A Necessidade das Imagens e Paramentos na Umbanda

Nota da imagem: Imagine ter agilidade, força e destreza para lutar com um trombolho desse acima? E historiadores confirmam que a luta não era tão cinematográfica como nos filmes, assim como o excesso da paramentação atrapalhava as lutas, a mesma atrapalha o andamento dos trabalhos direcionando a atenção para outra direção divergente da Caridade e Humildade.

Saudações irmãos, aqui estou eu novamente, essa semana foi praticamente um COMBO de artigos… Fico um tempo entocado e quando saio, aí é um artigo atrás do outro.

O tema dessa vez é em relação aos diversos artigos que utilizamos durante os trabalhos, sejam chapéus, roupas, cachimbos, panos, fitas, imagens no altar entre outros.

Para isso, como tudo na vida, é importante ressaltar o caminho do meio, sabemos que o bom senso é extremamente relativo, porém, importante ressaltar alguns fatos que serão explanados no decorrer do texto.

Muitos centros utilizam cocares para os caboclos, capas, cartolas, espadas e afins, o que até então não vejo nenhum problema na utilização, isso ajuda na materialização de energia do guia, o seu orixá, o seu guia sabe o que é necessário para que você possa trabalhar de maneira correta, eu a priori, não suporto cocares para os caboclos, acho que vira um circo, porém, para alguns médiuns e até mesmo assistentes, é um importante caracterizador para dar mais credibilidade à consulta e consequentemente à incorporação.

Esses artefatos possuem mais valor visual a energético, sim, muitos exús envolvem seus filhos ou consulentes em suas capas, obviamente existe uma energia embutida ali, isso não me resta nenhuma dúvida, porém, é muito mais uma forma de dar credibilidade ao trabalho do que uma necessidade vibratória propriamente dita, o mesmo acontece com os chapéus, ajuda muito para o médium se concentrar, inclusive quando o guia coloca o chapéu na cabeça de outrem, isso ajuda com que aquele que está recebendo o chapéu em sua cabeça, tenha mais credibilidade no trabalho, o chapéu também serve para materializar determinada energia que o guia o utiliza ali, empregada na utilização para diversos fins, até aí sabemos que é muito útil e bem vindo, também é sabido que esses paramentos servem para auxiliar aquele que recorre a entender que tipo de guia ele está conversando, seja um baiano, seja um boiadeiro, seja um marinheiro, é uma caracterização que ajuda a identificar o arquétipo daquele espírito, e obviamente, o espírito que ali solicita tais paramentos, pede pela afinidade de experiências de vidas passadas, então com isso, une-se o útil ao agradável.

O guia espiritual usa aquilo que mais se adequa à forma de trabalho dele, ao arquétipo que ele traz, auxilia o próprio médium que o serve, identificando-o, sabendo mais sobre ele, vestindo melhor a “roupa” daquele espírito que está influenciando-o e tudo isso, ajuda o consulente a identificar, a dar maior credibilidade, possuir maior afinidade com aquela linha, com aqueles trejeitos, com aquela forma de trabalho e com isso, temos um objetivo único, o direcionamento de energia como um todo, a potencialização da fé, da verdade daquele guia. Além de ser um importante direcionador de fé, de credibilidade, isso faz com que os mentores de outro plano comportem-se como nós mesmos, afastando a distância sísmica que possuem de nosso plano, pelo contrário, se tornam amigos terrenos, justamente pela utilização da linguagem, dos trejeitos, da intimidade e isso tudo ajuda de forma mútua a todos dentro do terreiro.

Nesse mesmo preâmbulo, existem as imagens, que faz com o que o consulente sente-se mais acolhido, a imagem de Jesus no altar, causa um peso estrondoso, muitos incrédulos de Umbanda ou pessoas que não simpatizam-se, ao ver a imagem de Cristo no altar, a grande maioria delas muda de imediato a concepção da Umbanda e dos rituais no terreiro, o mesmo acontece quando um católico vê aquelas imagens de santos dos quais já estão totalmente familiarizadas. Os olhos tem um fator extremamente poderoso sobre os rituais, infelizmente, ainda confiamos demais nos olhos da carne, porém, como sendo o único sentido que definimos a nossa realidade, a utilização desses elementos tornam-se primordiais.

O meu mentor chefe, deixou claro que não é que usarei do sincretismo nos meus rituais, mesmo porque em minha linha isso não vai existir, porém, a necessidade de algumas imagens no terreiro é imperativa, justamente pelo fator do acolhimento a todos aqueles que buscam a graça, porém desconhecem a liturgia umbandista e seu principal objetivo, que é acolher a todos, independentemente de quaisquer características e trazendo-os a cura de suas mazelas, sejam físicas ou espirituais.

Até aí, eu acho tudo válido, muito bonito e interessante, nossa dependência exacerbada do sentido visual faz com que eles nos adaptem às nossas realidades e vale salientar: O GUIA OU O ORIXÁ NÃO NECESSITA DE TAIS PARAMENTOS PARA TRABALHO, SÃO APENAS FORMAS DE MATERIALIZAR AOS NOSSO OLHOS A ENERGIA NECESSÁRIA PARA UM DETERMINADO FIM.

