Um Pouco Sobre Oferendas na Encruzilhada


Cícero: – É surpreendente, meu “velho”, o que acabas de elucidar sobre a Quimbanda. Não te interrompi uma vez, dado o excepcional interesse com que te ouvia, nessas discriminações. Além de ter notado que as oferendas diferem

bastante das usuais ou dos “despachos ou ebós” tão falados, tenho ainda a perguntar por que, nas características de cada exu-guardião, frisas que ele não recebe essas oferendas ou qualquer outra, nas encruzilhadas de ruas?

Preto-velho: – Este “preto-véio” vai responder: – essas encruzilhadas de ruas, além de serem impróprias para qualquer operação positiva, dado que a maioria das pessoas que as encontram olham para essas coisas com vibrações negativas de toda sorte, assim como desprezo, deboches, medo, aversões, etc., e muitas mesmo as pisam, outras tiram materiais, etc. Com isso, estão, naturalmente, quebrando o encanto que porventura pudesse existir nelas.

Por outro lado, não podem servir para as operações necessárias e positivas com os exus, porque essas encruzilhadas de rua são mais “moradia” ou “habitat” dos espíritos classificados ou conhecidos com os “rabos de encruza” e de toda sorte de espíritos vadios, almas penadas ou aflitas de toda espécie de que vivem indo sempre na lábia desses quiumbas velhacos e trapalhões, que procuram envolvê-los de todas as maneiras e para todos os fins…

De forma que um desses tais “despachos ou ebós”, ali postos se torna um perigo, mais para os que botam, porque, via de regra, não obedecem à direção de um Exu e muito menos de um caboclo ou preto-velho, etc. Esses filhos que despacham nas encruzilhadas de ruas não sabem que estão alimentando essas classes de espíritos, que imediatamente os cercam, envolvem, etc., para não perderem mais o fornecimento das coisas de que eles gostam. Em realidade, eles passam mais a atuar nos que botam os “despachos”, do que naqueles para quem, eventualmente, são dirigidos. Então, pobres desses filhos que vivem alimentando 117 as “encruzilhadas” de rua…

Por que, oh! “zi-cerô”, é preciso que se diga: – esses quiumbas – espíritos viciados – não largam suas presas facilmente. Não querem perder a fonte de seus gozos, prazeres e sensações várias. Como entender isso diretamente? Vou dar-te um exemplo: – um indivíduo é viciado num entorpecente qualquer e um outro – aquele que fornece – é a fonte, em torno da qual ele gira constantemente, atrás de satisfazer o seu vício. No dia em que essa fonte não fornecer, ele se desespera e se tona capaz de tudo… até de matar. Isso está em relação com o caso dos aparelhos dominados por esses quiumbas… e com os que botam “despachos” nas encruzilhadas de rua.

“Zi-cerô”. Quem gosta mesmo de pipoca, farofa, dendê, fita preta e amarela, sangue, carnes diversas e outras coisas mais, não é propriamente o Exu guardião… Quem “come” ou quem faz tudo para se saciar nas encarnações desses “despachos” são os espíritos do “reino da quimbanda”. “Cicero” … quem “baixa” dando gargalhadas histéricas, grosseiras, fazendo contorções tremendas, jogando o aparelho de joelhos, com o tórax para trás, cheio de esgares e mãos tortas de forma espetacular, dizendo nomes feios e imorais, etc., não são os Exus de lei – os batizados, os cabeças de legião! São os velhacos Quiumbas, que, nessa altura, já envolveram o infeliz médium que, por certo, criou condições para que eles entrassem na sua faixa neuropsíquico mediúnica. Já estão “amarrados” nas garras deles… Como vai ser difícil a libertação…

Extraído do Livro “Lições de Umbanda e Quimbanda na Palavra de Um Preto-Velho” de W.W da Matta.

Paz Profunda

Neófito da Luz .’.

