elas, as suas vantagens e desvantagens de cada liturgia, isso me remete ao centro do dirigente vaidoso onde só o marinheiro dele é o capitão do mar.

Eu particularmente não gosto de limitar o médium e nem a forma de trabalho da corrente dele, obviamente dentro do meu conceito de boas práticas, é claro, e é muito importante salientar que todo dirigente já foi um médium iniciante, portanto, pra mim seria muito importante realizar um bom desenvolvimento em um médium que um dia terá a sua casa, seria até mesmo um grande prazer.

Todos os médiuns possuem mais de um mentor em cada linha, uns tem mais, outros menos, não existe uma regra, uma linha de Produção no Mundo Espiritual, cada médium vem em Terra desempenhar um papel diferente do outro, o médium de cura, por exemplo, não precisaria ter 500 exus, diferente de um médium que vem com o objetivo de ser um dirigente, quanto mais guardiões para sustentar a casa, melhor fica. Então, irmãozinhos, cada qual com o seu merecimento e missão designada.

Acontece o fato de que talvez o seu caboclo de trabalho estar em uma outra missão, como já citei aqui no blog, Tranca-Rua que eu sirvo,  uma vez se ausentou e avisou uma semana antes avisando do desencarne massivo em nosso plano, isso aconteceu com o tsunami na Tailândia.

Então o médium vai ficar parado sem ter o que fazer? Importante também lembrar que temos pelo menos um par de orixás, onde cada um trará o mentor de sua vibração para trabalhar junto com o médium, então, por que não deixar o médium trabalhar com pelo menos dois de cada linha de sua corrente? É muito comum você ter um “mentor de reserva”. O que não pode é virar circo, dentro de uma mesma corrente vir três ou quatro na mesma linha, mas isso pode ser evitado se for explicado calmamente ao médium.

Portanto, limitar o número de mentores de cada linha nos trabalhos em minha opinião não seria uma prática habitual.

Agora falando um pouquinho sobre os Evangelhos dentro das liturgias.

Evangelho nos trabalhos eu acho uma prática excelente, aquela leitura do evangelho segundo o espiritismo ou até mesmo da bíblia, e refletirmos uns 10 minutos sobre aquele assunto, eu acho uma prática imprescindível para todos os trabalhos, para os que me conhecem, sabem que eu prezo o conhecimento, os estudos acima de tudo, e isso não seria diferente antes da abertura dos trabalhos, sempre bom aquele assunto antes de abrir os trabalhos, aquele debate filosófico, onde cada médium poderia contribuir com sua opinião e experiência, acho que se a grande maioria das casas adotassem essa prática, não teríamos tanto irmãozinhos perdidos e que necessitam recorrer a meios externos para aprendizado. Além do Evangelho, acho interessante um tipo de trabalho aonde o mentor vem e dá o seu recado, passa o seu ensinamento, a sua experiência.

Tudo o que traz conhecimento, experiência e desperta no médium a curiosidade e a saciedade, eu acho imprescindível e já foi determinado pelos meus mentores quando chegar o meu momento, a casa terá palestras, doutrina aberta ao publico sobre os mais variados assuntos esotéricos, cada um fazendo a sua parte e aprendendo um pouquinho de cada, chegaremos muito longe.

Nenhuma Senda trabalha melhor a evolução das pessoas do que a própria Senda do Conhecimento, ela nos leva a todas as outras.

Esse foi apenas um bate-papo rápido.

Com amor.

Neófito da Luz.

Agô no cemitério e na encruza, sexo na sexta, antropomorfismo e vaidade do dirigente.

Agô no cemitério e na encruza, sexo na sexta, antropomorfismo e vaidade do dirigente.

Caros irmãos, Namastê.

Hoje vou tentar uma modalidade diferente de post, vou pegar pequenos posts, tentar encontrar alguma relação entre eles e colocar dois, três assuntos diferentes e relativamente coligados.

Esse post esmiuçará um pouco velhos hábitos que temos dentro de muitas religiões, o porquê existem e se realmente fazem sentido. Falaremos um pouco de hábitos e antropomorfismo. Eu encontrei outro dia com uma pessoa passando em frente ao cemitério e pedindo “Agô” a Omulu para que pudesse passar pela porteira.