Agora é onde começa a entrar o EXAGERO…

Guias rebeldes que não descem em terra se não tiver a sua capa, guias que tem que se vestir da cabeça aos pés, principalmente gira de ciganos ou pomba-giras que é um show de luxo, uma religião que faz questão de pregar a humildade, ciganos exigindo em suas camisas SEDA e CETIM para que fiquem vistosos em suas festas. Aí eu me pergunto: Que maldição, a humildade e a vaidade conseguem conviver juntas? Vejo pomba-giras com vestidos caríssimos exaltando a NECESSIDADE de ter a sua roupa para a festa, podem me fuzilar, mas me desculpe, ou é você que quer se aparecer ou você está com um tremendo de um EGUN OSTENTAÇÃO.

NÃO EXISTE GUIA OU ORIXÁ EXIGIR UMA ROUPA DE 2000,00, eles vem aqui pra TRABALHAR e não pra PASSEAR, eles tem como principal objetivo a prática do bem e da caridade, a lição de humildade, de altruísmo, de sabedoria, QUAIQUER FATOS QUE DIVERGEM DISSO NÃO É UM GUIA DE LUZ, É UM EGUN OU O SEU EGO EXACERBADO.

Em uma festa de pomba-gira, uma maldita festa, inclusive, onde chamam as mulheres de putas e sem vergonhas, foi meia-hora para as “raparigas” se arrumarem e falarem uma “merda atrás da outra”, sim, o papo era somente de putaria, macho de membro cumprido,     que posição mulher gosta, pelo amor de Deus né minha gente? É legal ter espíritos de outro plano como amigos e talz, poder falar tudo o que temos vontade, mas “PERA LÁ”.

E irmão Ronald, antes que você fale que virou desabafo, virou mesmo, qualquer problema, a gente discute pelo Skype (rsrsrsrs).

Então, acho que tudo na vida deve ser medido e refletido, o que eu acho interessante são centros que permitem as pomba-giras vestirem-se como verdadeiras meretrizes mas coíbem o uso de brilho labial para as mulheres! Não faz o menor sentido.

Tudo é bom senso, minha gente, eu particularmente, EU, Neófito, acho uma banalidade roupas para guias, acho que isso é muito mais o estímulo da vaidade à seriedade de trabalho, ciganos esnobes ostentando uma roupa da qual o cidadão já está morto, não basta estar morto e ter a oportunidade de vir prestar a caridade, tem que continuar ostentando e diminuindo os irmãos vivos? Que raios de Umbanda é essa? Exús que só bebem Blue Label que vivem na riqueza no outro plano e querem continuar dessa mesma forma? Um dia vi o Rei das 7 Encruzilhadas que é o mesmo exú que eu sirvo, o chefe da minha linha, ostentando em trono no centro, cartola de cetim, corrente enorme de ouro e tomando Blue Label, na consulta, o mesmo me diz que é milionário no inferno e quer manter o mesmo hábito aqui na Terra, então porque não reencarna como conde? Rs

Então senhores, tudo é bom senso, acho muito saudável o seu guia usar uma espada, usar seus paramentos, acessórios de fácil colocação para não atrapalhar o andamento dos trabalhos, isso por incrível que muitos neguem, é útil a muitas pessoas que ainda vivem o complexo de São Tomé (Só acredito vendo) porém acho que aí é o limite, agora ir fantasiar o guia todo, encher de batom, lápis, pentear o cabelo, se perfumar, só por Deus. Existe uma página do Facebook que eu me divirto chamado “Pérolas da Macumba”, acompanhem, é risada na certa!

Fechar uma balada para os exús se pegarem? Podem procurar nessa página.

E antes que receba e-mails, que vem aos montes, que eu não respeito muitos rituais, digo-lhes com veemência, respeito a Umbanda, qualquer coisa que foge da Lei da Caridade e Humildade não é Umbanda, então eu bagunço mesmo! Rs.

E por fim, os paramentos servem para caracterização, para familiarização e por ultimo, como principal objeto de trabalho do guia espiritual, já vi exús darem um show em trabalhos somente com a cuia d´agua, não precisa de whisky do mais caro, baiano só pedindo Malibu pra beber, na época deles nem existia isso, vale pensar, o principal foco é que aqueles que cheguem até vocês ouvindo uma palavra, veja em vocês e nos seus guias espirituais, igualdade, fraternidade, mostrar que estão no mesmo patamar “social”, não uma pessoa humilde desempregada se deparar com um cigano que só bebe vinho do Porto, que palavra de humildade esse cigano vai proferir? Como vai atingir aquele humilde sendo que ele mesmo se mostra superior? Fica a reflexão.

Roupas caras, ostentação é para médiuns fracos que não confiam em si próprios, não possuem a firmeza necessária para dar uma boa comunicação, para impressionar aquele adepto que se prostra à sua frente e necessita de fantasias, dessa exacerbada caracterização para impressionar os nossos olhos, e eu digo com certeza, mesmo nossos olhos sendo o cartão de visita, nada mais impressionante que uma consulta de um guia espiritual que atinge seu coração, que fala algo que realmente acontece, que toca sua alma retirando do fundo dela, suas trevas e demônios.

Como diz meu amigo Chico Preto: “Os olhos da carne traem”.

E como dizia um grande filósofo Antoine de Saint-Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos”

Neófito da Luz .’.

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Golpe da Amarração, Doença Espiritual e Comércio nos Terreiros

Saudações irmãos…

Hoje me deparei com uma notícia que passou no “Fala Brasil” que não me cansa de surpreender. Uma mulher roubou R$ 100.000,00 de uma empresa para pagar o serviço ao “pai-de-santo” para curar a sua filha…

Infelizmente isso ainda é muito comum, muitas pessoas por desespero encontram nesses espaços, nessas pessoas a solução para todos seus problemas, alguns pensam em se suicidar, outros pensam em se escorar nesses oportunistas que se aproveitam da vulnerabilidade alheia.

