Sincretismo: Uma Verdadeira Lambança

Saudações, Prezados Irmãos de Senda.

Depois de levar uma dezena de pedradas quanto ao meu posicionamento aos trabalhos na Quaresma, eu não aprendo, e vamos lá expor a minha inútil opinião sobre o sincretismo.

Etimologia

Oriunda do termo grego sygkretismós, “reunião de vários Estados da ilha de Creta contra o adversário comum”.

O que é Sincretismo?

Podemos entender que sincretismo é uma junção de doutrinas e fundamentos que são absorvidas pelo culto em questão, podemos lembrar que o Cristianismo na verdade foi um grande compilado de religiões pagãs e outras cultos romanos da época, sim, a vocês que acham que o Cristianismo é puro, meus pêsames, e digo mais, se existe uma certeza que eu tenho sobre Cristo, é que ele não era Cristão! Rsrs

Mas sem mais delongas, podemos observar isso nos cultos afros, para muitos, Ogum e São Jorge é a mesma entidade e fim de conversa! Muitos centros de Umbanda cultuam os orixás com imagens de santos católicos, isso deve-se somente ao fato de termos as raízes cristãs tão impostas em nossa cultura e pela nossa colônia portuguesa. Porque Ogum aqui não poderia ser Ares? Marte? Thor? Montu? Até mesmo o Guerreiro Arjuna nos contos de Gita? Hachiman nos contos míticos japoneses? Mas por que São Jorge? Justamente pela nossa pesada e chata imponência católica que temos em nossas raízes desde os primórdios; Mas como todo personagem Mítico, Jorge também além de não ter sido nenhum santo e nenhum exemplo de conduta, também está envolvido em várias lendas, como o cavalo albino, a morte do dragão, todas ilustrações de vagas ideias antropomórficas impregnadas em nossas mentes ávidas por ídolos.

O Sincretismo na Umbanda

É sabido que Zélio Fernandino de Moraes, o dito fundador da Umbanda tinha raízes católicas e espíritas, tanto que os sete centros abertos pelo seu mentor Sete Encruzilhadas levava no nome de “Espírita” e o nome de um santo católico como podemos observar o nome de seu primeiro centro foi chamado de “Tenda Espirita de Umbanda Nossa Senhora da Piedade”. Muitas casas adoram a imagem de São Jorge como se fosse Ogum, isso pela semelhança em seus arquétipos, ambos guerreiros, ambos “montados no cavalo”, ambos trazem para si a energia e a bravura que são preponderantes na Guerra, assim também como Santa Bárbara para Iansã, Nossa Senhora dos Navegantes para Iemanjá, se presenciarem, ambos possuem arquétipos semelhantes, e como a Umbanda era muito “popular” era muito mais fácil associar nomes complicados de Orixás com nomes corriqueiros em nosso cotidiano, obviamente, ninguém iria colocar a imagem de Marte, o Deus Romano da Guerra ou Ares, o Deus grego da guerra para sincretizar Ogum, por ser um conhecimento mais restrito para muitos.

Conforme mencionei, a Umbanda possui várias vertentes, a vertente designada pelo Zélio indubitavelmente sofreu centenas de mudanças para até o dia de hoje, fato que comprova a veracidade dessa informação é a Tenda Mirim, fundada em 1924, passou a ignorar o culto aos santos católicos em sua casa, com exceção de Jesus Cristo. Entendo que na época de Zélio, já era chocante ter em uma mesa branca a existência de um índio, dito ignorante por muitos, ainda trazendo nomes de “santos” africanos, obviamente Sete Encruzilhadas com todo o seu conhecimento quis fazer com que a transição para o novo culto fosse extremamente suave e o mais sutil possível para não abalar intensamente nossa cultura e nem tampouco nosso vago conhecimento de como funciona o mundo espiritual.

Sincretizar os santos obviamente é uma questão de opinião e prática, como diz o meu artigo, eu acho uma verdadeira lambança essa mistura, o sincretismo não fica somente nessa associação de imagens de santos com orixás, é a reza do pai nosso na abertura de muitos centros, sim, pai-nosso é uma prática CATÓLICA e não Cristã, e sim CATÓLICA, tanto que muitas vertentes do Cristianismo, como presbiterianos, pentecostais não rezam o pai nosso durante o culto justamente por não fazer parte da tradição cristã original.

Diversos traços católicos são encontrados no culto umbandista, a reza já citada, as imagens, a própria defumação,( utilizada pelos católicos, mas absorvida pelos cultos pagãos como forma de trazer à energia natural dos elementares), para isso, existem os dois lados, como sempre falo, a Umbanda é uma verdadeira mãe abrigando em seu seio todos os ritos que praticam o amor e a caridade, em contrapartida, eu não acho interessante justamente pela falta de identidade que a mesma possui, podem me criticar, mas uma vez vi um médium se debatendo inteiro em um trabalho, não sei se era o kabrunko na matéria dele, que raios que era, na hora a gira foi interrompida, assim com os atabaques, o baiano do dirigente começou a colocar a mão na cabeça do pirilampo e começou a rezar pai nosso e ave Maria (Desculpem, é demais pra mim). Mas como eu digo, é questão de opinião, de egrégora, de aprendizado. Como podem observar em meus posts, não sou nenhum pouco simpático ao catolicismo, respeito toda a iconografia, todos os aspectos eclesiásticos, mas eu acho uma das maiores hipocrisias da história, alguém pregar acabar com a fome e não vende muitos bens de um país considerado um dos mais ricos do mundo, mas Ostentação tá na moda!

Eu li um livro de Decelso, escrito em 1967 chamado “Umbanda de Caboclos”, ele compara e sincretiza as divindades iorubas (Orixás) com as indígenas, segue um trecho dessa comparação:

IARA – Divindade ou “deusa” das águas = Iemanjá;
TUPI – Divindade ou “deus” do Fogo = Erê;
CARAMURU – Divindade do Trovão = Xangô;
URUBATÃO – Divindade ou “deus” = Ogum;
AIMORÉ – Divindade ou “deus” da caça = Oxóssi;
JUREMA – Divindade das matas, cachoeira = Oxum;
JANDIRA – Divindade dos grandes rios = Nanã
MITÃ – Divindade criança = Ibeji;
IURUPARI – Divindade do mal = Elebá ou Exu;
ANHANGÁ – Divindade da peste = Omulu.
GUARACI – Divindade representativa do Sol = ORUM;
JACI – Divindade da Lua = OXU;
PERUDÁ – Divindade do Amor = OBA;
CAAPÓRA – Divindade protetora dos animais = OSSONHE (Ossãe);
CURUPIRA – Divindade dos Campos = CORICO-TÔ;
IMBOITATÁ – Divindade dos Montes = OKÊ;
TUPÃ – Divindade Suprema, pode ser identificada como Oxalá, ou melhor, Obatalá ou Zambi.

Com isso, compreendemos que é possível sincretizar os Orixás com outros cultos, como a Umbanda tem grande influência indígena, por que não cultuar Ogum com a Imagem de Urubatão, por exemplo? O Sincretismo é apenas uma percepção material e não espiritual, podemos observar os cultos do Primado de Umbanda, do próprio pai Rivas onde a utilização de imagens é praticamente inexistente. E depois de 100 anos de religião, acho que já passou da hora de entender que Ogum é Ogum, pode sim, entrar no arquétipo da Imagem do Guerreiro, isso também é muito mencionado nos livros de Joseph Campbell onde “humanizamos” qualquer tipo de ídolo denominado herói, mas se formos partir dessa premissa, Ogum pode ser outras divindades de Guerra como mencionei no começo do artigo. Ainda existe a teoria de serem todos a mesma Divindade, mas com outras denominações devido à região, por que não? Não Seria Peter, Pedro, Petrus, o mesmo nome com terminologias diferentes? Se formos partir dessa premissa, o que é algo para se pensar, obviamente São Jorge não está incluso, porque ele foge de todo o panteão mítico, não é um Deus que nasceu em uma incontável Era e sim um ser que viveu na Idade Média e conforme já frisei, não tinha nada de santo.