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Jogo Rápido: Doze Coisas Sobre Exús que não devemos esquecer

 

  1. Exú de Umbanda não aceita oferenda com sacrifícios de animais;
  2. Exú Pode trabalhar com água, isso não é problema algum;
  3. Exú não precisa trabalhar no escuro, exú não precisa trabalhar com roupas escuras;
  4. Exu usa preto por ser uma cor que absorve outras energias, também serve como repelente de más energias segundo as mais antigas crenças;
  5. Nem todo Exú se veste de preto, como já relatei no blog, muitos usam roupas de outras cores;
  6. Vibração Exú é um é um desprendimento divino, o guia exú, aquele que vem, fala, trabalha em nossa matéria é outro assunto, ambos estão intrinsecamente ligados, porém um é energia, vibração e outro é o espírito que atua nessa vibração;
  7. Exú exprime o que possuímos no nosso âmago, portanto, se policie, se vigie;
  8. Exú não tem necessidade de escrever sempre seu ponto riscado ou dar seu nome, mesmo assim, ainda pode dar seu nome errado;
  9. Nem todo Exú usa capa, cartola ou cajado, existem outras linhas de exús que podem se apresentar de formas animalescas, não no pior sentido, e sim por possuírem certos tipos de resgate a serem realizados;
  10. Exú possui o seu determinado campo de atuação, seja mata, pedreira, calunga pequena, calunga grande, almas, entre outros portais naturais do nosso Plano, nem todos aceitarão a oferenda no cemitério ou encruzilhada como muitos dizem;
  11. Exú, seja trabalhando na Quimbanda ou na Umbanda, independente de como é cultuado na sua casa, não é necessário que os mesmos virem de costas para o altar, pois ambos são trabalhadores da Lei Maior, seja atuando nas trevas ou não;
  12. Exú não é Escravo do Orixá e sim um trabalhador de sua Vibração Natural;

Exú Guardião, o Executor das Leis Cármicas

Muito diferentemente do que se doutrina a respeito da entidade espiritual conhecida como Exú Guardião ou simplesmente Exú, são os mesmos, seres dotados de inúmeras e seriíssimas tarefas em nosso mundo planetário. Portanto, Exú nunca foi, não é e nunca será o diabo, nem muito menos um ser espiritual das trevas. Entendendo-se trevas como sendo sinônimo de maldade e de atraso espiritual.

De fato, falar sobre o Exú Guardião não é tarefa simples, mas é certamente deveras gratificante. Não é simples, posto que os conceitos que consubstanciam a verdade sobre a entidade espiritual Exú muito longe se encontram da doutrina corriqueira e da difamação ignominiosa que se estende sobre esse ser espiritual. Quando falamos ser gratificante é porque na verdade estamos fazendo valer nada mais nada menos que a própria justiça divina ao colocar o verdadeiro Exú Guardião dentro dos seus verdadeiros princípios, fundamentos e atributos reais.
Vejamos então de maneira bastante simplificada um pouco sobre a verdadeira entidade espiritual conhecida como Exú Guardião ou simplesmente Exu:

Surgimento do Exú Guardião em nosso planeta:

Professa a sagrada Doutrina Astral de Umbanda que na casa do “Pai” existem de maneira sintética, duas grandes moradias, uma conhecida como reino virginal e a outra conhecida como reino natural que é o mundo da energia-massa ao qual está vinculado nosso planeta Terra.

Ensinam os mentores espirituais da Umbanda que, os seres espirituais que hoje se encontram no reino natural, viviam em processo evolutivo no reino virginal (o reino da anti-matéria). Em tal reino viviam integrados em processo evolutivo experimentando-se masculino e feminino, se assim podemos definir, como um ser uno. Porém, em determinado instante desta cadeia evolutiva, milhões de seres espirituais passaram então a sentir fortissima necessidade de experimentarem-se em suas individualidades.

 

Ante a impossibilidade de tal processo ocorrer no reino virginal e tendo em vista que esse desarranjo vibratório impossibilitava a permanência destes seres em tal local, a Misericórdia Divina entendeu por bem plasmar o que chamamos de reino natural (ou matéria) para então servir de local onde iria abrigar esses milhões de seres espirituais em seu novo processo evolutivo.

E assim, surgiu o que nós conhecemos como universo natural ou reino da matéria com seus planetas, suas galáxias, etc. Após a Divindade Suprema plasmar essa nova casa planetária nomeou seus emissários divinos, seres de indescritíveis sabedoria e luz, para que arquitetassem toda a construção deste novo reino e assim foi feito. Porém além de arquitetar todo esse novo reino espiritual, existia a necessidade de manipular essas energias para execução e concretização da vontade divina.

Daí veio a surgir a necessidade da presença de seres espirituais de grande poder e força energética. Esses seres originais executores dos arquitetos divinos é o que temos hoje como sendo conhecidos por Exús Cósmicos ou Indiferenciados. São cósmicos porque sua atividade singe-se a execução dos rearranjos estruturais das energias que deram forma ao reino natural.