Gostaria de enfatizar aqui que eu sou EXTREMAMENTE CONTRA QUAISQUER COBRANÇAS REALIZADAS PARA QUAISQUER BENEFÍCIOS DENTRO DE TERREIROS, INCLUSIVE, CHEGOU AO MEU CONHECIMENTO CENTROS QUE OBRIGAM MEDIUNS A FAZER O CURSO DE INICIAÇÃO MEDIÚNICA E COBRAM POR ISSO, ISSO NÃO É CASA DE CARIDADE E SIM VIVER DA UMBANDA.

A iniciativa desse blog começou apenas para transmissão de informações, com o decorrer do tempo, algumas pessoas chegaram até mim solicitando ajuda, cuidados, cura e outras buscas e com cinco anos de blog, nunca realizei nenhuma cobrança, mesmo porque eu não preciso viver disso e nem tampouco cobrar para ver a felicidade das pessoas, isso deveria ser a maior recompensa para aqueles que buscam a senda da caridade e não para aqueles que encontraram nela o seu meio de vida. Não mentirei, gosto de dinheiro, gosto de viver no luxo, ter carro do ano sim, mas isso é em virtude do meu esforço, muito estudo e dedicação, conheço dirigentes que vivem da Umbanda, PORÉM, são excelentes dirigentes, estão sempre presentes, sempre buscando meios para obtenção de prosperidade e saúde dos filhos, se doa, e nada mais justo de arrumar uma forma de cobrar para sua sobrevivência, mas não é COBRAR A MÃO e sim CURSOS, REALIZAÇÃO DE BAZARES, entre outros, infelizmente, esse tipo de dirigente compõe no máximo 1% de todos eles, existem os oportunistas que se encontram através de uma doutrina “pop” que usam de diversos cursos e desculpas para obtenção de renda, hoje não se faz caridade, hoje se faz uma troca, eu te ajudo por algumas centenas de reais e assim caminhamos na senda espiritual capitalista.

Claro que existem algumas categorias de dirigentes, e a do título do post pra mim é a mais repugnante, eu mesmo já relatei no blog algumas situações, um dirigente mandou a adepta vender o carro porque o trabalho era pesado, precisava retirar seres infernais de seu corpo que só saíam com carnes e bebidas nobres, e para isso, cobravam caro para abandonar seu corpo, outro fator é um dirigente falar que só poderia fazer a limpeza nas filhas se a mesmas ficassem despidas porque até as roupas continham energias deletérias e atrapalhava a limpeza, pois a energia da roupa traria de volta a energia ruim que foi acabada de limpar, outro fato foi um Exú que disse que o filho de uma umbandista estava encomendado pelas hostes espirituais, e precisaria fazer um trabalho muito sério e teria que falar com o seu “burro”, o médium que ele ocupava, o mesmo cobrou R$ 45000 ou o carro para fazer esse trabalho e a filha o fez + parte do salário dela DURANTE SEIS MESES.

A grosso modo, de forma bem ignóbil, prevalece a máxima que para cada esperto, existem “vários trouxas”, e para não nos tornarmos vítimas dessas questões, dessas circunstâncias, só temos como arma, o estudo, o esclarecimento e a busca por referências, somente assim nos blindamos contra esses tipos de influências em nossas visas.

Hoje o roubo já ficou tradicional, isso é muito comum em centros que gostam de ostentar, um Orixá pedir um ibá de R$ 4000,00 porque ele precisa, o dirigente cobrar a mão para fazer o santo, EU REALMENTE FICO ATÔNITO COM ESSA DE “FAZER O SANTO”, será que isso é realmente necessário? Tudo o que recebemos, recebemos da Providência Divina e não é necessária intervenção humana para tal. Pessoas fazendo rateio para ajudar o filho a comprar a roupa pra sair, me desculpem a sinceridade, mas VÁ COMPRAR CESTA BÁSICA PARA PESSOAS QUE PRECISAM AO INVÉS DE FICAR COMPRANDO ROUPAS PARA SATISFAZER EGOS IDIOTAS E COLABORAR COM A APOTEOSE EXISTENTES NA CASA, VÁ AJUDAR CRIANÇAS, IDOSOS AO INVÉS DE INFLAR ESSE MALDITO EGO DE QUERER TER A MELHOR ROUPA PARA O ORIXÁ VIR E DANÇAR. ORIXÁ NÃO PRECISA DE ROUPA, ORIXA NÃO PRECISA DISSO, ORIXÁ PRECISA TER UM FILHO CORRETO E INTELIGENTE PARA SERVIR AOS FILHOS DE FÉ.

Semana passada me deparei com uma pessoa que gastou R$ 3500,00 no Ibá de seu Orixa, ibá seria a louça do orixá, ela estava desempregada e precisou pedir empréstimo porque é uma exigência do dirigente, o que me remeteu a uma circunstância que ocorreu na casa onde eu cuidava que o Exú só trabalharia se tivesse a capa dele.

Digo que a cobrança dentro dos terreiros me enoja, a caridade atingiu um patamar medíocre, hoje tudo é com dinheiro, e sinceramente, isso tende a piorar ainda mais, se virar moda o filho ter que pagar pelo curso de iniciação mediúnica pra vestir branco, será o apogeu da ignorância.

Fico feliz de ainda ter centros que sabem trabalhar dentro da cartilha, conheço diversos dirigentes do qual a grande minoria tem o meu respeito, que ainda trabalham na Lei, que ainda embasam seus estudos e trabalhos no conhecimento fornecido pelos guias e até mesmo pelo ifá.