O Sincretismo e a Influência Católica é tão enraizada na liturgia Umbandista que até o dia de Ogum na Umbanda é o mesmo dia de São Jorge na Igreja

Existem casas que sincretizam Ogum como o Arcanjo Miguel, o que ainda pode fazer mais sentido que São Jorge, em termos de vibração, desprendimento divino, Segundo a Angiologia, são seres que estão mais próximos de Deus e que já alcançou a Grande Iluminação, é dessa mesma forma que eu compreendo os Orixás, que também são partes Dele, tanto que os nomes de Arcanjos (Vem da raiz arch que deriva de arché, que refere-se a “ponto de partida” “suprema substância subjacente” o que governa”) se forem observarem toda a etimologia, podem verificar:

Miguel – Vem do Hebraico Mikael – Mi – Quem/Aquele; Ka – como; El – Deus (Quem/Aquele Como Deus);

Gabriel – Vem do Aramaico Gavriel – Ga – Homem; Vri – Forte; El – Deus (Homem Forte de Deus) – Também tradicionalmente considerado do Anjo da Morte;

Rafael – Vem do Aramaico Rafael – Rafa – Cura; El – Deus (Cura de Deus).

Interessante mencionar que as três maiores religiões monoteístas, falam de Anjos em suas escrituras, a Torá, a Bíblia e o Alcorão.

Sincretismo é apenas uma forma de referência, uma forma de referenciar alguma coisa que não sabemos, ter uma relação, apenas isso, mas como a Espiritualidade é compreensível com nossa ignorância, permitem que essas coisas ocorrem, uma vez, em um centro, Tranca-Ruas desceu para trabalhar e um dirigente chamou-o de Tiriri, um irmão que também conhecia toda a forma de sua manifestação, chegou perto dele e perguntou: Meu pai, vós não é o Tranca-Ruas? Ele disse: – Se for pra me deixar trabalhar e fazer o que eu devo fazer, pode até me colocar saia rodada e me chamar de Maria Padilha.

Às vezes é evidente que o dirigente não confia somente na força da Egrégora da Umbanda e tem que apelar para outros ritos, defumação recitando o Salmos como já presenciei, Oração a São Jorge Guerreiro em Giras de Ogum, como eu disse, é questão de opinião e não estou entrando no mérito do certo ou errado e sim a falta de identidade existente nos centros umbandistas, como disse uma irmã essa semana, mencionando que passou da hora da Umbanda andar com suas próprias pernas e isso vem acontecendo com codificações doutrinárias, como mesmo mencionei o Primado de Umbanda.

Para muitos que me conhecem, sabem que eu sou universalista, aprecio todas as formas de alcançar a Deus, desde que estejam bem fundamentadas e argumentadas, justamente pela ojeriza com muitos ritos eclesiásticos eu prefiro que a Umbanda que eu pratico, tenha uma raiz mais oriental, menos dogmática e Deus em sua infinita sabedoria, trouxe a mim irmãos de Jornada afim com meus interesses e propostas para que possamos galgar juntos para a senda da evolução.

Em minha modesta opinião, uma meditação antes dos trabalhos, bem como uma evangelização teria muito mais utilidade do que um conjunto de palavras decoradas, obviamente, para a constituição de uma egrégora e um ambiente de trabalho firme, vale muito mais a firmeza e desprendimento do médium a qualquer ritual engessado e decorado, se você está rezando um Pai Nosso pensando na camisa do filho ao lado, aquele que está em silêncio pedindo ao Altíssimo amparo e sabedoria terá muito mais poder durante os trabalhos que você.

Algumas considerações pessoais sobre todo o sincretismo umbandista

Muitos dizem que na Umbanda, os escravos utilizavam as imagens para esconder os orixás, mas eu reflito, se a Umbanda foi fundada em Novembro de 1908 e a abolição da escravatura realizada em maio de 1888, não faz muito sentido essa “desculpa” não? O que constata que os escravos não praticavam a Umbanda e se a praticavam, Zélio apenas publicou a reinvenção da roda. Alguém está errado aí!

Acho que deixei claro a minha opinião que discordo veementemente do sincretismo, e que se for pra acreditar em mitologia (Porque um homem com uma lança em um cavalo branco é coisa de filme não?) prefiro acreditar nas antigas que possuem toda uma alegoria filosófica por trás e não a ostentação de poder tão imposta pelos nossos colonos eclesiásticos.

Se fosse sincretizar Orixá, como eu acredito em desprendimento de Deus e não um ser vivente que saiu matando todo mundo, estourou a espada no chão e se “encantou” como se a Lei do Carma não existisse, eu preferiria sincretiza-lo como um Arcanjo ou até mesmo um Deva (Seres de Grande Pureza no Hinduísmo) porque é assim que eu vejo a vibração Orixá.

Acho o sincretismo um grande aliado ao “emburrecimento” e degradação do culto umbandista, na verdade, às vezes acho que é uma carência exacerbada que resulta uma necessidade demasiada de aceitação por todos. Esse emburrecimento é no sentido de que muitas casas que eu conheci que acham que Ogum é São Jorge, são as mesmas que cultua o Exú como o servo de satanás, um ser chifrudo com pata de cavalo e vermelho, como a maioria das imagens dos exús que aceitamos e engolimos com todo o prazer). E a parte da carência é que queremos ser aceitos, então copiamos algo impregnado na nossa cultura que é esse monte de santos e ritos “aceitos” pela sociedade.

Veja o período de quaresma é mais um grande ponto que demonstra nossa amarração litúrgica com o sincretismo cristão

Discordo veementemente do sincretismo entre orixás e santos católicos, mas tento respeitar o máximo que eu posso, mesmo porque aqui em nosso plano só vivemos em conjecturas, mas podemos sim retirar aos poucos o véu de Isis e através de muitas pesquisas, migrarmos das Trevas de nossa Ignorância para a Luz da Sabedoria Universal.

As Imagens de Santos são apenas um potencializador de energia, muitos de nós, infelizmente ainda precisamos ver para crer, ou pelo menos ver através de um de nossos sentidos para acreditarmos na existência de algo, sentir através do nosso sexto sentido não é o suficiente, temos que ver e para isso, criamos diversas ferramentas, criamos ícones, ídolos para que possam suprimir nossa vasta solidão nessa Imensidão chamada Universo, precisamos crer em alguma coisa e para isso, precisamos “ver” e para isso, criou-se esses sincretismos para auxiliar-nos em nosso mecanismo de fé sem que abandonássemos nossa zona de conforto (nossa cultura católico-cristã).

O sincretismo culturalmente falando, é bem vindo, pois abraça as pessoas de outras liturgias e facilita a aceitação dos mesmos para uma nova liturgia, no caso a Umbanda, mas junto com esse ponto extremamente positivo, vem com outros muitos negativos, como o exú ser o diabo, como a necessidade de rezar o Salmos, o terço e toda aquela herança cultural que tivemos, com isso, MUITAS VEZES, desprezamos a sabedoria indígena, africana e afins  se perdendo em tantos ritos católicos e cristãos dentro da Umbanda.

O Cristianismo é uma corrente importante de nossa herança religiosa, tanto que muitos ritus espiritualistas usa como base, porém, Oxalá também não é Jesus Cristo, Oxalá é uma Manifestação de Fé da Própria Vibração de Deus e Jesus foi um dos muitos Avatares que veio em nossa Terra para trazer os ensinamentos do Altíssimo, assim também, como tivemos Krishna, Buda, Akhenaton, Confucio, Haiawatha, Moisés e muitos outros missionários Portadores da Palavra, portanto, graças ao nosso berço impositivo e religioso, só aceitamos Cristo como filho de Deus, o que é uma ignorância na minha opinião, existiram muitos outros Iluminados de outros continentes que vieram trazer os mesmos ensinamentos e também operar grandes milagres.

A História só é contada por aqueles que possuem poder e persuasão sobre a massa, portanto, sempre desconfiei de supostos “Santos” e sejam fiéis aos princípios umbandistas adotados pelos guias espirituais, independente da corrente do qual é oriunda o seu mentor, seja transparente e fiel aos princípios ensinados por eles.