São indiferenciados, posto que sempre viveram em nosso reino sem passarem pela divisão da matéria, vivendo assim na própria essência divina da qual são “constituídos”. Mas a tarefa era gigante, exigindo a força e a presença de considerável quantidade de seres espirituais para por em prática a realização da vontade divina que era a formação e estruturação do reino natural.

Esses Exús tidos como indiferenciados subordinaram-se diretamente aos seus comandantes , ou seja os Orixás Ancestrais. Estes últimos são os Sete Espíritos de Deus responsáveis diretamente pelo reino natural.

 

Ante a impossibilidade de tal processo ocorrer no reino virginal e tendo em vista que esse desarranjo vibratório impossibilitava a permanência destes seres em tal local, a Misericórdia Divina entendeu por bem plasmar o que chamamos de reino natural (ou matéria) para então servir de local onde iria abrigar esses milhões de seres espirituais em seu novo processo evolutivo.

E assim, surgiu o que nós conhecemos como universo natural ou reino da matéria com seus planetas, suas galáxias, etc. Após a Divindade Suprema plasmar essa nova casa planetária nomeou seus emissários divinos, seres de indescritíveis sabedoria e luz, para que arquitetassem toda a construção deste novo reino e assim foi feito. Porém além de arquitetar todo esse novo reino espiritual, existia a necessidade de manipular essas energias para execução e concretização da vontade divina.

Daí veio a surgir a necessidade da presença de seres espirituais de grande poder e força energética. Esses seres originais executores dos arquitetos divinos é o que temos hoje como sendo conhecidos por Exús Cósmicos ou Indiferenciados. São cósmicos porque sua atividade singe-se a execução dos rearranjos estruturais das energias que deram forma ao reino natural.

São indiferenciados, posto que sempre viveram em nosso reino sem passarem pela divisão da matéria, vivendo assim na própria essência divina da qual são “constituídos”. Mas a tarefa era gigante, exigindo a força e a presença de considerável quantidade de seres espirituais para por em prática a realização da vontade divina que era a formação e estruturação do reino natural.

Esses Exús tidos como indiferenciados subordinaram-se diretamente aos seus comandantes , ou seja os Orixás Ancestrais. Estes últimos são os Sete Espíritos de Deus responsáveis diretamente pelo reino natural.

 
 

Seres esses que são conhecidos como “rabo-de-encruza”. São seres que arrependidos das suas práticas foram arrebanhados pelos Exús Espadados. Estes últimos espíritos ainda têm uma personalidade frágil, sendo muitas vezes subornados por seus antigos chefes, os magos-negros do submundo astral. Quando isso ocorre e são pegos em flagrante, são levados para tratamentos mais profundos em hospitais que se encontram instalados em plena zona do submundo astral, aonde passarão longos anos desintoxicando-se, para só então retornarem às mesmas atividades aonde reiniciaram sua recuperação espiritual.

As atividades dos Exús no Templo:

O Exú Guardião é a entidade espiritual que nos Templos de Umbanda é encarregado da guarda vibratória e da proteção espiritual. Cuidam os Exús de efetuarem a defesa espiritual contra os ataques das hostes do submundo astral que a todo momento buscam invadirem os santuários da Umbanda com o objetivo de destruírem ou mesmo perturbarem as diversas atividades desempenhadas . Cuidam ainda, de atuarem nos inúmeros trabalhos de desmanche de magia-negra e feitiçarias que são levadas pelos consulentes que lá acorrem.

Para a defesa vibratória do Templo, os Exús manipulam uma variedade enorme de energias, assim como de entidades espirituais tidas como elementares, que são seres ainda em sua fase inicial de evolução em nosso Planeta, sendo constituídos de puras e poderosas energias. Juntamente com os elementares do fogo esses guardiões destroem as larvas, miasmas, bactérias astrais, etc., que são trazidas por seres espirituais encarnados e desencarnados aos templos para tratamentos diversos.

Os Exús Guardiões atuam em seus médiuns, na região conhecida como subconsciente. Local onde são armazenados o vivencial de vidas passadas e onde também se encontram nossas animalidades vividas nos reinos da natureza por onde estagiamos.

 

O fato é que, os distúrbios da personalidade, as fobias, taras e neuroses de maneira geral têm como causa-origem situações mal vividas em nosso ontem e que, em nosso hoje, manifestam-se de maneira contínua ou esporádica. Nos médiuns essa manifestação dá-se por intermédio de flashes esporádicos, tendo em conta que a grande maioria deles cumpre missão probatória de resgates de erros passados.