Quem quiser ajudar para as mazelas do filho, que ajude de coração, pela missão que lhe foi confiada e destinada e não use isso como moeda de troca, a única moeda de troca que vale é a evolução, o aprendizado e a graça que alcançará e não com a cobrança.

Volto a ressaltar, sou totalmente a favor de cursos ministrados pela casa, mas esses cursos devem ser voluntários, quem tem interesse e condições de fazer que o façam e não obrigatórios, isso é lamentável, pior ainda é o número de filhos que preenchem essas casas, fico impressionado com o número de mendigos espirituais que cercam essas casas, além de como são exaltados e VENERADOS esses dirigentes.

Dirigente nada mais é que um ser humano como você, que teve a missão de ser dirigente, isso não o coloca acima, superior ou melhor que você, apenas em uma posição diferente e que muitas vezes é MUITO MAL REALIZADA, o que muitas vezes me faz respeitar um médium da casa e não o seu dirigente, quantas vezes já presenciei o dirigente da casa COM NADA EM SUA MATÉRIA e dois ou três filhos com uma comunicação BEM REALIZADA? Isso pra mim é o que conta, não títulos, posição ou um cara sentado na cadeira porque ele conseguiu o seu espaço na casa da caridade, muitas vezes não por mérito e sim por condições financeiras, o que mais vale pra mim é aquele filho firme, que comunica bem com o seus mentores e que faz o trabalho da caridade ser o que sempre foi, venerável, admirável, gratificante.

E não alimentem golpistas, não alimentei essa cobrança exacerbada pelo trabalho da caridade, e DIGO-LHES COM TODA CERTEZA, O PRINCÍPIO ATIVO DE QUALQUER GRAÇA ALCANÇADA PARTE DE SUA PRÓPRIA CABEÇA E REALIZAÇÃO PESSOAL, TODA GRAÇA, TODA REALIZAÇÃO, TODO MILAGRE OCORRE DE DENTRO PARA FORA E NÃO DE FORA PARA DENTRO! SEMPRE!

Fraternais Abraços.

Neófito da Luz.

Discurso Filosófico de Allan Kardec sobre Espiritismo, Práticas e Objetivos.

Senhores e prezados irmãos espíritas,

Livro "Viagem Espírita"