E como eu sempre digo, isso aqui é apenas um espaço para divulgação de minhas ideias e conhecimento, não de traduz a mais absoluta verdade, e confesso, pode ter um monte de baboseira nesse blog, mas tenho certeza que instigo a muitos refletirem.

Tenham a certeza que pelo menos sou extremamente sincero em minhas palavras e honesto com minhas buscas, pois vou deixar uma máxima de Bruce Lee abaixo:

“Um homem sábio pode aprender mais com uma pergunta tola do que um tolo com uma resposta sábia.”

Paz Profunda

Neófito da Luz .’.

Nota: Não quis entrar no mérito de outros santos e seus respectivos orixás para o texto não ficar muito extenso.

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Os Vovôs e Vovós da Umbanda (Flashback)

Estou reprisando o post porque na época não deve ter tido muita visualização, não sei se foi um erro do WordPress, mas é um artigo de baixíssimo acesso e isso me chamou muito a atenção, então estou repostando… Pra mim é uma linha fantástica, de poder encantador e que me surpreende a todo trabalho, infelizmente vem acabando sua popularidade.

Vale ressaltar que muitas coisas que escreverei entrarão em contradição com o que muitos aprenderam, Também vale salientar que o conhecimento é apenas Um, porém com uma vasta gama de pontos de vistas de acordo com a forma da qual compreende o adepto.

Todos nós sabemos que os pretos-velhos foram antigos escravos oriundos dos países africanos (Nem todos obviamente, mas é o arquétipo da linha) onde detinham o conhecimento do poder da natureza, seja ervas ou outros tipos de magias que utilizam o poder atmosférico, sim, sabemos disso, mas nem todos sabem que antes de serem esses sofredores escravos, já foram grandes magos iniciados nos Mistérios, já foram Mestres Amparadores e que reencarnaram dessa forma, para suprimir as energias que ainda atrasavam sua evolução, e como dizia o senhor Ilustríssimo Cacique Águia Branca: “Não há dor que se remova sem dor”.

Essa opção reencarnatória auxiliou no processo de “limpeza” de suas lavas atrais permitindo que entrassem em uma frequência ainda mais sutil dos planos superiores.

Sim, já ouvi sim, de um preto-velho, Senhor Pai Guiné:

“Nem sempre fui escravo, nem sempre sofri, já vivi o luxo da vida material e a ascensão do meu corpo espiritual.”

Muito se fala na Umbanda Esotérica que os preto-velhos são espíritos que se plasmam na forma de velhos escravos para simbolizar a maturidade, a sabedoria conquistada com o decorrer da idade, em meu ponto de vista, simbolizam também a simplicidade, o conforto, quem nunca se sentiu leve e feliz com o abraço de um preto-velho? Sem querer fugir do foco, mas é o máximo!

A magia utilizada pelos preto-velhos também é muito conhecida como mirongas de Umbanda, em meu ponto de vista, é a linha com maior poder vibratório dentro da egrégora da Umbanda, são os espíritos de maior bagagem espiritual e de conhecimento, e que atingiram de certa forma, a compreensão e o perdão e hoje atuam como seres simplórios que esbanjam uma paciência e uma competência incrível para solucionar nossos problemas.

Nem todos se plasmam como negros, já presenciamos espíritos de etnia clara nessa falange e nem todos chegam curvados, muitos trazem todo o axé dessa fantástica linha e andam quase que como caboclos, postura ereta e com singela vitalidade, como eu sempre digo no blog, fujam de paradigmas e deixe o seu mentor trabalhar.

Muitos também trazem o conhecimento de antigos sacerdotes africanos, os famosos tatás e n´gangás, que foram mestres em manipulação de energia e evocação dos ancestrais, sendo grandes conhecedores da energia Orixá, trazendo consigo o arquétipo de antigos mestres africanos, vudus, rudus, entre outras práticas africanas que se perderam com o tempo.

Suas oferendas variam intensamente, alguns aceitam cerveja branca, outros cerveja preta, alguns também aceitam vinhos e outras bebidas como cachaça, claro que não podemos esquecer do famoso e não menos importante, cafezinho.

Já vi preto-velhos pediram também tutu em suas oferendas e algumas frutas básicas, como maçãs, bananas e peras.

O fumo também é bem variado, como cigarros de palha e charutos, também os conhecidos cachimbos. Em minha casa, geralmente pedem o fumo misturado com outras ervas como camomila, erva-doce e alfazema.

Suas cores geralmente é o preto e o branco, alguns somente o branco. Existem algumas características marcantes que definem o seu tipo de preto-velho, que são:

  • Curandeiros: Possuem exímios conhecimentos com a cura, trabalham com ervas e outras magias atmosféricas, conhecem muito bem o chakra de nosso corpo e seus canais de energia, muitos utilizam a queima do fumo pois nele está contido o elementar fogo, que é o elemento transmutador, o elemento ar que é o grande condutor e as ervas que trazem consigo toda uma aura espiritual de energia;
  • Quimbandeiros / Feiticeiros: Geralmente são os preto-velhos de Xangô ou Obaluaie, trabalham também na esquerda desmanchando feitiços e outras magias com o objetivo de causar o mal. Quando na esquerda, não são muito de conversa, são objetivos. Vale lembrar que nem todos os preto-velhos viram para a esquerda. Alguns apresentam-se de forma ereta também e ligeiramente encurvados, muitos trazem vitalidade durante a comunicação;
  • Conselheiros: Existe aquela linha de preto-velhos camaradas, que adoram conversar, sabe ler de forma excepcional o seu coração, tocam naquele ponto onde mais precisamos, esses atingiram um nível evolutivo tão alto que são capazes de ler sua alma como cristal, é uma linha que está cada vez mais escassa, devido à escassez de médiuns que seguem corretamente seus preceitos, geralmente são aqueles que sentam, falam de forma carinhosa e utiliza muito humor durante sua consulta, pitam calmamente o cachimbo e falam com demasiadamente pausado.

Não dividirei em falanges a linha dos preto-velhos, porque são falanges enormes e totalmente contraditórias com as literaturas hodiernas, mesmo porque existe pouca hierarquia na linha dos preto-velhos, é uma linha que não é muito estudada e infelizmente está bem esquecida em muitas casas, sendo evocadas raramente e/ou dia de festas, justamente por essa questão, poucos médiuns desenvolvem todo o potencial dessa linha e o conhecimento e o poder da Umbanda esvaindo-se com o tempo.

Não mencionarei também os nomes mais comuns, porque é uma falange extremamente vasta, e estamos em uma mudança de grande magnitude no mundo espiritual, novos espíritos, novas falanges, novos nomes.

Como um deles já me falou:

“Somos como luzes, somos todos iguais, pois somos abastecidos e animados pela mesma fonte de energia”.

Namastê

Neófito da Luz

História da Umbanda

Pesquisa Realizada por Lucilia Guimarães e Eder Longas Garcia

Escrever sobre Umbanda sem citarmos Zélio Fernandino de Moraes é praticamente impossível. Ele, assim como Allan Kardec, foram os intermediários escolhidos pelos espíritos para divulgar a religião aos homens. Zélio Fernandino de Moraes nasceu no dia 10 de abril de 1891, no distrito de Neves, município de São Gonçalo – Rio de Janeiro. Aos dezessete anos, quando estava se preparando para servir as Forças Armadas através da Marinha, aconteceu um fato curioso: começou a falar em tom manso e com um sotaque diferente da sua região, parecendo um senhor com bastante idade.

A princípio, a família achou que houvesse algum distúrbio mental e o encaminhou ao seu tio, Dr. Epaminondas de Moraes, Diretor do Hospício de Vargem. Após alguns dias de observação e não encontrando os seus sintomas em nenhuma literatura médica, sugeriu à família que o encaminhassem a um padre para que fosse feito um ritual de exorcismo, pois desconfiava que seu sobrinho estivesse possuído pelo demônio. Procuraram, então, também um padre da família que após fazer ritual de exorcismo não conseguiu nenhum resultado.