Eu lembro que já questionei alguns sacerdotes, fui informado que não pedir “Maleme” ou “Agô” na encruzilhada cruzando os dedos e abaixando as duas mãos, dá quizila. Nem preciso falar o quanto eu amo essa palavra “quizila”. Não só pode ocorrer a quizila com o irmão, como também uma punição pela falta de respeito do mesmo ao passar pelo campo mágico de Omulu ou dos Exus.

Mais uma vez é evidente o emprego do antropomorfismo, para quem ainda não sabe o que é essa palavra, segue o link: http://www.infoescola.com/cultura/antropomorfismo-2/

Isso é muito utilizado em religiões monoteístas, principalmente no Antigo Testamento, o Deus Vingativo, aquele que pune, aquele que não perdoa, aquele que condena os errantes ao Fogo Eterno.

Sinceramente, isso pra mim é algo que está mais do que ultrapassado, infelizmente isso é muito cultuado em centros, aquele orixá castigador, punidor, que não perdoa quaisquer falhas dos filhos. Quantas vezes eu já presenciei ameaças de mentores?

Sinceramente, queridos irmãos, eu mesmo nunca me relacionei com esse tipo de mentor, os meus sempre eram passíveis, sempre compreensíveis, amáveis, e olha que já cometi muitas falhas em terreiros, não eram vingativos e sim ilustrativos, eram mentores e não carrascos, existia uma filha na casa que eu trabalhava que falava muito mal de mim, um dia, Chico Preto veio em uma linha que não era dele, desceu pra fazer o trabalho e depois abraçou essa filha e disse baixo, com aquele jeito paternal dele: “Menininha, cuidado com o que tu sai falando, isso deixa as pessoas tristes, eles não sabem, mas eu vejo o que tu tá fazendo”. Isso foi entre ela e ele, até o momento eu não sabia do que se tratava, até que veio em outra linha o exu de outra vítima da calúnia dessa irmã e falou alto, gritou e ameaçou. Aí eu me pergunto: Será que realmente era espírito ou aquilo que eu sempre digo, o animismo exacerbado e o campo emocional do médium tomando conta?

Existem casos e casos, claro que se você desrespeita uma Ordem Direta do seu mentor, DEPENDENDO da vibração dele, você pode sofrer certos castigos, tomar tapinhas, por exemplo, eu tinha um caboclo que pulava muito alto e dava um brado bonito de guerra, já até contei isso no blog, e o centro estava cheio de meninas (sim, já tive 18 anos, [risos]) e eu queria com certeza fazê-lo vir pra inflar o meu ego, infelizmente, naquele dia não era o dia dele, e sim o simpático Senhor Rompe-Mato (Acho que ele só falou uma vez na vida, [risos]) que não vinha de uma forma tão glamorosa, aí firmei, firmei, firmei no outro caboclo, quando senti o caboclo, pulei, na que eu pulei, acho que foi fortes emoções ou ele me jogou no alto de propósito, e estourei o joelho no chão, ficou uma bola enorme durante 20 dias, aí aprendi a lição, fora a vergonha, centro cheio e queria sumir dali.

São muitas pontos que devem chamar a nossa atenção, não acredito em punições severas por parte de mentores de luz, acredito em conversa, em aconselhamento, existe certos castigos, cada caso é um caso, mas muitos temem uma punição severa, perda de trabalho, acidentes. Esse tipo de punição é executada pelos mestres cármicos, através da lei do Retorno, e muitos exus que fazem parte desse trabalho, não descem em Terreiro causando ameaças e sim avisos. Se eu passasse em cada esquina e pedisse licença, seria um transtorno e até mesmo vexaminoso, porque eventualmente cruzo esquinas com amigos, colegas de trabalho, etc.

Nunca fui punido por ninguém por não pedir essa licença, e graças a Deus tenho ótimo relacionamento com a linha da esquerda.