Livro do qual foi extraído o discurso.
Não sois escolares em Espiritismo. Hoje colocarei, pois, de lado, questões práticas sobre as quais, devo reconhecer, estais suficientemente esclarecidos, para enfocar o problema sob uma perspectiva mais larga e, acima de tudo, em suas consequências. Este lado do assunto é grave, o mais grave incontestavelmente, pois que revela o objetivo para o qual tende a doutrina espírita e os meios para atingi-lo. Serei um pouco longo, talvez, pois o assunto é vasto, e, todavia, restaria ainda muito a dizer para completá-lo. Assim, solicitarei vossa indulgência considerando que, podendo permanecer um tempo muito restrito entre vós, sou forçado a dizer, de uma só vez, o que em outras circunstâncias poderia ser dividido em muitas partes.
Antes de abordar o ângulo principal do assunto, creio dever examiná-lo de um ponto de vista que me é, de certa forma, pessoal. Se se tratasse tão somente de uma questão individual, seguramente outra seria a minha atitude. Entretanto ela se prende a vários assuntos de caráter geral e disso pode resultar um esclarecimento de utilidade para toda gente. Esse foi o motivo que me levou a optar por tal iniciativa, aproveitando, assim, a ocasião para explicar a causa de certos antagonismos com que deparamos, não sem algum espanto, em nosso caminho.
No estado atual das coisas aqui na Terra, qual é o homem que não tem inimigos? Para não tê-los fora preciso não habitar aqui, pois esta é uma consequência da inferioridade relativa de nosso globo e de sua destinação como mundo de expiação. Bastaria, para não nos enquadrarmos na situação, praticar o bem? Oh, Não! O Cristo aí está para prová-lo. Se, pois, o Cristo, a bondade por excelência, serviu de alvo a tudo quanto a maldade pôde imaginar, como nos espantarmos com o fato de o mesmo suceder àqueles que valem cem vezes menos?
O homem que pratica o bem – isto dito em tese geral – deve, pois, preparar-se para se ferir na ingratidão, para ter contra ele aqueles que, não o praticando, são ciumentos da estima concedida aos que o praticam. Os primeiros, não se sentindo dotados de força para se elevarem, procuram rebaixar os outros ao seu nível, obstinam-se em anular, pela maledicência ou a calúnia, aqueles que os ofuscam. Ouve-se constantemente dizer que a ingratidão com que somos pagos endurece o nosso coração e nos torna egoístas. Falar assim é provar que se tem o coração fácil de ser endurecido, uma vez que esse temor não poderia deter o homem verdadeiramente bom. O reconhecimento já é uma remuneração pelo bem que se faz; praticá-lo tendo em vista esta remuneração, é fazê-lo por interesse. Por outro lado, quem sabe se aquele que beneficiamos, e do qual nada esperamos, não será estimulado a mais elevados sentimentos por um reto proceder? Este pode ser, talvez, um meio de levá-lo a refletir, de suavizar sua alma, de salvá-lo! Esta esperança constitui uma nobre ambição. Se nos inferiorizarmos, não realizaremos o que nos compete realizar.
Não podemos, entretanto, supor que um benefício, aparentemente estéril na Terra, seja para sempre improdutivo. É, muitas vezes, um grão semeado e que não germina senão na vida futura daquele que o recebeu. Muitas vezes temos observado certos Espíritos, ingratos como homens, tomados de emoção na espiritualidade, pelo bem que lhes foi feito. E essa lembrança, neles despertando pensamentos benéficos, facilita-lhes enveredarem para o caminho do bem e do arrependimento, contribuindo para abreviar seus sofrimentos. Só o Espiritismo poderia revelar este resultado da benevolência, só a ele está dado, pelas comunicações recebidas do além-túmulo, revelar o lado caridoso desta máxima: Um benefício nunca está perdido, substituindo o sentido egoísta que se lhe atribui. Mas, retornemos ao que nos concerne.
Pondo qualquer questão pessoal de lado, tenho adversários naturais nos inimigos do Espiritismo. Não creiais que me lamente! Longe disto! Quanto maior é a animosidade deles, melhor comprova a importância que a doutrina espírita assume aos seus olhos. Se se tratasse de algo sem consequências, uma dessas utopias que já nascem inviáveis, não lhe prestariam atenção. Não tendes visto escritos vasados em um tom de hostilidade que não se encontra nos meus, – quanto à ideologia, – e nos quais as expressões não são mais parcimoniosas do que o atrevimento dos pensamentos? Contra eles, todavia, não dizem uma única palavra! O mesmo se daria se as doutrinas que luto por difundir permanecessem circunscritas às páginas de um livro. Entretanto, – o que pode parecer mais espantoso, – é que tenho adversários mesmo entre os adeptos do Espiritismo: Ora, nesta área é que uma explicação se torna necessária.
Entre os que adotam as ideias espíritas há como bem sabeis três categorias bem distintas: 1. Os que creem pura e simplesmente nos fenômenos das manifestações, mas que deles não deduzem qualquer consequência moral;
2. Os que percebem o alcance moral, mas o aplicam aos outros e não a si mesmos;
3. Os que aceitam pessoalmente todas as consequências da doutrina e que praticam ou se esforçam por praticar sua moral.
Estes, vós bem o sabeis; são os VERDADEIROS ESPÍRITAS, os ESPÍRITAS CRISTÃOS. Esta distinção é importante, pois bem explica as anomalias aparentes. Sem isso seria difícil compreendermos as atitudes de determinadas pessoas. Ora, o que preceitua essa moral? Amai-vos uns aos outros; perdoai os vossos inimigos; retribuí o mal com o bem; não tenhais ira, nem rancor, nem animosidade, nem inveja, nem ciúme; sede severos para convosco mesmos e indulgentes para com os outros. Tais devem ser os sentimentos do verdadeiro espírita, daquele que se atém ao fundo e não à forma, do que coloca o espírito acima da matéria. Este pode ter inimigos, mas não é inimigo de ninguém, pois não deseja o mal a quem quer que seja e, com maiores razões, não procura fazer o mal a ninguém.