Tempos depois Zélio foi acometido por uma estranha paralisia, para o qual os médicos não conseguiram encontrar a cura. Passado algum tempo, num ato surpreendente Zélio ergueu-se do seu leito e declarou: “Amanhã estarei curado”. No dia seguinte começou a andar como se nada tivesse acontecido. Nenhum médico soube explicar como se deu a sua recuperação. Sua mãe, D. Leonor de Moraes, levou Zélio a uma curandeira chamada D. Cândida, figura conhecida na região onde morava e que incorporava o espírito de um preto velho chamado Tio Antônio.

Tio Antônio recebeu o rapaz e fazendo as suas rezas lhe disse que possuía o fenômeno da mediunidade e deveria trabalhar com a caridade. O Pai de Zélio de Moraes, Sr. Joaquim Fernandino Costa, apesar de não freqüentar nenhum centro espírita , já era um adepto do espiritismo, praticante do hábito da leitura de literatura espírita . No dia 15 de novembro de 1908, por sugestão de um amigo de seu pai, Zélio foi levado a Federação Espírita de Niterói. Chegando na Federação e  convidados por José de Souza, dirigente daquela Instituição, sentaram-se à mesa. Logo em seguida, contrariando as normas do culto realizado, Zélio levantou-se e disse que ali faltava uma flor. Foi até o jardim apanhou uma rosa branca e colocou-a no centro da mesa onde realizava-se o trabalho.

Tendo-se iniciado uma estranha confusão no local, ele incorporou um espírito e simultaneamente diversos médiuns presentes apresentaram incorporações de caboclos e pretos velhos. Advertidos pelo dirigente do trabalho, a entidade incorporada no rapaz perguntou:

” Por que repelem a presença dos citados espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens? Seria por causa de suas origens sociais e da cor?”

Após um vidente ver a luz que o espírito irradiava perguntou:

” Por que o irmão fala nestes termos, pretendendo que a direção aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, são claramente atrasados? Por que fala deste modo, se estou vendo que me dirijo neste momento a um jesuíta e a sua veste branca reflete uma aura de luz? E qual o seu nome meu irmão?”

Ele responde:

Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho, para dar início a um culto em que estes pretos e índios poderão dar sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem saber meu nome que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminhos fechados para mim.”

O vidente ainda pergunta:

” Julga o irmão que alguém irá assistir a seu culto?”

Novamente ele responde;

Colocarei uma condessa em cada colina que atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei.”

Depois de algum tempo todos ficaram sabendo que o jesuíta que o médium verificou pelos resquícios de sua veste no espírito, em sua última encarnação foi o Padre Gabriel Malagrida.

No dia 16 de novembro de 1908, na rua Floriano Peixoto, 30 · Neves · São Gonçalo · RJ, aproximando-se das 20:00 horas, estavam presentes os membros da Federação Espírita , parentes, amigos e vizinhos e do lado de fora uma multidão de desconhecidos. Pontualmente às 20:00 horas o Caboclo das Sete Encruzilhadas desceu e usando as seguintes palavras iniciou o culto:

Aqui inicia-se um novo culto em que os espíritos de pretos velhos africanos, que haviam sido escravos e que desencarnaram não encontram campo de ação nos remanescentes das seitas negras, já deturpadas e dirigidas quase que exclusivamente para os trabalhos de feitiçaria, e os índios nativos da nossa terra, poderão trabalhar em benefícios dos seus irmãos encarnados, qualquer que seja a cor, raça, credo ou posição social. A prática da caridade no sentido do amor fraterno será a característica principal deste culto, que tem base no Evangelho de Jesus e como mestre supremo Cristo”.

Após estabelecer as normas que seriam utilizadas no culto e com sessões diárias das 20:00 às 22:00 horas, determinou que os participantes deveriam estar vestidos de branco e o atendimento a todos seria gratuito. Disse também que estava nascendo uma nova religião e que chamaria Umbanda. O grupo que acabara de ser fundado recebeu o nome de Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade e o Caboclo das Sete Encruzilhadas disse as seguintes palavras:

Assim como Maria acolhe em seus braços o filho, a tenda acolherá aos que a ela recorrerem as horas de aflição; todas as entidades serão ouvidas, e nós aprenderemos com aqueles espíritos que souberem mais e ensinaremos aqueles que souberem menos e a nenhum viraremos as costas e nem diremos não, pois esta é a vontade do Pai”.

Ainda respondeu perguntas de sacerdotes que ali se encontravam em latim e alemão. Caboclo foi atender um paralítico, fazendo este ficar curado. Passou a atender outras pessoas que havia neste local, praticando suas curas. Nesse mesmo dia incorporou um preto velho chamado Pai Antônio, aquele que, com fala mansa, foi confundido como loucura de seu aparelho e com palavras de muita sabedoria e humildade e com timidez aparente, recusava-se a sentar-se junto com os presentes à mesa dizendo as seguintes palavras: “- Nêgo num senta não meu sinhô, nêgo fica aqui mesmo. Isso é coisa de sinhô branco e nêgo deve arrespeitá”. Após insistência dos presentes fala:

Num carece preocupá não. Nêgo fica no toco que é lugá di nêgo”.

Assim, continuou dizendo outras palavras representando a sua humildade. Uma pessoa na reunião pergunta se ele sentia falta de alguma coisa que tinha deixado na terra e ele responde:

Minha caximba, nêgo qué o pito que deixou no toco. Manda mureque buscá”.

Tal afirmativa deixou os presentes perplexos, os quais estavam presenciando a solicitação do primeiro elemento de trabalho para esta religião. Foi Pai Antonio também a primeira entidade a solicitar uma guia, até hoje usadas pelos membros da Tenda e carinhosamente chamada de”Guia de Pai Antonio”.

No outro dia formou-se verdadeira romaria em frente a casa da família Moraes. Cegos, paralíticos e médiuns que eram dado como loucos foram curados. A partir destes fatos fundou-se a Corrente Astral de Umbanda. Após algum tempo manifestou-se um espírito com o nome de Orixá Malé, este responsável por desmanchar trabalhos de baixa magia, espírito que, quando em demanda era agitado e sábio destruindo as energias maléficas dos que lhe procuravam.

Dez anos depois, em 1918, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, recebendo ordens do astral, fundou sete tendas para a propagação da Umbanda, sendo elas as seguintes:

  • Tenda Espírita Nossa Senhora da Guia
  • Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição
  • Tenda Espírita Santa Bárbara
  • Tenda Espírita São Pedro
  • Tenda Espírita Oxalá
  • Tenda Espírita São Jorge
  • Tenda Espírita São Jerônimo

As sete linhas que foram ditadas para a formação da Umbanda são: Oxalá, Iemanjá, Ogum, Iansã, Xangô, Oxossi e Exu. Enquanto Zélio estava encarnado, foram fundadas mais de 10.000 tendas a partir das acima mencionadas. Zélio nunca usou como profissão a mediunidade, sempre trabalhou para sustentar sua família e muitas vezes manter os templos que o Caboclo fundou, além das pessoas que se hospedavam em sua casa para os tratamentos espirituais, que segundo o que dizem parecia um albergue. Nunca aceitar a ajuda monetária de ninguém era ordem do seu guia chefe, apesar de inúmeras vezes isto ser oferecido a ele. O ritual sempre foi simples.

Nunca foi permitido sacrifícios de animais. Não utilizavam atabaques ou qualquer outros objetos e adereços. Os atabaques começaram a ser usados com o passar do tempo por algumas das Tendas fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, mas a Tenda Nossa Senhora da Piedade não utiliza em seu ritual até hoje. As guias usadas eram apenas as determinadas pelas entidades que se manifestavam. A preparação dos médiuns era feita através de banhos de ervas e do ritual do amaci, isto é, a lavagem de cabeça onde os filhos de Umbanda fazem a ligação com a vibração dos seus guias.