Logo, vamos começar a pensar mais e esquecer velhos hábitos, tentar entender porque existem certos fundamentos e conceitos, o que acontece com muita gente, a esmagadora maioria é que segue o que é dito, não perguntam o porquê, agem por osmose, fazem porque outras pessoas fazem e isso é causa tanto desentendimento, superstição e ignorância dentro dos terreiros e até mesmo igrejas. Entendam o porquê vocês fazem certas coisas e se o sacerdote te diz que não tem permissão para dizer ou ainda não é o momento de explicar conceitos tão simplórios, é que ele mesmo não sabe!

Eu frequentei um centro uma vez onde comemorava-se o dia de Oxalá na sexta-feira, onde não poderíamos fazer nada, nem sexo, nem bebida alcóolica, o que nunca foi problema pra mim que raramente eu bebo, não podia nem dar um beijo gostoso na namorada e nem tampouco, já que somos todos adultos aqui, se masturbar.

Eu concordo plenamente em se abster de certos elementos e hábitos no dia que precede os trabalhos mediúnicos, mas em uma sexta-feira onde o sábado não terá trabalhos espirituais, nada mais é que superstição ou vício de estudo, ou seja, uma tradição que seguimos por hábito e não por fundamento. Alguém lá atrás teve uma coincidência e decidiu que seria assim. Eu trabalho muito com mentores de Oxalá, mesmo porque meu Xangô é cruzado com Oxalá e Sr. Urubatão da Guia, Rei das Sete Encruzilhadas, Rei Boiadeiro são todos mentores da vibração de Oxalá e nunca recebi nenhuma punição por isso. Existe muitas superstições dentro dos terreiros e esquecem demasiadamente que o que faz um excelente médium ter um excelente trabalho, é o seu coração, a sua dedicação para com o próximo, o seu amor para com seus mentores e os preceitos solicitados. Eles entendem perfeitamente que você é vivo, tem uma vida, repleta de defeitos e paixões, e que você deve vive-la para aprender, e esses preceitos de dia de Oxalá sem sexo, preceitos que fica 30 dias sem relações sexuais ficou lá atrás.

Até acredito sim, que devemos guardar o corpo por alguns dias, sim, acredito, mas não tanto tempo, eu já fui mais novo, meus hormônios estavam à flor da pele, saí de um preceito, mesmo solicitado pelo mentor três dias de resguardo, saí correndo para ter relações com a namorada e tomei uma queimada do nada em meu braço, depois meu marinheiro disse que foi porque eu não respeitei e queimou o charuto no meu braço.

Ai entra a questão: Ué, você não disse que não punem? Eu também disse que há casos e casos, essas são pequenas advertências mais enfáticas, não é um caso de perder namorada, ficar doente, perder o carro ou até mesmo o trabalho, o que eu ouço muito “mentor” ou sacerdote dizendo.

Não existe uma Regra Universal, como eu sempre digo, mas um Conjunto de Boas Práticas e uma boa dose de Bom Senso.

Se você não é casado com alguém da religião, fica impraticável a convivência, principalmente começo de casamento onde os hormônios e paixões sobressaltam nossos sentidos, se você vai fazer uma obrigação que demanda 30, 60 dias de resguardo, fica complicado, mesmo porque nunca os meus me pediram isso, como já relatei, foram no máximo três dias que por ser muito novo, não havia respeitado e aprendi de forma “quente” a lição.

Portanto, sexo na sexta-feira pra mim nunca foi um problema, desde que não precedesse os trabalhos da casa, dia de Oxalá é uma coisa, agora não precisa de abdicar de tudo, Oxalá é Paz, Equilíbrio, não dá quizila nenhuma curtir sua sexta-feira, quando suas obrigações mediúnicas foram cumpridas. Muitos médiuns confundem obrigação mediúnica, com dedicação e resguardo.

Você pode viver felizmente a sua vida, curtir seus amigos, ir para um “Happy Hour” na sua sexta-feira, curtir a sua vida, afinal, viemos aqui para viver de forma intensa, obviamente não estou falando pra você se alcolizar, participar de orgias, mas curta, tome um vinho com sua companheira, curta-a, faça da noite algo especial, aliás, é o dia que precede o final de semana, o dia tão esperado por muitos. Eu mesmo já fiz sem aquele peso na consciência porque nunca me obrigaram a tal. Antes de acreditar nessas superstições e preceitos da religião, consulte os seus guias, eles te informarão melhor do que ninguém o que deve ser feito.