Este como vede senhores, é um princípio geral do qual toda a gente pode tirar um benefício. Se, pois, tenho inimigos, eles não podem ser contados entre os Espíritas desta categoria, pois, admitindo que tivessem motivos legítimos de queixa contra mim, o que me esforço por evitar, esse não seria um motivo para me odiarem e, com melhores razões se nunca lhes fiz qualquer mal. O Espiritismo tem por divisa: Fora da caridade não há salvação, o que equivale dizer: Fora da caridade não pode existir verdadeiros espíritas. Solicito-vos inscrever, daqui para frente, esta divisa em vossas bandeiras, pois ela resume ao mesmo tempo o objetivo do Espiritismo e o dever que ele impõe.
Estando, pois, admitido que não se possa ser um bom espírita com sentimentos de ódio no coração, eu me alegro de não ter amigos senão entre estes últimos, pois se eu cometer faltas eles saberão desculpá-las. Veremos, em seguida, a que imensas e férteis consequências conduz este princípio.
Vejamos então as causas que excitaram certas animosidades.
Desde que surgiram as primeiras manifestações dos Espíritos, muitas pessoas viram nisso um meio de especulação, uma nova mina a ser explorada. Se essa ideia seguisse o seu curso teríeis visto pulular por toda a parte médiuns e pseudo médiuns, oferecendo consultas a um dado preço por sessão. Os jornais estariam cobertos por seus anúncios e reclames. Os médiuns teriam se transformado em ledores da sorte e o Espiritismo se enquadraria na mesma linha da adivinhação, da cartomancia, da necromancia, etc. Nesse conflito, como poderia o público discernir a verdade da mentira? Pôr o Espiritismo a salvo, em meio a tal confusão não seria coisa fácil. Tornou-se imperioso impedir que fosse levado por essa via funesta. Era preciso cortar pela raiz um mal que o teria atrasado por mais de um século. Foi o que me esforcei por fazer, demonstrando desde o princípio a face grave e sublime dessa nova ciência, fazendo-a sair do caminho puramente experimental para fazê-la penetrar no da filosofia e da moral, mostrando, enfim, que haveria profanação em explorar a alma dos mortos, enquanto cercamos seus despojos de respeito. Desse modo, assinalando os inevitáveis abusos que resultariam de semelhante estado de coisas, eu contribui, e disso me glorifico, para descreditar a exploração do Espiritismo e, por isso mesmo, levar o público a considerá-lo como uma coisa séria e santa.
Creio ter prestado algum serviço à causa; mas se tivesse feito apenas isso já me felicitaria. Graças a Deus meus esforços foram coroados de êxito, não apenas na França, mas também no estrangeiro, e posso dizer que os médiuns profissionais são hoje raras exceções na Europa. Onde quer que minhas obras penetraram e servem de guia, o Espiritismo é visto sob seu verdadeiro ponto de vista, isto é, sob o ponto de vista exclusivamente moral. Por toda a parte os médiuns, devotados e desinteressados, compreendendo a santidade de sua missão, veem-se cercados da consideração que lhes é devida, qualquer que seja sua posição social. E essa consideração cresce na razão mesma da inferioridade da posição realçada pelo desinteresse.
Não pretendo absolutamente dizer que entre os médiuns profissionais não existem muitos que sejam honestos e dignos de consideração. Mas a experiência provou, a mim e a muitos outros, que o interesse é um poderoso estimulante à fraude, pois tem em mira o lucro; e se os Espíritos não colaboram, o que frequentemente ocorre, pois não estão por conta de nossos caprichos, a astúcia, fecunda em expedientes, encontra facilmente meio de supri-los. Para um que agisse lealmente haveria cem que abusariam e que prejudicariam a consideração do Espiritismo. Por outro lado os nossos adversários não descuidaram de explorar, em proveito de suas críticas, as fraudes que puderam testemunhar, disso concluindo que tudo no Espiritismo é falsidade e que urge, portanto, oporem-se a esse charlatanismo de um novo gênero. Em vão objeta-se que a doutrina não é responsável por tais abusos. Conheceis o provérbio: “Quando se deseja matar seu cão, diz-se que ele está raivoso”.
Que resposta mais peremptória se poderia dar à acusação de charlatanismo do que poder dizer: Quem vos convidou a vir? Quanto pagastes para entrar?. Aquele que paga quer ser servido; exige uma compensação pelo seu dinheiro; se não lhe é dado o que espera, tem o direito de reclamar. Ora, para evitar essa reclamação, cuida-se de servi-lo a qualquer preço. Eis o abuso, mas esse abuso que ameaça se tornar uma regra, ao invés de uma exceção, é preciso deter. Agora que uma opinião se formou a este respeito, o perigo não é de se temer senão para as pessoas inexperientes. Aqueles, pois, que se queixarem de ter sido enganados, ou de não haver obtido as respostas que desejariam, podemos dizer: “Se tivésseis estudado o Espiritismo saberíeis em que condições ele pode ser experimentado com frutos; saberíeis quais são os legítimos motivos de confiança e de desconfiança, o que, em suma, se pode dele esperar; e não teríeis pedido o que ele não pode dar; não teríeis ido consultar um médium como a um cartomante, para solicitar aos Espíritos revelações, conselhos sobre heranças, descobertas de tesouros e cem outras coisas semelhantes que não são da alçada do Espiritismo. Se fostes induzido em erro, deveis apenas culpar-vos a vós mesmos”.
É evidente que não se pode considerar uma exploração a cotização que se paga a uma sociedade para que enfrente as despesas da reunião. A mais vulgar equidade diz que não se pode impor esse gasto àquele que é convidado, se ele não é bastante rico, nem bastante livre com relação ao seu tempo para fazê-lo. A especulação consiste em se fazer uma indústria da coisa, a convocar o primeiro que chega, curioso ou indiferente, para ter seu dinheiro. Uma sociedade que assim agisse seria tão repreensível, mais repreensível ainda do que o indivíduo, e não mereceria nenhuma confiança. Que uma sociedade arque com todas as suas necessidades; que ela proveja a todas as suas despesas e não as deixe ao encargo de um só, isto é muito justo, e não há aí nem exploração, nem especulação. Todavia, já não seria o mesmo se o primeiro que se chegasse pudesse adquirir o direito de entrada, pagando-o, pois isto seria desnaturar o objetivo essencialmente moral e instrutivo das reuniões deste gênero, para delas fazer uma espécie de espetáculo de curiosidades. Quanto aos médiuns, eles se multiplicam de tal forma, que os médiuns de profissão seriam hoje completamente supérfluos.