Após 55 anos de atividade, entregou a direção dos trabalhos da Tenda Nossa Senhora da Piedade a suas filhas Zélia e Zilméia, as quais até hoje os dirigem.

Mais tarde, junto com sua esposa Maria Isabel de Moraes, médium ativa da Tenda e aparelho do Caboclo Roxo, fundaram a Cabana de Pai Antonio no distrito de Boca do Mato, Cachoeira do Macacú·RJ. Eles dirigiram os trabalhos enquanto a saúde de Zélio permitiu. Faleceu aos 84 anos, no dia 03 de outubro de 1975.

Dia 16 de setembro de 2010, faleceu Dona Zilméia de Moraes, a única dos quatro filhos de Zélio de Moraes, fundador da Umbanda, que ainda estava encarnada. Fica mais órfã a Umbanda a partir de agora. Deixamos aqui nossa homenagem a essa querida e doce mãe de santo. Saravá!

 

Roupagem Fluídica e Arquétipos na Umbanda

PERGUNTA: A respeito dos pretos–velhos, a senhora poderia tecer alguns comentários a respeito da linha e da forma plasmada/roupagem fluídica utilizada pelos espíritos que nela militam?

VÓ BENEDITA: A linha de pretos – velhos, meus filhos, é uma linha como qualquer outra dentro da Umbanda. Um grande equívoco é pensar que todo preto–velho foi negro, ou morreu velho em sua última encarnação, o que muitos sabem não é bem verdade. Existem muitos irmãos que utilizam a aparência de preto–velho, mas nunca foram escravos nem aqui no Brasil nem em qualquer lugar do mundo. Na verdade essa linha nasce como forma de organização de todo um contingente de espíritos que iriam atuar dentro do movimento umbandista que surgia. As primeiras linhas fundamentadas foram a de caboclo e pretos–velhos. Utilizou–se uma figura mítica já presente dentro da cultura brasileira e criou–se toda uma linha de trabalho, onde todos os seus representantes teriam trejeitos e características similares. Surgia a linha de preto–velho, uma linha transmissora da calma, da sapiência, da humildade, detentora do conhecimento sobre os Orixás e que acima de tudo, falaria ao simples de coração até ao mais erudito doutor, sempre com palavras de amor e espalhando luzes dentro da espiritualidade terrena. Era uma forma de identificar e aproximar a população ao culto nascente. Era uma forma de homenagem. Era também uma forma de hierarquizar e organizar. Além disso, temos a questão arquetípica e mítica por detrás de cada uma das linhas. 

Os pretos-velhos estão fundamentados no arquétipo do sábio, ou, “ancião”, aquele que com as experiências vividas alcançou a sabedoria. Em cima desse arquétipo, criou-se muitos mitos dentro da cultura universal, onde a figura do ancião sempre foi utilizada como símbolo para a sapiência. Um dos mito brasileiro para esse arquétipo é a figura do preto-velho, que sofreu, tinha poucas condições, mas tudo isso superou, com fé, amor, determinação, etc. Na verdade, dentro da figura simbólica do preto-velho, vemos um ideal de luta e superação das pessoas.

É preciso atentar para esses reais fundamentos dos chamados povos de Umbanda, ou linhas de trabalho. Por detrás de cada um deles encontramos um arquétipo universal e um mito fortemente arraigado a cultura afro-brasileira.

PERGUNTA: “Um arquétipo universal e um mito arraigado a cultura afro-brasileira?” A senhora poderia exemplificar melhor?

VÓ BENEDITA: Arquétipos são como estruturas que residem no inconsciente coletivo da humanidade, moldando de certa forma o pensamento universal. A forma mais simples de se entender isso é o estudo da mitologia comparada entre povos diversos. Caso façamos esse estudo, veremos que as lendas ou mitos de diversos povos que nunca tiveram um intercâmbio cultural são extremamente semelhantes na sua forma, apesar de diferirem de forma gritante no conteúdo. Podemos dizer, portanto, que arquétipos são como “fôrmas de bolo”. Todo bolo saído de uma fôrma redonda, será redondo, apesar de que com a mistura de ingredientes diferentes, podemos obter bolos de chocolate, cenoura, banana, ou seja, bolos diferentes. Nessa nossa analogia, entendam os arquétipos como as “fôrmas”, os mitos como os “bolos” e, seguindo ainda a linha de pensamento, os “ingredientes” como a cultura vigente de determinado povo.

Dessa forma, um mito como o do dilúvio, por exemplo, está presente nas mais diversas culturas. Mas em cada uma delas ganha uma apresentação diferente, ou um conteúdo diferente, mesmo que a forma ou essência seja a mesma para todos os “dilúvios” já relatados.

Esse mesmo raciocínio deve ser utilizado dentro das imagens arquetípicas e míticas utilizadas pelos guias de Umbanda. Como dito no meu comentário anterior, um preto-velho é um mito brasileiro, surgido através dos fatos históricos ligados a escravidão e resistência negra dentro desse país. Por detrás dele temos um arquétipo, o do “ancião” ou “sábio”, que é uma figura universal e irá ganhar outras formas, dependendo da cultura em que esteja inserido. Assim, o ancião sábio dentro da cultura oriental será retratado de uma forma, dentro da cultura indígena de outra, dentro da cultura européia de outra ainda, mas todos terão uma mesma forma, ou correspondências claras entre eles. Isso é arquétipo, uma estrutura de pensamento universal, que reside no inconsciente coletivo da humanidade e atua como modelador de símbolos, lendas, fábulas, histórias, religiões, mitos, comportamento e tudo mais que esteja relacionado ao pensamento humano.

Dessa forma, as linhas de Umbanda também foram pensadas em cima de arquétipos e mitos, pois isso facilita a aceitação e o entendimento em relação as entidades espirituais. Por exemplo:

 linha de caboclos foi pensada em cima do arquétipo do “herói”, ou seja, daquele que faz sempre a luz prevalecer sobre as trevas, um ser justo, puro, bondoso, mas ao mesmo tempo corajoso o bastante para lutar e defender seus filhos. Esse arquétipo tem sintonia ideal com o mito criado em cima da figura indígena, um povo forte, justo, guerreiro, etc. Dessa forma surgiu a linha de caboclos, fundamentada em cima da figura mítica do índio brasileiro e que logo se tornou a linha de frente dos trabalhos de Umbanda, por motivos obviamente relacionados às qualidades apresentadas pelos espíritos militantes dessa egrégora, assim como pela empatia que a figura arquetípica do “herói” desperta nas pessoas. E aqui não estamos comentado a respeito do que já foi falado e é de conhecimento dentro da Umbanda, pois em Oxossi a figura do índio ganha nova sustentação, assim como na figura de Ogum também, por exemplo.

Seguindo a linha de raciocínio, temos em Exu o “anti-herói” típico, ou seja, espíritos tão valentes e guerreiros como os “heróis/caboclos”, mas que ainda apresentam traços extremamente humanos dentro de sua personalidade, em contraste com a postura sempre correta, pura e equilibrada dos caboclos. O mito utilizado como referência dentro da linha de guardiões foi a própria figura mitológica do Orixá Exu, que apresenta através do mito yorubano comportamento semelhante ao que aqui está descrito. Por isso também a linha de guardiões foi chamada de Linha de Exu, sendo totalmente diferente do que chamamos de Exu dentro do culto tradicional africano.   

Logo, entendam que os espíritos de caboclos, pretos-velhos e exus (assim como de todos os outros guias de Lei de Umbanda) ganham essa roupagem apenas dentro do culto umbandista, pois em outras culturas atuarão e se apresentarão de forma diversa, pois um mito é fruto do ambiente sócio-cultural, enquanto um arquétipo é universal e inerente a todos os povos.