Ao agir nesta região o Exú Guardião vai expurgando todas as animalidades e traumas em verdadeiro processo de desintoxicação, visando proporcionar ao médium a evolução e a consciência de si mesmo.

Portanto, é de certa forma comum observar em templos de Umbanda, médiuns apresentarem posturas e expressões grosseiras. Na realidade o que estes médiuns estão expressando são seus graus conscienciais e seus traumas armazenados e nunca, exteriorizando a vibração do verdadeiro Exú.

A bem da verdade, é bom que se diga que às vezes, por ingenuidade, alguns médiuns acreditam que fazendo caretas e pantomimas irão fazer acreditar que o “seu” Exú é o mais forte e poderoso, provocando assim o respeito, o temor e a admiração. Pura ingenuidade.

Infelizmente, em alguns locais que dizem professar a Umbanda, esquecem que a mesma é Amor e Sabedoria. E assim, irresponsavelmente inveredam por caminhos escusos que longe estão de refletirem a luz da Umbanda. Nesta triste situação associam-se com seres da revolta, do ódio, da insubmissão e passam a serem usados e manipulados por esses seres. Assim, o que esses pobres médiuns expressam é o desequilíbrio do ser astralizado com o qual se associaram.

É dispensável dizer que esses médiuns só acarretaram para si e sua família, dores, humilhações de dissabores de ordem espiritual e mesmo material. Infelizmente, em vista do pouco esclarecimento espiritual existente, essas entidades se denominam como sendo os verdadeiros Exús, causando assim uma série de embaraços e confusões quanto a real personalidade do Exú Guardião.

 

Porém esses locais são facilmente reconhecidos e identificáveis; invariavelmente, neles existem o palavreado grosseiro e de baixo calão. Nesses locais imperam as promessas de trabalhos escusos (feitiçarias de todas as montas), indecorosos e luxuriantes, aonde as fofocas e picuinhas imperam e a verdade, o amor e o progresso espiritual inexistem. Deles devem todos buscar distância, pois esses lugares podem ser tudo na vida, mas certamente jamais serão uma casa de Umbanda.

Por fim, os Exús Guardiões, manipulam as energias etéricas no campo vibracional dos entrecruzamentos energéticos (encruzilhadas). Infelizmente, as encruzilhadas de ruas são confundidas por alguns como sendo a verdadeira encruzilhada dos Exús Guardiões. Na verdade, essas encruzilhadas de rua são portais vibracionais de acesso ao submundo astral. Por ai já se percebe o quanto é perigoso a manipulação de energias em tais locais.

A verdadeira encruzilhada dos Exús guardiões, são os entrecruzamentos vibratórios das linhas de força ou tatwas, que são as energias que vêem do plano astral e entrecruzam-se em nossa casa planetária. É nesse campo de força, de luta e de trabalho, que o Exú manipula o Axé (energia), concretizando todo processo de imantação e desagregação dessas forças em benefício do Planeta e de seus habitantes.


Shandar

Oferenda na Encruzilhada

Francisco era seu nome. Homem que conheceu desde muito jovem as dificuldades materiais da vida e acostumado a trabalhar desde o nascer do sol até a noite chegar, agora se aposentava. Saudável e com muita energia, não demonstrava seus cinqüenta e oito anos. Embora de família humilde, recebeu a melhor educação possível transmitida pelo exemplo de seus pais. A única herança que não quis herdar dos progenitores foi à fé. Incrédulo, não seguia nenhuma religião e até zombava delas.

A ociosidade que a aposentadoria trouxe para seu Francisco, o deixava ansioso. Agora que já havia reformado a casa, o galpão, plantado a horta, os dias demoravam muito a passar. Relembrando o dito popular que “cabeça vazia é oficina do mal”, em pouco tempo Francisco sentiu vontade de começar a divertir-se já que até então só havia pensado em trabalho. Morando próximo à cidade, ao entardecer resolveu visitar uma casa de diversões que existia por lá. Entre bebidas, mulheres e prazeres, perdeu a noção de tempo e retornava cambaleante já de madrugada, quando ao chegar numa encruzilhada avistou uma luz fraca no chão. Chegando próximo percebeu que ali tinha um “despacho”, como chamavam aquilo por lá. Uma bandeja grande onde repousava uma ave morta, velas, charutos e uma garrafa de cachaça, além de outros materiais.