Outro caso complicado são os sacerdotes que exigem que os filhos se ajoelhem ou peçam a benção independente de onde encontram, esse mesmo centro, o sacerdote inflado de vaidade exigia isso, em um dia eu o vi de longe do outro lado da rua e estava com dois amigos, confesso que fingi que não vi, mas ele mais esperto que eu percebeu e depois, uma coisa que era muito comum no centro, o que ele tinha que falar, usava o Sr. Zé Pelintra, era incrível, toda coisa que o irritava, o Sr. Zé Pelintra que falava e ficava impressionado como todos ficavam boquiabertos ou até mesmo pasmos com esse Zé Pelintra, que dava bronca e falava. E eu já como era meio cético por volta dos meus 22 anos, já ia a fundo nos estudos, percebia que o Zé Pelintra era a forma que ele tinha de se manifestar e ter mais respeito dos médiuns e assistentes da casa.

Quantas vezes eu vi aquele Zé também dizendo tudo o que ele havia feito, vivia falando: “Não falei que isso ia acontecer?”, “Eu falei que isso não daria certo!”, “Eu que fiz isso, você viu que quando prometo, eu cumpro?”. Isso nada mais é que a vaidade do médium tomando conta da comunicação. Atentem-se. Aquele que ajuda de coração, ele ajuda sem precisar dar satisfação, aquele que ajuda e quer mostrar, nada mais quer que holofotes sobre ele. Existe uma grande diferença entre ajudar porque faz parte da natureza em ajudar, em querer bem e ajudar para mostrar, isso não é ajuda e sim vaidade! Quem faz por amor, faz no anonimato não esperando reconhecimento. E isso não é diferente no mundo espiritual.

Esse mesmo sacerdote, não deixava médiuns que mesmo que tinha caciques usar cocares grandes e nem marinheiros usarem quepe, mesmo sendo Martinho onde a grande maioria utiliza, porque o único capitão do mar era o marinheiro dele. Medíocre!

Sacerdote que pede para se ajoelhar não quer respeito, quer inflar o seu ego, é vaidoso. E o mais importante, que vai ficar para o próximo post, ele exige isso, porque zela pelo seu santo, e seu “santo”, não precisa de zelador! [Risos].

Zelador que exige ter sua mão beijada, quer seguidores, se considera acima dos seus filhos, onde está tudo errado, já vi médiuns, filhos da casa serem médiuns muito superiores ao próprio sacerdote da casa.

Esse foi um mix de assuntos, teremos mais em breve para assuntos que são muito curtos.

Namastê.

Neófito da Luz.

A Vibração Oxalá

É a vibração da Pureza, da Fé e da Paz. É o maior de todos os Orixás, é considerado a Emanação mais Pura de Deus. Sincretizado como Jesus Cristo, em algumas casas é reservada a Sexta-Feira para esse Orixá, para outros, o Domingo, mas como sempre falo, cada casa tem a sua forma de trabalho. Seu sincretismo é Jesus Cristo e sua data de comemoração é dia 25 de dezembro.

Sua cor é unânime em todas as casas, é o branco, em algumas qualidades dentro do Candomblé, pode ter outras cores, como o azul para Oxaguian, mas o branco é sempre predominante.

Sua saudação geralmente é “Epa Babá Oxalá” ou “Epa Baba okê kakubeká”, suas oferendas são frutas, geralmente “brancas”, como maça verde, pera, uva verde. O local de suas oferendas geralmente são em igrejas ou em montes altos e verdejantes, onde Ogum Matinata costuma receber também.

Importante salientar que o branco é a cor que está em todas as outras cores, é a claridade total, é a Luz em sua Plenitude.

Simbolizado pela Pomba Branca,  ou também conhecido em algumas Ordens como Columba (com outro significado que não cabe ao post explanar), a sua origem data história de Noé e da sua Arca. Um desses episódios é narrado no capitulo 8 do Gênesis, primeiro livro do Velho Testamento. Noé, que esperava na Arca o fim do dilúvio, mandou um animal mensageiro para ver se as águas haviam baixado. O primeiro escolhido foi o corvo, que ficou voando para lá e para cá e perdeu a oportunidade deganhar a simpatia da humanidade. Então Noé enviou uma pomba, na primeira viagem, ela não encontrou nenhum lugar para pousar. Sete dias depois, foi novamente solta e retornou com um ramo de oliveira no bico. Isso, de acordo com a narrativa bíblica, simbolizava a PAZ entre DEUS e os homens ”Além disso, o ramo de oliveira significava também garantia de alimentos de remédios e da benção divina.