Por tanto, os próprios guias de Umbanda são universais, atuando de forma discreta e desprovida de ego em muitas religiões e tradições espirituais, ocultados por roupagens energéticas que simbolizam a egrégora, o arquétipo e a vibração que dá sustentação ao trabalho por eles realizado. A maioria das chamadas linhas de Umbanda são muito mais antigas que a própria Umbanda, tendo em sua militância espíritos das mais diversas etnias ou culturas. O fator agregador dessas consciências espirituais é a sintonia com o arquétipo que existe por detrás de cada linha, que também pode ser identificado como um Orixá, uma vibração, um sentido, um elemento, um Santo, etc. O comentário aqui tem como ponto central os arquétipos, por entender que com isso comenta-se algo não explicado de forma aberta dentro da Umbanda, mas principalmente, abre-se o conteúdo umbandista para pessoas não familiarizadas com o universo mítico afro-brasileiro. 

Para o Umbandista ou para alguém com algum conhecimento dentro dos cultos afro-brasileiros, chamar a linha de guardiões de Exu é muito útil, facilitando o entendimento, pois a própria figura de Exu já representa muita coisa a respeito daquela entidade. Mas para um espírita, por exemplo, é complicado compreender o uso desse termo. Seria melhor o termo “guarda” ou “guardião”. Agora imaginem para um oriental… Outra teria que ser a abordagem! Por isso desses comentários em cima dos arquétipos e mitos formadores das linhas de trabalho.          

Essa também é uma abordagem em sintonia com o que acontece no astral, pois nele os espíritos são agregados através da afinidade mental/emocional, que vai muito além da barreira da língua, religião, cultura, etc. O que é dentro da Umbanda chamado de linha de pretos-velhos (e surgiu com o nascimento da mesma), no astral é uma grande egrégora, grupo ou fraternidade espiritual (muito mais antiga que a própria Umbanda) que congrega espíritos que tem na maturidade consciencial sua principal característica. Que no arquétipo do “ancião” encontra seu eixo psicológico e em uma vibração conhecida como Obaluayê/Yorimá pelos umbandistas, mas que ganha outros nomes nas tradições religiosas mundiais, e mais outro dentro do plano espiritual, sua sustentação vibracional.  

PERGUNTA: Quer dizer que a linha dos pretos-velhos surgiu com a Umbanda, mas no astral ela já existia como uma antiga egrégora que congregava espíritos com as mais diversas vivências?  

PAI ANTÔNIO: Pedindo licença para minha irmã Benedita, vou comentar a esse respeito. É sim verdadeiro que o que chamamos de linha de pretos-velhos na Umbanda é muito antiga no astral, remontando as mais diversas épocas da humanidade. É claro que ela nunca foi conhecida como “linha dos pretos-velhos” ou continha em si divisões como “José da Guiné”, “João de Angola” ou “Maria Conga”, etc. E isso é uma coisa que gera ainda hoje muita confusão no meio umbandista, por isso deve ser muito bem explicada.

Como fraternidade espiritual, essa egrégora vem acolhendo espíritos dos mais diversos, formando um contingente que conta aos milhões nos dias de hoje. Os próprios mentores maiores dessa fraternidade espiritual são espíritos elevadíssimos, que tem como trabalho cuidar da evolução da humanidade de forma a abranger todo o planeta. São senhores dos carmas coletivos, unificados em consciência com os Sagrados Orixás. Muitos deles atuam exclusivamente através do corpo mental, tendo abandonado a utilização do corpo espiritual/astral há milênios. Isso é um fato.

Agora, a linha dos pretos-velhos, e com essa designação estamos envolvendo: a forma de se manifestar, as muitas linhas de trabalho, falanges, ritualística própria, etc, etc, apenas surgiu com o nascimento da Umbanda, em solo brasileiro. Tanto a Umbanda quanto os pretos-velhos foram “pensados” em cima do contexto social, cultural, ético, do Brasil e da atual humanidade. A figura do preto-velho foi aproveitada e ela obviamente só pôde surgir a partir da diáspora negra e a resistência da escravidão aqui no Brasil. A figura do índio/caboclo só pode surgir com a exploração e dizimação dos índios de então. Acredito que isso ficou muito claro na abordagem anterior feita por Vó Benedita, onde ela explicou a questão arquetípica e mítica.

Dessa forma falamos de duas coisas distintas: Primeiro de uma egrégora ou fraternidade espiritual milenar e universal, formada por “anciões”, ou espíritos ligados à maturidade consciencial. Segundo, sobre uma forma de manifestação dessa fraternidade dentro dos trabalhos espirituais de Umbanda, que é a linha dos pretos-velhos, surgida e pensada no astral a não mais de 200 anos.

PERGUNTA: E quanto às outras linhas de Umbanda? Mesmo entendendo que a forma como elas se manifestam tenha surgido junto do movimento umbandista, elas também seriam mais antigas no astral que a própria Umbanda?

PAI ANTÔNIO: Sim, com certeza muitos dos agrupamentos espirituais que respondem dentro da Umbanda por nomes simbólicos e apresentam-se através da roupagem energética de caboclos, pretos-velhos, baianos, boiadeiros, exus, etc, são muito antigos dentro do astral. A linha de guardiões e guardiãs conhecida como linha de esquerda, atua há milênios no astral do planeta. A forma de entendê-la como linha de Exu é que nasceu dentro do movimento umbandista. Apesar do preconceito ainda existente, a Umbanda é responsável pela abertura do conhecimento em relação a essas entidades responsáveis pela LUZ nas regiões mais trevosas e densas ligadas ao astral da Terra. Daqui a alguns anos, muitos grupos espiritualistas estudarão Umbanda como uma forma de melhor conhecer a atuação dessas entidades protetoras. Quando as barreiras do preconceito caírem por inteiras, então os irmãos espiritualistas das mais diversas tradições verão o universo riquíssimo que a Umbanda descortina através de seus nomes simbólicos, ritualística, linhas de trabalho, etc, etc.

PERGUNTA: Muitas vezes a Umbanda é tachada de atrasada ou é vítima de preconceito dentro do próprio espiritismo ou de outras faces do espiritualismo ocidental. Muitas pessoas tendem a criticar o excesso de rituais, simbologias, etc, que fazem parte do universo umbandista. Gostaríamos de algumas palavras suas a respeito disso.

PAI ANTÔNIO: Muitos filhos não entendem o porquê de a Umbanda ter sido organizada dessa forma. Mas isso tem muito a ver com a própria natureza dos espíritos que reencarnam aqui no Brasil. Peguemos o exemplo espírita. Quando Kardec o codificou, o fez sobre forte influência da cultura européia: científica e técnica por natureza, mas também elitista, machista e preconceituosa historicamente falando. Quando esse espiritismo-científico chegou ao Brasil, ele passou por uma “renovação”, mesmo que os defensores da “pureza doutrinária” não gostem desses comentários e os neguem. A verdade é que no Brasil o “espiritismo-científico” transformou-se em “espiritismo-religião”, o que foi muito importante para sua aceitação dentro do seio do povo brasileiro, “mais coração” e “menos cabeça” que os europeus.

Mas muito mais poderia ser feito no Brasil, pois nele encontrávamos um “turbilhão cultural” enorme e propício para o surgimento de novas tradições espiritualistas-mediúnicas. A Umbanda nasceu assim, fruto do meio social onde está inserida, absorvendo em si diversas tendências religiosas do povo brasileiro e dos espíritos que encarnavam aqui no Brasil com as faculdades mediúnicas abertas. Aspectos ligados a magia, ao culto as divindades, os trabalhos na natureza e com os espíritos que nela vivem, assim como muitos outros pontos relegados pelo espiritismo, foram aceitos e incorporados dentro da Umbanda.

De certa forma, o espiritismo brasileiro, vamos dizer assim, e a Umbanda, são dois lados de uma mesma moeda, que tem na mediunidade e no contato direto com o plano espiritual sua forma de acelerar a evolução espiritual do homem e, na caridade, a ação altruísta que visa despertar o amor ao próximo.