Aliado a sua falta de crença em qualquer coisa, estava agora a bebedeira e todas as energias condizentes ao lugar de onde viera. Com desdém e desaforando com palavrões, juntou a garrafa de bebida e os charutos e chutou o resto do material. Até chegar em casa bebeu quase tudo e fumou alguns charutos.

No outro dia contava para a esposa sobre o “achado” e debochava com sarcasmo. A bondosa mulher, cuja mãe em vida era médium benzedeira, respeitava todas as manifestações ligadas ao mundo espiritual, conforme ensinamentos que havia recebido e por isso chamou a atenção do marido, dizendo-lhe que, se não acreditava deveria pelo menos respeitar. “Não presta mexer com trabalho de encruza”, repetia ela preocupada.

Outras noites a cena se repetiu da mesma forma, até o dia em que ao chutar a oferenda, enxergou na sua frente um homem de capa negra, com um chicote trançado na mão. Sua perna paralisou no ar e em pânico saiu pulando numa perna só, caindo e levantando. Por uma boa distância ainda, ouvia a gargalhada daquele homem ressoando no ar.

No outro dia, sentia dor nas costas como se houvesse apanhado e só de lembrar a cena vivida na noite anterior, arrepiava de medo. Temia contar para a esposa, pois sabia que o condenaria novamente pela atitude. Esta, vendo o marido cabisbaixo e triste, perguntou se estava adoentado. Nada respondeu, pois sentia-se como se estivesse, inclusive apresentando febre. Seus sonhos passaram a ser povoados pelo homem de negro e sua gargalhada. Acordava aos gritos e suando muito. Várias noites se repetiram desta maneira, até que resolveu contar para a esposa o que havia acontecido. Ela o aconselhou a tomar umas benzeduras, convidando para ir até um terreiro na vila vizinha. Meio renitente, mas sentindo a necessidade, ele aceitou com um misto de medo e curiosidade.

Após a abertura dos trabalhos com os pontos cantados e orações, ele já se sentia mais tranqüilo. Em frente ao médium que servia de aparelho ao um Caboclo, suas pernas tremiam que mal conseguia parar em pé. Nos ouvidos agora ressoava novamente a gargalhada do homem de negro e seu corpo arrepiava sem parar. Teve vontade de sair correndo daquele lugar, mas suas pernas não o ajudavam. Auxiliado pela esposa e pelo cambono, sentou-se numa cadeira para poder ser atendido pelo caboclo.

-Ogum é que está de ronda…Ogum é que vem rondar… -cantava a corrente, enquanto a entidade limpava com uma espada de São Jorge, o seu corpo etérico impregnado pela energia captada na encruzilhada. Depois com a firmeza característica de sua linha, o caboclo ordenou que ele ficasse de pé e lhe contasse porque estava ali. Desajeitado, mas já mais tranqüilo, falou:

_ Acho que mexi com o que não devia. Andei chutando uns “despachos” na encruzilhada e me apavorei com um homem estranho, que acredito não ser deste mundo…

_ Tranqüilize que tudo o que é possível ver, ouvir e sentir é deste mundo sim. O senhor acha certo ou errado a sua atitude?

_ Ah, eu não sei…Só fazia aquilo por brincadeira…

_ E se alguém fosse até a sua casa, chegasse lá chutando os móveis e quebrando tudo, se apoderando de sua comida na hora da refeição, iria gostar?

_ Lógico que não!

_ Pois é meu senhor. Foi o que fez lá na encruzilhada e por várias vezes, não foi?

_ É, foi.

_ O que não nos pertence não pode ser por nós seqüestrado. Não importa se o que estava lá é certo ou errado diante de seu entendimento. Além do físico, aquilo tudo tinha uma duplicata etérica que pertencia a alguém no mundo espiritual, com um objetivo e endereço vibratório certo. Cabe aos homens incrédulos, no mínimo respeitar a crença e atitudes dos outros. Lá estava um trabalho de magia – a cor dela não importa – era magia! Elementos e elementares, além de entidades espirituais, lá estavam atuando, se abastecendo da energia animal e etílica e foram incomodados, desrespeitados. O que o senhor presenciou na figura do homem, nada mais foi que a atuação enérgica de seu Exu guardião lhe colocando no devido lugar, antes que a Lei tivesse que atuar mais duramente. De difícil entendimento com as coisas do espírito, não crendo em nada que não seja palpável, se fez necessário a atuação materializada. Como criança teimosa, precisou da repreensão para só então respeitar. Isso não significa que encruzilhada é lugar de Exu, pelo contrário. Os espíritos que lá buscam se energizar com as oferendas são os chamados quiumbas, espíritos que embora fora do corpo físico, necessitam ainda de energias materiais.