Essa vibração é de importância cabal para todos os filhos de Umbanda, pois essa vibração é a Fé, a Paz.

A Fé é acreditar em algo intangível, a Fé é extremamente particular, inexplicável, ela é apenas sentida, vibracionada. É a motivação inexplicável, é a utilização de nossos sentidos mais sutis, é a intuição. Como eu costumo dizer, a força de vontade é a Vontade de Deus atuando sobre nós, e podemos resumir isso na Fé, o principal elemento de toda a Magia Existente. Não adianta apenas os elementais, temos que acreditar naquilo que temos ou que fazemos. Isso mostra a relevância e poder dessa vibração nos terreiros.

Não pretendo fornecer maiores elucidações sobre a fé, porque como eu disse, é uma experiência totalmente pessoal, mas dentro da Teurgia, é a Magia mais poderosa que existe, acreditar  em si mesmo, nos atos e nas circunstâncias, um exemplo é a Biblia, você pode lê-la, estudá-la, compreendê-la, mas se não sentir o extase, se não sentir a Força, o Contexto, é apenas um Livro.

Oxalá também rege a Paz, que é um outro estado de vivência Espiritual. Também posso afirmar com veemencia que é uma experiência totalmente pessoal. A Paz é extremamente relativa, é aquela felicidade consistente que sentimos, e cada um a sente de uma forma diferenciada.

A Paz de Espírito é um sentimento inenarrável, quando estamos em Paz, tudo flui, tudo acontece, nada nos aborrece, quando estamos em paz conosco, nada nos afeta, então através desses dois fenômenos mentais, Paz e Fé, conseguimos enfim, galgar tranquilamento e a passos largos os Degraus da Evolução.

Por isso costumo dizer que os mentores que estão sob essa égide, a Vibração Oxalá, são  mentores que já alcançaram um alto patamar evolutivo, são espíritos que já atingiram o patamar máximo de todas as demais vibrações, seja o amor, o espírito de Guerra, a Justiça e com todo esse caminho traçado, conseguiram enfim, experimentar o Nirvana e hoje trazem um pouco de sua experiência aos terreiros, impulsionando-nos à Fé e a Paz Interior. Podem reparar que muitas espíritos que atuam nessa egrégora, possuem a fala mansa, uma paciência interminável em suas consultas, transmitem aquela alegria e aquela tranquilidade imensurável.

Justamente por ser considerado o maior de todos os orixás, astrologicamente, o Sol é correspondente a essa Vibração, Oxalá é a Luz em Sua Plenitude, é o Calor, é vibração presente em todas as outras vibrações.

Aranauam.

Neófito da Luz.

A Tristeza dos Orixás – Vale a Pena Reler

 

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Foi, não há muito tempo atrás, que essa história aconteceu. Contada aqui de uma forma romanceada, mas que trás em sua essência, uma verdadeira mensagem para os umbandistas…

Ela começa em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os pelos do corpo. Realmente o Sol tinha escondido – se nesse dia, e a Lua, tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios, brilhosos como fios de prata, a morada dos Orixás.

Nessa estranha noite, Ogum, o Orixá das “guerras”, saiu do alto ponto onde guarda todos os caminhos e dirigiu – se ao mar. Lá chegando, as sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram – se. Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso.

Iemanjá que tem nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe “coruja” quando revê um filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração:

_ Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo! Você podia vir visitar mais vezes sua mãe, não é mesmo? _ ralhou Iemanjá, com aquele tom típico de contrariedade.

_Desculpe, sabe, ando meio ocupado_ Respondeu um triste Ogum.

_Mas, o que aconteceu? Sinto que estás triste.