E podemos dizer ainda que onde acaba o campo de atuação do Espiritismo, começa o da Umbanda, e essa verdade é recíproca também. Dessa forma, consciências que tinham nas capacidades mediúnicas sua grande alavanca evolucionista encontram em solo brasileiro dois grandes agrupamentos afins com suas necessidades. De um lado o espiritismo, mais científico, evangelizador, tendo na figura de Jesus e na postura cristã sua sustentação. Do outro, a Umbanda, mais magística e ritualística, tendo nos Orixás e na postura aprendida com os guias espirituais seus grandes fundamentos. Uma não é melhor que a outra, mas sim são complementares e respondem por anseios diferentes, de almas diferentes. São religiões irmãs…      

É uma pena que as duas religiões nunca atentaram para essa complementaridade que tanto as aproxima. Pois, se devemos diferenciá-las, para não descaracterizá-las, o estudo em conjunto poderia enriquecer ainda mais as duas tradições. Hoje vemos que os umbandistas começam a perceber isso, valendo-se das excelentes obras espíritas já trazidas para o plano físico. Infelizmente isso ainda não é verdade dentro do seio kardecista, pois o preconceito impede, na maioria dos casos, que os espíritas também aprendam com a Umbanda. Mas tudo tem o seu tempo…

Apenas para completar o que aqui digo sobre Umbanda e espiritismo, observem as tradições orientais como o taoísmo, o zen, o budismo e a yoga. Todas têm na meditação seu ponto chave, pois isso vai mais ao encontro da natureza passiva e introspectiva do oriental. São tradições diferentes, com suas particularidades, mas também lados de uma mesma moeda.

Assim também o é com a Umbanda e o Espiritismo, tendo a mediunidade e caridade como eixo principal, indo de encontro com a natureza mais expansiva e ativa do ocidental. 

PERGUNTA: Então, tanto o Espiritismo como a Umbanda, de certa forma, têm como um de seus objetivos, congregar dentro de seu movimento espíritos que tem na mediunidade uma alavanca para sua evolução?

PAI ANTÔNIO: Exato. A mediunidade é o ponto básico das duas doutrinas. Mas mesmo espíritos possuidores de faculdades semelhantes, têm tendências, carmas, afinidades espirituais diversas, além de capacidades diferentes para determinados trabalhos. Em nenhum outro local do mundo, na atualidade, reencarnam tantos espíritos com suas faculdades mediúnicas abertas como no Brasil. Isso se deve a essa grande egrégora ligada ao mediunismo existente no astral do país.

No astral não existe essa diferença de paredes e congás, centro e terreiro, que existe na matéria. Espíritos que militam na Umbanda, militam também dentro do espiritismo, de forma completamente natural. O preconceito ainda existente é fruto de uma visão estreita e muito arraigada a terra. Quanto mais do alto contemplamos alguma coisa, mais evidente fica a noção de totalidade e unidade que existe no cosmos.

Enquanto o espiritismo tende por uma linha codificada e, portanto, mais organizada, a Umbanda caminha livre, respeitando as diferenças conscienciais encontradas de terreiro para terreiro, sendo exemplo de universalidade entre as religiões modernas. 

PERGUNTA: Voltando ao assunto das linhas de trabalho. Entendido a questão dos arquétipos e mitos, assim como de seus valores simbólicos e psicológicos dentro da Umbanda, gostaríamos de comentários a respeito das funções energéticas ou espirituais das formas plasmadas ou roupagens fluídicas adotadas por vós dentro dos trabalhos espirituais.

VÓ BENEDITA: Muito mais profunda e detalhada é essa questão. Existem pretas–velhas “Beneditas” (como eu), “Cambindas”, “Marias”, etc. Se todas fomos agrupadas na linha de pretas–velhas e resolvemos atuar dentro dessa grande egrégora/vibração, nosso nome simbólico representa a egrégora/falange a qual nos reportamos. E a peculiaridade de nossa forma plasmada também. Todas adotamos a aparência de negras–velhas, mas cada uma portando algumas características próprias, pois a forma plasmada ou roupagem fluídica também é um fundamento de grande importância dentro da Umbanda.

Ela funciona como uma “chave de acesso” a egrégora/falange a qual o espírito pertence (trabalha). Por exemplo, eu, nessa forma espiritual que agora me apresento, poderia dizer por analogia que estou “vestida de Benedita de Aruanda”, utilizando-a como um uniforme que me liga naturalmente, por sintonia, vibração e estímulo mental a toda uma hierarquia de “Beneditas de Aruanda”, todas elas amparadas pelas nossas amadas Iabás das Águas: Oxum, Iemanjá e Nanã Buroquê.

Esta forma plasmada demonstra que eu estou em serviço dentro da falange. É uma chave de abertura para determinada vibração, ou mistério, como queiram. Dentro do ritual umbandista, três são as grandes chaves de acesso que cada entidade trás. Primeiro seu nome simbólico, que, na maioria dos casos, encontra-se em português, em yorubá, em tupi, guarani, ou outro dialeto indígena. Essa é a chave “sonora” de aceso a vibração de um guia.

Como exemplo, peguemos a linha de caboclos Sete Flechas. Apenas a verbalização ou mentalização do nome Sete Flechas já reverbera no astral e designa todo uma grande egrégora trabalhadora dentro da vibração do Orixá Oxossi e da Orixá Iansã. Essa é a chave sonora, ligada ao verbo e as características do tipo de trabalho o qual o guia realiza. Nela está fundamentada a mentalização dos nomes dos guias, assim como dos conhecidos pontos cantados de chamada de determinadas linhas.

A outra chave de acesso é o ponto riscado. Ele é a inscrição de símbolos que demonstram as forças e campos no qual o guia trabalha. É a “chave vibratória” e a mais “direta” entre as três, pois o magnetismo do ponto riscado de um caboclo Sete Flechas é só dele, e mesmo existindo outros milhares de Sete Flechas, aquele ponto vibra em uma correspondência energética só sua. Dessa forma caso seu médium conheça o ponto, através dele acessa diretamente ao seu guia pessoal. Por isso, essa é a chave mais velada e oculta, liberada de forma integral apenas quando o médium dá provas de determinação e maturidade dentro do trabalho de Umbanda. 

A terceira chave é a forma plasmada/roupagem fluídica de uma falange. Ela é de aspecto visual e talvez seja para os encarnados a mais “genérica” entre as três. É nesse fundamento que sustenta–se o uso de imagens, pois através de uma sugestão mental, invoca–se dentro da mente das pessoas uma egrégora ou vibração especial. Dessa forma, caso o dirigente peça para que todos mentalizem a linha dos caboclos, logo as imagens de índio utilizadas por todos caboclos virão à mente e por sintonia visual–mental ocorrerá a ligação do encarnado com a parte astralina da corrente dos caboclos. Os mestres orientais dizem que essa é a mesma ciência por trás do que ficou conhecido como Yantras no oriente.

Mas, o aspecto mais profundo dentro desse fundamento, é o da roupagem fluídica pessoal de cada espírito. Ela pode ser conhecida tanto através das faculdades clarividentes como em projeções astrais conscientes. É aqui que realmente pode-se conhecer as peculiaridades de cada forma que os guias de lei de Umbanda utilizam e que estão mais ligados a detalhes pessoais da consciência espiritual. Mas dentro de uma falange, essas peculiaridades são extremamente importantes, pois se milhares de Caboclos Sete Flechas imprimem a seu corpo espiritual através da força do pensamento uma forma semelhante entre si, às pequenas nuances e detalhes, refletirão dentro da hierarquia e das funções que cada um deles têm dentro da falange.                

Por fim, a forma coletiva adotada pelos espíritos dentro da Umbanda é um meio de acabar com a vaidade e necessidade dos médiuns de obterem comunicações com personalidades importantes quando encarnadas, o que, sem querer que soe como uma crítica, é muito comum dentro do espiritismo mundial codificado por Kardec. Por detrás da aparência de uma preta–velha, pode estar uma simples e sábia escrava, uma professora, uma parteira, ou até mesmo uma grande santa ou sacerdotisa de outros tempos. Pouco importa, pois todas respondemos dentro de uma linha (Preta–Velha) e de um grupo (Benedita). Nós ficamos “ocultas” por assim dizer. Trabalhando e esclarecendo simplesmente por amor.