– Exu… cruzes! Isso é coisa do capeta!

Era momento de esclarecer a verdadeira identidade deste guardião da luz tão mal falado. E assim foi feito.

Ao voltar para casa sentia tamanho bem estar, que naquela noite dormiu tranqüilamente depois de muitas noites de sobressalto, quando não, de insônia.

Suas visitas ao terreiro de Umbanda tornavam-se assíduas onde buscava sabedoria, força espiritual e conforto para sua alma. Ele tinha uma missão que se estendia além de aprender a ter fé. Era preciso cumpri-la, por isso em pouco tempo manifestava-se através dele, seu protetor Ogum de Ronda abrindo caminho para o Exu, que chegava gargalhando e de chicote na mão. Artefatos que usava no astral para auxiliar, acordando a todos quantos estivessem esbarrando nos limites da Lei.

Ao sentir sua presença, Francisco agradecia. Ele foi privilegiado em conhecer estes artefatos, graças a Deus.

História Contada por Vovó Benta – Leni W. Saviscki

Oferenda de Encruzilhada

Francisco era seu nome. Homem que conheceu desde muito jovem as dificuldades materiais da vida, e acostumado a trabalhar desde o nascer do sol até a noite chegar, agora se aposentava. Saudável e com muita energia, não demonstrava seus cinqüenta e oito anos. Embora de família humilde, recebeu a melhor educação possível transmitida pelo exemplo de seus pais. A única herança que não quis herdar dos progenitores foi à fé. Incrédulo, não seguia nenhuma religião e até zombava delas.

A ociosidade que a aposentadoria trouxe para seu Francisco, o deixava ansioso. Agora que já havia reformado a casa, o galpão, plantado a horta, os dias demoravam muito a passar. Relembrando o dito popular que “cabeça vazia é oficina do mal”, em pouco tempo Francisco sentiu vontade de começar a divertir-se já que até então só havia pensado em trabalho. Morando próximo à cidade, ao entardecer resolveu visitar uma casa de diversões que existia por lá. Entre bebidas, mulheres e prazeres, perdeu a noção de tempo e retornava cambaleante já de madrugada, quando ao chegar numa encruzilhada avistou uma luz fraca no chão. Chegando próximo percebeu que ali tinha um “despacho”, como chamavam aquilo por lá. Uma bandeja grande onde repousava uma ave morta, velas, charutos e uma garrafa de cachaça, além de outros materiais.

Aliado a sua falta de crença em qualquer coisa, estava agora a bebedeira e todas as energias condizentes ao lugar de onde viera. Com desdém e desaforando com palavrões, juntou a garrafa de bebida e os charutos e chutou o resto do material. Até chegar em casa bebeu quase tudo e fumou alguns charutos.

No outro dia contava para a esposa sobre o “achado” e debochava com sarcasmo. A bondosa mulher, cuja mãe em vida era médium benzedeira, respeitava todas as manifestações ligadas ao mundo espiritual, conforme ensinamentos que havia recebido e por isso chamou a atenção do marido, dizendo-lhe que, se não acreditava deveria pelo menos respeitar. “Não presta mexer com trabalho de encruza”, repetia ela preocupada.

Outras noites a cena se repetiu da mesma forma, até o dia em que ao chutar a oferenda, enxergou na sua frente um homem de capa negra, com um chicote trançado na mão. Sua perna paralisou no ar e em pânico saiu pulando numa perna só, caindo e levantando. Por uma boa distância ainda, ouvia a gargalhada daquele homem ressoando no ar.

No outro dia, sentia dor nas costas como se houvesse apanhado e só de lembrar a cena vivida na noite anterior, arrepiava de medo. Temia contar para a esposa, pois sabia que o condenaria novamente pela atitude. Esta, vendo o marido cabisbaixo e triste, perguntou se estava adoentado. Nada respondeu, pois sentia-se como se estivesse, inclusive apresentando febre. Seus sonhos passaram a ser povoados pelo homem de negro e sua gargalhada. Acordava aos gritos e suando muito. Várias noites se repetiram desta maneira, até que resolveu contar para a esposa o que havia acontecido. Ela o aconselhou a tomar umas benzeduras, convidando para ir até um terreiro na vila vizinha. Meio renitente, mas sentindo a necessidade, ele aceitou com um misto de medo e curiosidade.