_É, vim até aqui para “desabafar” com você “mãeinha”. Estou cansado! Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome. Estou cansado com o que eles fazem com a “ espada da Lei” que julgam carregar. Estou cansado de tanta demanda. Estou muito mais cansado das “supostas” demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um deles…Estou cansado…

Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e de traços fortes pôde ser visto. Ele chorava. Chorava uma dor que carregava há tempos. Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos de Umbanda.

Chorava por ninguém entender, que se ele era daquele jeito, protetor e austero, era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava. E, se existe um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum. Ele daria a própria Vida, por cada pessoa da humanidade, não apenas pelos filhos de fé. Não! Ogum amava a humanidade, amava a Vida.

Mas infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas. As pessoas não viam em sua espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em um instrumento de guerra. Não vinham nele a potência e a força de vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de trevas na alma de todos. Não vinham em sua lança, a direção que aponta para o autoconhecimento, para iluminação interna e eterna.

Não! Infelizmente ele era entendido como o “Orixá da Guerra”, um homem impiedoso que utiliza – se de sua espada para resolver qualquer situação. E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer dos trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam do amor e da compaixão, sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual, para apenas realizaram “quebras e cortes” de demandas, muitas das quais nem mesmo existem, ou quando existem, muitas vezes são apenas reflexos do próprio estado de espírito de cada um. E mais, normalmente, tudo isso torna – se uma guerra de vaidade, um show “pirotécnico” de forças ocultas. Muita “espada”, muito “tridente”, muitas “armas”, pouco coração, pensamento elevado e crescimento espiritual.

Isso magoava Ogum. Como magoava:

_ Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que Umbanda é pura e simplesmente amor e caridade? A minha espada sempre protege o justo, o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum. Por que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela mão direita do amor, insistindo em empunhá – la com a mão esquerda da soberbia, do poder transitório, da ira, da ilusão, transformando – na em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e destruição…

Então, Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a proteção e firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida. E totalmente nu ficou frente à Iemanjá. Cravou sua espada no solo. Não queria mais lutar, não daquele jeito. Estava cansado…

Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Tatá Omulu apareceu. E por incrível que pareça o mesmo aconteceu. Ele não agüentava mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não entendia, como ele, o guardião da Vida podia ser invocado para atentar contra Ela. Magoava – se por sua alfange da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam, ser tão temida e mal compreendida pelos homens.

Ele também deixou sua alfange aos pés de Iemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite. Logo via – se o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que irradia – se de todo seu ser. A luz que cura, a luz que pacifica, aquela que recolhe todas as almas que perderam – se na senda do Criador. Infelizmente os filhos de fé esquecem disso…

Mas o mais incrível estava por acontecer. Uma tempestade começou a desabar aumentando ainda mais o aspecto incrível e tenebroso daquela estranha noite. E todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de Iemanjá suas armas e ferramentas simbólicas.

Faziam isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos pelos umbandistas. Faziam isso por si próprios. Iansã queria que as pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que espalha as sementes de luz do seu amor. Oxossi queria ser reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas da ignorância. Egunitá apagou seu fogo encantador, afinal, ninguém lembrava da chama que intensifica a fé e a espiritualidade. Apenas daquele que devora e destrói. Os vícios dos outros, é claro.

Um a um, todos foram despindo – se e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.

Iemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer. Foi quando uma irônica gargalhada cortou o ambiente. Era Exu. O controvertido Orixá das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião, também chegava para a reunião, acompanhado de Pombagira, sua companheira eterna de jornada.

Mas os dois estavam muito diferentes de como normalmente apresentam – se. Andavam curvados, como que segurando um grande peso nas costas. Tinham na face, a expressão do cansaço. Mas, mesmo assim, gargalhavam muito. Eles nunca perdiam o senso de humor!

E os dois também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa de Iemanjá. Despiram – se de tudo. Exu e Pombagira, sem dúvida, eram os que mais razões tinham de ali estarem. Enúmeros eram os absurdos cometidos por encarnados em nome deles. Sem contar o preconceito, que o próprio umbandista ajudou a criar, dentro da sociedade, associando – o a figura do Diabo:

_Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável! _ Exu chorava, mas Exu continuava a sorrir. Essa era a natureza desse querido Orixá.