Esse sistema foi baseado no modo de viver dos seres naturais e encantados da natureza, onde todos se vêem como um grupo, como um grande organismo onde cada individualidade é uma pequena célula de Um organismo maior, que são os Orixás, e esses, por sua vez, são outras grandes células que formam o Todo, Olorum. Dessa forma, trabalha–se por alegria e altruísmo, anulando–se o ego e a vontade própria, para o prevalecimento do Eu divino e da vontade coletiva.

PERGUNTA: A Senhora poderia explicar melhor como funcionam essas “chaves” de acesso a determinada entidade ou corrente espiritual?

VÓ BENEDITA: As “chaves” citadas no comentário anterior funcionam através de correspondência vibratória. Para fazermos uma analogia com algo material, usemos o diapasão. O diapasão é um instrumento utilizado para afinar instrumentos musicais, “calibrado” para vibrar em determinada freqüência, emitindo a nota Lá (440Hz). Agora imaginem que as “chaves” estejam calibradas e sejam capazes de sintonizarem com determinadas egrégoras assentadas no plano espiritual, captarem suas vibrações e transformarem-se em pólos irradiadores ou veículos manifestadores dessas vibrações.

Essa lei das correspondências vibratória é uma das leis básicas da magia e também da própria mediunidade. Através de princípio semelhante, mas voltado às leis de vibração espiritual, um ponto riscado entra em sintonia com o próprio magnetismo de um guia, ou um nome simbólico em si carrega a vibração peculiar de uma determinada falange. Seguindo o mesmo raciocínio, à parte etérica da glândula pineal de um médium “vibra” em correspondência vibratória com as ondas mentais enviadas por uma entidade extrafísica, conseguindo captá-las. Pelos mesmos princípios, uma ferramenta condensadora de axé, consagrada em algum sítio vibratório da natureza, pode reproduzir, a partir de si, o mesmo magnetismo e energia do local natural. E nisso encontra-se um dos fundamentos dos otás e ferramentas assentadas em um congá dentro de um terreiro de Umbanda. Mas aí, estaríamos entrando em um outro assunto…

O importante aqui é entender como a lei da correspondência vibratória está na base de diversos fundamentos da prática umbandista, ou de muitas outras práticas magísticas e espirituais. Tudo na Criação vibra, nada é estático. E a sintonia e correspondências entre essas vibrações são uma grande chave descortinadora de mistérios.

PERGUNTA: Quanto ao comentário a respeito da anulação do ego através do uso de nomes e aparências coletivas. Isso nos parece muito interessante. Você poderia nos explicar um pouco mais a respeito?

VÓ BENEDITA: “Deus, em sua infinita misericórdia, fez da morte a grande niveladora das consciências humanas. Mas vocês, ignorantes das leis espirituais, continuam rotulando e julgando um espírito pelo que ele foi ou deixou de ser no plano material” _ essas foram as palavras do Caboclo das Sete Encruzilhadas dentro da recém fundada federação espírita de Niterói, questionando o porquê de espíritos de negros ou índios serem afastados das mesas espíritas.

Acreditamos que essa citação, por si só, já é mais eloqüente do que qualquer coisa que possamos falar. Na verdade, uma encarnação é apenas uma “roupa” ou “papel” representado no teatro cósmico das vidas sucessivas. Entendido isso, como se apegar a alguma personalidade terrena, quando a realidade do espírito floresce aos nossos olhos?

Apesar de compreender que em alguns casos a identificação espiritual seja muito importante, para as necessidades básicas de atividade dentro da Umbanda, o nome coletivo funciona muito bem.

Quem realmente eu sou? Um corpo físico, uma personalidade criada dentro dos parâmetros da terra, ou um espírito imortal, parte de Olorum?

O que realmente é importante? A erudição que levo da terra, ou os tesouros do espírito que carrego no baú do coração?

Quem realmente age? Benedita, um simples espírito em evolução, ou a mão do Orixá a usa, como humilde instrumento de ação na vida dos semelhantes?

O que é mais valoroso? A cultura terrena que um espírito possui, ou sua luz e sua energia pessoal?

Respondam com discernimento, sabedoria e carinho o que aqui foi perguntado e entenderão por si mesmos esse fundamento dos nomes e aparências coletivas dentro da Umbanda.   

Linha dos Preto-Velhos – Quenguelê.

Prezados irmãos, como alguns já sabem, ainda estou em busca de um lugar para trabalhar até estabelecer o meu próprio, de acordo com a Vontade deles.

Nesse interim, estou acendendo velas, firmando a minha cabeça, estudando e solicitando orientações e confirmações. Essa noite me deparei com a lembrança de uma entidade que se apresenta na linha de preto-velho, chamado Quenguelê, mas ele tem uma grande particularidade, ele vem ereto, anda normalmente e aparece com um estigma no rosto, como uma queimadura de ferro quente. Aparente ser um negro de alta estatura e forte.

Era algo que eu nunca havia me preocupado, como era pai pequeno da casa, tinha uma liberdade razoável de trabalho e não me preocupava em cair em esteriótipos, mas decidi refletir sobre o fato desse espírito, que diz que ficou em Quilombo e ajudou a liderar uma revolução, ainda há o fato de se crermos em esteriótipo, ele poderia vir como baiano.

Como já disse, seu nome é Quenguelê, fuma um cachimbo grande de barro, usa um pano na cabeça, outro fato que achei curioso dentro da linha de preto-velho, porque até então, só havia presenciado chapeus no Ori dos preto-velhos e não um pano na cabeça.

Obviamente recorri a uma matéria que sempre me dei bem na escola, a história, fiz uma pesquisa razoável sobre a escravatura e inclusive, seus hábitos e roupas. Para meu sossego, existiam escravos que usava essa bandana, tanto no quilimbo quanto na fazenda ho homem branco, geralmente eram os mais jovens, que também eram “chegados” dos brancos, faziam trabalhos de maior proximidade, eram negros de maior confiança entre os brancos e dentro dos quilombos, também ocorria a hierarquia, onde alguns escravos usavam o pano branco, para identificar a casta guerreira ou religiosa. A forma que ele amarra esse pano também é interessante, o pano é grande e a ponta fica abaixo dos ombros, como se fosse um cigano.

Agora sobre a forma que ele se apresenta, de forma ereta, andando como um soldado aparentendo uns 42 anos, procurei em muitos documentos sobre a escravatura e algumas coisas me geraram ainda mais dúvidas. A expectativa de vida de um escravo era de no máximo, estourando, 45 anos, como em nossa Umbanda apresentam-se escravos de 65, 70 e até 80 anos? Dentro de um contexto, então seria mais comum um preto-velho vir ereto a um preto-velho vir encurvado, andando como se fosse um ancião. De certa forma, fico agradecido, porque eu não “viajei” na incorporação do mesmo. [risos].

Tive muito poucas informações sobre ele e com ele, apenas que era um quilombola, fazia parte do corpo revolucionário junto com outros grandes nomes da revolução da escravatura e que dentro do seu culto religioso, havia traços deixados pela colônia portuguesa mesclado com o culto afro, o vodu e outras práticas africanas.

Existiam os quilombos, onde eles poderiam viver conforme sua cultura, religião e respeitavam até as hierarquias de sociedade. Seus habitantes eram chamados de quilombolas. Temos o quilombo de Palmares onde segundo textos, eram formados de quase 50.000 negros onde a expectativa de vida subia significaticamente, existindo anciões que viviam até os seus 80 anos. OS quilombos eram agrupamentos de terra que ficavam dentro de matas fechadas, integrando até parte de índios junto aos quilombos, onde houve uma comunhão de pensamentos e culturas, onde os negros também aprenderam a manipular as ervas brasileiras e assim, agregando o conhecimento dentro da magia natural. Os quilombos existiam em todos os lugares do Brasil, agrupando grande quantidade de negros e índios.

Como é uma linha que representa a humildade e servidão, que representa a sabedoria, nada surpreendente a grande maioria dos espíritos dessa falange se esterioriparem como negros anciões, trazendo consigo o conhecimento e a sabedoria que se perderam no tempo.