Tais são, Senhores, as ideias que me esforcei por fazer prevalecer e confesso-me feliz por ter obtido êxito muito mais facilmente do que esperava. Mas, compreendei, aqueles que frustrei em suas esperanças não são meus amigos. Eis-nos, pois, em presença de um grupo que não me pode ver com bons olhos, o que, convenhamos, pouco me inquieta. Se nunca a exploração do Espiritismo tentou se introduzir em vossa cidade, eu vos convido a renegar essa nova indústria, a fim de não comprometerdes a vós mesmos com essa solidariedade e para que as censuras que se levantarem não venham a cair sobre a doutrina pura.
Ao lado da especulação material, há uma à qual poderíamos chamar especulação moral, isto é, a satisfação do orgulho, do amor próprio; aqueles que, sem interesse pecuniário, acreditaram ser possível fazer do Espiritismo um pedestal honorífico para se colocarem em evidência. Também não os favoreci, e meus escritos, assim como meus conselhos, contrapuseram-se a mais de uma premeditação, mostrando que as qualidades do verdadeiro espírita são a abnegação e a humildade, conforme a máxima do Cristo: “Aquele que se eleva será abaixado”. É a segunda categoria que não me quer mais bem, e a que se poderia chamar a das ambições frustradas e dos amores-próprios feridos.
Em seguida vêm as pessoas que não me perdoam por ter sido bem sucedido; para as quais o sucesso de minhas obras é uma causa de desgosto, que perdem o sono quando assistem aos testemunhos de simpatia que, espontaneamente, são-me dispensados. É o clã dos ciumentos, que não é mais benevolente, e que é reforçada pelas pessoas que, por temperamento, não podem ver um homem erguer um pouco a cabeça sem tentar um movimento para fazê-lo submergir.
Uma camarilha das mais irascíveis, acreditai, se encontra entre os médiuns, não pelos médiuns interesseiros, mas pelos que são muito desinteressados, materialmente falando; refiro-me aos médiuns obsedados, ou melhor, fascinados. Algumas observações a este respeito não serão sem utilidade.
Por orgulho, estão de tal forma persuadidos de que tudo o que recebem é sublime e só pode vir de Espíritos Superiores, que se irritam com a menor observação crítica, a ponto de se alterar com seus amigos quando estes têm a inabilidade de não admirar o que é absurdo. Nisto reside a prova da má influência que os domina, pois, supondo-se que, por falta de capacidade de julgamento ou de conhecimento não fossem capazes de enxergar claro, este não constituiria um motivo para se porem de prevenção contra os que não concordam com sua opinião; mais isso não agradaria os Espíritos obsessores que, para melhor manter o médium sob sua dependência, lhe inspiram o afastamento, a aversão mesma por quem quer que possa lhes abrir os olhos.
Há, em seguida, aqueles cuja susceptibilidade é levada ao excesso; que se melindram com a mínima coisa, com o lugar que lhes é dado numa reunião e não os coloca em bastante evidência, com a ordem estabelecida para a leitura de suas comunicações, ou com a recusa da leitura daquelas cujo tema não parece oportuno para uma assembleia; pelo fato de não serem solicitados, com bastante insistência, a dar o seu concurso; outros acham ruim porque a ordem dos trabalhos não é invertida para favorecer suas conveniências; outros gostariam de se colocar como médiuns titulares de um grupo ou de uma sociedade, ali fazer chover ou fazer sol, e que seus Espíritos diretores fossem tomados por árbitros absolutos de todas as questões, etc. etc. Esses motivos são tão pueris e tão mesquinhos, que não se ousa confessá-los. Mas nem por isso deixam de constituir uma fonte de surda animosidade que, cedo ou tarde, se trai, ou pelas malquerenças, ou pelo afastamento. Sem ter razões ponderáveis a oferecer, muitos põem de lado os escrúpulos e apresentam pretextos ou alegações imaginárias. O fato de, absolutamente, não me conformar a essas pretensões surge como um erro, ou melhor ainda, um crime aos olhos de algumas pessoas que, naturalmente, me deram as costas, gesto esse ao qual, mais uma vez reagi, a seu ver, erroneamente, não lhes dando maior importância. Imperdoável! Concebei esta palavra nos lábios de pessoas que se dizem espíritas? Essa palavra deveria ser riscada do vocabulário do Espiritismo.
Esse desagrado, a maior parte dos diretores dos grupos ou das sociedades, como eu, tem experimentado, e eu os convido a fazer como eu, isto é, a não dar importância a médiuns que antes constituem um entrave que um recurso; em sua presença está-se sempre pouco à vontade, com temor de os ferir com ações por vezes as mais insignificantes.
Este inconveniente foi, dantes, mais relevante do que agora. Quando os médiuns eram mais raros do que hoje, tinha-se de se contentar com aqueles de que se dispunha. Hoje, entretanto, que eles se multiplicam diante de nossos olhos, o inconveniente diminui em razão mesmo da escolha e à medida que se compenetra melhor dos verdadeiros princípios da doutrina.
Pondo-se de lado o grau da faculdade, as qualidades de um bom médium são a modéstia, a simplicidade e o devotamento; ele deve oferecer seu concurso tendo em vista ser útil e não para satisfazer a sua vaidade; não deve jamais ater-se às comunicações que recebe pois, de outra forma, poderia fazer crer que nelas põe algo de seu, algo que tem interesse em defender; deve aceitar a crítica, mesmo solicitá-la, e se submeter às advertências da maioria sem pensamento oculto; se o que ele escreve é falso, mau, detestável, é preciso que se lhe diga sem receio de feri-lo, e mesmo na certeza de que tal não ocorrerá. Eis os médiuns verdadeiramente úteis numa reunião e com os quais nunca teremos motivos de descontentamentos, pois bem compreendem a doutrina. São esses também que recebem as melhores comunicações, uma vez que não se deixam dominar por Espíritos orgulhosos. Os Espíritos mentirosos os receiam, pois se reconhecem impotentes para deles abusar.