Iemanjá estava desesperada! Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto. Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer:

Espere!_ pensou Iemanjá!_ Oxalá, Oxalá não está aqui! Ele com certeza saberá como resolver essa situação.

E logo Iemanjá colocou – se em oração, pedindo a presença daquele que é o Rei entre os Orixás. Oxalá apresentou – se na frente de todos. Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo. Cravou ele na Terra, ao lado da espada de Ogum. Também despiu – se de sua roupa sagrada, pra igualar – se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:

_ Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos! Ele diz para que não desanimem, pois, se poucos realmente os compreendem, aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas verdades divinas. Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado planeta Terra. Esses verdadeiros filhos de fé que lutam por uma Umbanda séria, sem os absurdos que por aí acontecem. Esses que muito além de “apenas” prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas. Esses que passam por cima das dificuldades materiais, e das pressões espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também, milhões no astral, construindo verdadeiras “bases de luz” na crosta, onde a espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se. Esses que realmente nos compreendem e buscam – nos dentro do coração espiritual, pois é lá que o verdadeiro Orun reside e existe. Esses incríveis filhos de umbanda, que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas, mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos. Esses fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil, que honram e enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de Olorum brilhar e sorrir…

Quando Oxalá calou – se os Orixás estavam mudados. Todos eles tinham suas esperanças recuperadas, realmente viram que se poucos os compreendiam, grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum tempo, muitos outros juntariam – se nesse ideal. E aquilo alegrou – os tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis. E lá, do plano celeste, brilharam e derramaram – se em amor e compaixão pela humanidade.

Em Aruanda, os caboclos, pretos – velhos e crianças, o mesmo fizeram. Largaram tudo, também despiram – se e manifestaram sua essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos Orixás.

Na Terra, baianos, marinheiros, boiadeiros, ciganos e todos os povos de Umbanda, sorriam. Aquelas luzes que vinham lá do alto os saudavam e abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos. Uma alegria e bem – aventurança incríveis invadiram seus corações. Largaram as armas. Apenas sorriam e abraçavam – se. O alto os abençoava…

Mas, uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina, alcançando assim, a tudo e a todos. E lá no baixo astral, aqueles guardiões e guardiãs da lei nas trevas também foram alcançados pelas luzes Deles, os Senhores do Alto. Largaram as armas, as capas, e lavaram suas sofridas almas com aquele banho de luz. Lavaram seus corações, magoados por tanta tolice dita e cometida em nome deles. Exus e Pombagiras, naquele dia foram tocados pelo amor dos Orixás, e com certeza, aquilo daria força para mais muitos milênios de lutas insaciáveis pela Luz.

Miríades de espíritos foram retirados do baixo – astral, e pela vibração dos Orixás puderam ser encaminhados novamente à senda que leva ao Criador. E na matéria toda a humanidade foi abençoada. Aos tolos que pensam que Orixás pertencem a uma única religião ou a um povo e tradição, um alerta. Os Orixás amam a humanidade inteira, e por todos olham carinhosamente.

Aquela noite que tinha tudo para ser uma das mais terríveis de todos os tempos, tornou – se benção na vida de todos. Do alto ao embaixo, da esquerda até a direita, as egrégoras de paz e luz deram as mãos e comungaram daquele presente celeste, vindo diretamente do Orun, a morada celestial dos Orixás.

Vocês, filhos de Umbanda, pensem bem! Não transformem a Umbanda em um campo de guerra, onde os Orixás são vistos como “armas” para vocês acertarem suas contas terrenas. Muito menos esqueçam do amor e compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles. Umbanda é simples, é puro sentimento, alegria e razão. Lembrem – se disso.

E quanto a todos aqueles, que lutam por uma Umbanda séria, esclarecida e verdadeira, independente da linha seguida, lembrem – se das palavras de Oxalá ditas linhas acima.

Não desanimem com aqueles que vos criticam, não fraquejem por aqueles que não tem olhos para ver o brilho da verdadeira espiritualidade.

Lembrem – se que vocês também inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança. A todos, que lutam pela Umbanda nessa Terra de Orixás, esse texto é dedicado.  Honrem – los. Sejam luz, assim como Eles!

Exe ê o babá (Salve o Pai Oxalá)

Por Fernando Sepe