Após a abertura dos trabalhos com os pontos cantados e orações, ele já se sentia mais tranqüilo. Em frente ao médium que servia de aparelho ao um Caboclo, suas pernas tremiam que mal conseguia parar em pé. Nos ouvidos agora ressoava novamente a gargalhada do homem de negro e seu corpo arrepiava sem parar. Teve vontade de sair correndo daquele lugar, mas suas pernas não o ajudavam. Auxiliado pela esposa e pelo cambono, sentou-se numa cadeira para poder ser atendido pelo caboclo.

-Ogum é que está de ronda…Ogum é que vem rondar… -cantava a corrente, enquanto a entidade limpava com uma espada de São Jorge, o seu corpo etérico impregnado pela energia captada na encruzilhada. Depois com a firmeza característica de sua linha, o caboclo ordenou que ele ficasse de pé e lhe contasse porque estava ali. Desajeitado, mas já mais tranqüilo, falou:

_ Acho que mexi com o que não devia. Andei chutando uns “despachos” na encruzilhada e me apavorei com um homem estranho, que acredito não ser deste mundo…

_ Tranqüilize que tudo o que é possível ver, ouvir e sentir é deste mundo sim. O senhor acha certo ou errado a sua atitude?

_ Ah, eu não sei… Só fazia aquilo por brincadeira…

_ E se alguém fosse até a sua casa, chegasse lá chutando os móveis e quebrando tudo, se apoderando de sua comida na hora da refeição, iria gostar?

_ Lógico que não!

_ Pois é meu senhor. Foi o que fez lá na encruzilhada e por várias vezes, não foi?

_ É, foi.

_ O que não nos pertence não pode ser por nós seqüestrado. Não importa se o que estava lá é certo ou errado diante de seu entendimento. Além do físico, aquilo tudo tinha uma duplicata etérica que pertencia a alguém no mundo espiritual, com um objetivo e endereço vibratório certo. Cabe aos homens incrédulos, no mínimo respeitar a crença e atitudes dos outros. Lá estava um trabalho de magia – a cor dela não importa – era magia! Elementos e elementares, além de entidades espirituais, lá estavam atuando, se abastecendo da energia animal e etílica e foram incomodados, desrespeitados. O que o senhor presenciou na figura do homem, nada mais foi que a atuação enérgica de seu Exu guardião lhe colocando no devido lugar, antes que a Lei tivesse que atuar mais duramente. De difícil entendimento com as coisas do espírito, não crendo em nada que não seja palpável, se fez necessário a atuação materializada. Como criança teimosa, precisou da repreensão para só então respeitar. Isso não significa que encruzilhada é lugar de Exu, pelo contrário. Os espíritos que lá buscam se energizar com as oferendas são os chamados quiumbas, espíritos que embora fora do corpo físico, necessitam ainda de energias materiais.

 – Exu… cruzes! Isso é coisa do capeta!

Era momento de esclarecer a verdadeira identidade deste guardião da luz tão mal falado. E assim foi feito.

Ao voltar para casa sentia tamanho bem estar, que naquela noite dormiu tranqüilamente depois de muitas noites de sobressalto, quando não, de insônia.

Suas visitas ao terreiro de Umbanda tornavam-se assíduas onde buscava sabedoria, força espiritual e conforto para sua alma. Ele tinha uma missão que se estendia além de aprender a ter fé. Era preciso cumpri-la, por isso em pouco tempo manifestava-se através dele, seu protetor Ogum de Ronda abrindo caminho para o Exu, que chegava gargalhando e de chicote na mão. Artefatos que usava no astral para auxiliar, acordando a todos quantos estivessem esbarrando nos limites da Lei.

Ao sentir sua presença, Francisco agradecia. Ele foi privilegiado em conhecer estes artefatos, graças a Deus.

História Contada por Vovó Benta – Leni W. Saviscki

Exu de Lei nas Palavras de Seu Pedra Negra

 



Abaixo, deixo um trecho do livro “Histórias do Povo de Umbanda”, psicografada por Edson Gomes. O trecho narrado é contado pelo Exu Serra Negra. Nele, Natan (Serra Negra), começa a aprender o que é ser um Exu de Lei. É instruído pelo Exu Pedra Negra. O diálogo acontece após uma série de acontecimentos onde, Natan, ainda não esclarecido, estava atuando como um kiumba:(Pág.134 e 135; Grifos nossos)

“_ Peste! _ Pedra Negra ergueu a voz _ Tu fez muita coisa ruim, e tá tendo chance de pagar e consertar. Eu já fiz muita coisa ruim, já paguei, já aprendi. Ele não é diferente. Tu não aprendeu nada com o sofrimento de ficar perdido? Tu não entendeu que só colheu aquilo que plantou até aqui? Se tu ainda não aprendeu nada disso ainda tem muito mais pela frente do que imagina.

_ Você também já foi assim?_ olhei para o meu próprio corpo deformado, enquanto perguntava.

_ Não! Eu aceitei logo de princípio. Nota: (aqui Exu Pedra Negra faz referência a aceitar auxílio após o desencarne, coisa que Natan não aceitou).     

_ Então você é um espírito elevado! _ afirmei.

_ Não. Eu aceitei, mas isso não pagou o que eu fiz em Terra, não devolveu as vidas que eu tirei.

Olhei com raiva para ele.

_ Não, peste. Não sou melhor que tu por ter aceito primeiro. Já disse, isso não justifica o que fiz. É por isso que hoje aprendo a compensar o que eu fiz “trabalhando” para a elevação espiritual dos outros, como você. Essa é minha função. Eu guardo uma parte do umbral, não permitido que os mais baixos, os menos esclarecidos e os sem luz interfiram na vida dos justos e merecedores. Eu, peste, sou um guardião.Antes das Trevas invadirem a Luz, precisam passar por uma divisão, uma divisão com a mesma força das Trevas, mas que trabalha em nome da Luz. Eu faço parte dessa divisão. Zelo pelo material e por sua proteção. Isso é o que me distingue em Exu-de-Lei de um quiumba. É isso que me faz ser mais forte que você, e é assim que eu cresço rumo à luz. Fica fácil aprender, depois que tu aceita.

_ Você não dá tombo?

_ Não, já disse! Não trabalho pro que é baixo. Se eu fizer alguma coisa, vai ser pra ensinar, não pra derrubar. Não sou quiumba.

_ Você é bem pago?

_ Sou.

_ O que lhe entregam?

Nada. O que eu preciso, o que tu precisa, não tem entrega que possa pagar: vem apenas pelo trabalho.  

_Então, tu não é bem pago! _ grunhi.

_Não quero ficar no buraco de onde acabei de te buscar. O que te ofereceram te tirou dele?

Fiquei calado. Senti-me pequeno, inútil.

Olhei para cima e vi planos espirituais, imitações de lugares na terra passando.

Nós já havíamos atravessado a camada mais baixa, onde apenas trevas e sombras se moviam, um lugar que chamam de “umbral”.

Entramos em uma penumbra, um lugar de caridade controlada, onde o ar sóbrio e calmo se espalhava. Ele me apontou um prédio alto, em estilo quase gótico, com altas torres e luzes enevoadas.

_Chegamos! Aqui você vai ficar para aprender, para se doutrinar e evoluir. Lá dentro é mais iluminado.

Fiquei olhando as janelas…seu padrão me recordava o Cabaret.

As sombras se alongando até se derreterem na parede oposta…, as velhas sombras das janelas do Cabaret. Assemelhava-se à familiaridade do Cabaret…” 

PS: Esse excelente livro conta a história de três espíritos, integrados as falanges de Veludo, Serra Negra e Maria Padilha. Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre Exu dentro da Lei de Umbanda, é um excelente livro. Acho interessante a maneira simples como Exu Pedra Negra explica o que é ser um Exu de Lei no trecho acima. Esse trecho retrata muito bem também, como os espíritos ligados a egrégora de Umbanda esclarecem os menos favorecidos, sem doutrina pesada, dogmas ou citações religiosas. Além da ênfase que se dá para o trabalho reconstrutor, ao invés do sofrimento descabido (muito naturais das doutrinas extremamente cristãs).

Fica a recomendação dos outros dois livros psicografados pelo autor: Mandinga e Rosário Pelourinho. Edson Gomes deveria ser mais conhecido no meio umbandista, seus livros são bem bacanas. A ele, e aos seus mentores espirituais, nossa homenagem…