Em seguida vem a categoria das pessoas que jamais estão contentes; umas acham que vou muito rápido, outras com muita lentidão; é verdadeiramente a fábula do Moleiro, seu filho e o asno. Os primeiros reprovam-me por haver formulado princípios prematuros, de me colocar como chefe de uma escola filosófica. Mas acontece que, pondo-se a ideia espírita à parte, não poderia eu acaso arrogar-me, como tantos outros, a autoria de um sistema filosófico, fosse este o mais absurdo? Se os meus princípios são falsos, por que não apresentam outros que os substituam, fazendo-os prevalecer? Ao que parece, entretanto, de modo geral eles não são julgados irracionais, já que encontram aderentes em tão grande número. Mas, não será exatamente isso que excita o mau humor de certas pessoas? Se esses princípios não encontrassem partidários, se fossem ridículos a partir do primeiro enunciado, seguramente deles não se falaria.
Os segundos, que pretendem que não vou bastante rapidamente, desejariam me empurrar, com boa intenção, quero crer, pois é sempre melhor pressupor o melhor que o pior, num caminho em que não quero me arriscar. Sem, pois, me deixar influenciar seja pelas ideias de uns, seja pelas de outros, sigo a rota que eu mesmo tracei: tenho um objetivo, vejo-o, sei como e quando o atingirei e não me inquietam os clamores dos que passam por mim.
Crede, Senhores, as pedras não faltam em meu caminho. Passo por cima delas, mesmo das mais altas e pesadas. Se se conhecesse a verdadeira causa de certas antipatias e de certos afastamentos, muitas surpresas nos aguardariam. É preciso acrescentar as pessoas que são postas, relativamente a mim, em posições falsas, ridículas e comprometedoras e que procuram se justificar, em última instância, recorrendo a pequenas calúnias; os que esperavam atrair-me a eles pela adulação, crendo poder levar-me a servir aos seus desígnios e que reconheceram a inutilidade de suas manobras para atrair minha atenção; aqueles que não elogiei nem incensei e que isso esperavam de mim; aqueles, enfim, que não me perdoam por ter adivinhado suas intenções e que são como a serpente sobre a qual se pisa. Se todas essas pessoas decidissem se colocar, por um instante sequer, em uma posição extraterrena e ver as coisas um pouco mais do alto, compreenderiam bem a puerilidade de quanto as preocupa e não se espantariam com a pouca importância que a tudo isso dão os verdadeiros espíritas. É que o Espiritismo abre horizontes tão vastos, que a vida corporal, curta e efêmera, se apaga com todas as suas vaidades e suas pequenas intrigas, ante o infinito da vida espiritual.
Não devo, entretanto, omitir uma censura que me foi endereçada: a de nada fazer para trazer de novo a mim as pessoas que se afastam. Isso é verdadeiro e a reprovação fundamentada; eu a mereço, pois jamais dei um único passo nesse sentido e aqui estão os motivos de minha indiferença.
Aqueles que vêm a mim, fazem-no porque isto lhes convém; é menos por minha pessoa do que pela simpatia que lhes desperta os princípios que professo. Os que se afastam fazem-no porque não lhes convenho ou porque nossa maneira de ver as coisas reciprocamente não concorda. Por que, então, iria eu contrariá-los, impondo-me a eles? Parece-me mais conveniente deixá-los em paz. Ademais, honestamente, falta-me tempo para isso. Sabe-se que minhas ocupações não me deixam um instante para o repouso, e para um que parte, há mil que chegam. Julgo um dever dedicar-me, acima de tudo, a estes e é isso que faço. É orgulho? Desprezo por outrem? Oh, seguramente, não! Eu não desprezo ninguém; lamento os que agem mal, rogo a Deus e aos Bons Espíritos que façam nascer neles melhores sentimentos, eis tudo. Se eles retornam, são sempre bem-vindos, mas correr atrás deles, jamais o faço, em razão do tempo que de mim reclamam as pessoas de boa vontade; em segundo lugar, porque não ligo a certas pessoas a importância que elas dão si mesmas. Para mim, um homem é um homem, isto apenas! Meço seu valor por seus atos, por seus sentimentos, nunca por sua posição social. Pertença ele às mais altas camadas da sociedade, se age mal, se é egoísta e negligente de sua dignidade é, a meus olhos, inferior ao trabalhador que procede corretamente, e eu aperto mais cordialmente a mão de um homem humilde, cujo coração estou a ouvir, do que a de um potentado cujo peito emudeceu. A primeira me aquece, a segunda me enregela.
Personagens da mais alta posição honram-me com sua visita, porém nunca, por causa deles, um proletário ficou na antecâmara. Muitas vezes, em meu salão, o príncipe se assenta ao lado do operário. Se se sentir humilhado, eu direi que ele não é digno de ser espírita. Mas, sinto-me feliz em dizer, eu os vi, muitas vezes, apertarem-se as mãos, fraternalmente, e, então, um pensamento me ocorria: “Espiritismo, eis um dos teus milagres; este é o prenúncio de muitos outros prodígios!”
Dependeria de mim abrir as portas do grande mundo; jamais fui nelas bater; isso me tomaria um tempo que creio poder empregar mais utilmente. Eu coloco em primeira instância as consolações que é preciso dar aos que sofrem; levantar a coragem dos abatidos, arrancar um homem de suas paixões, do desespero, do suicídio, detê-lo talvez no limiar do crime; não vale mais isto do que os lambris dourados? Tenho milhares de cartas que para mim mais valem do que todas as honrarias da Terra e que vejo como meus verdadeiros títulos de nobreza. Não vos espanteis se deixo ir aqueles que me dão as costas.
Tenho adversários, eu o sei; mas o número deles não é tão grande quanto se poderia crer segundo a enumeração que fiz; eles se encontram nas categorias que citei, mas são apenas individualidades, e o número é pouca coisa comparado aos que desejam testemunhar-me simpatia. Aliás, eles jamais conseguiram perturbar minha tranquilidade; jamais suas maquinações nem suas diatribes me emocionaram; e devo acrescentar que essa profunda indiferença de minha parte, o silêncio que oponho aos seus ataques, não é o que os exaspera menos. Por mais que façam, jamais conseguirão fazer-me sair da moderação e da regra que tenho por conduta. Nunca se poderá dizer que respondi à injúria com injúria. As pessoas que me conhecem na intimidade sabem que jamais me ocupo com eles; que na Sociedade jamais foi dita uma única palavra, foi feita uma única alusão relativamente a qualquer um deles. Mesmo pela Revista jamais respondi às suas agressões, quando dirigidas à minha pessoa, e Deus sabe que elas não têm faltado!
Ademais, de que adianta seu malquerer? De nada! Nem contra a doutrina nem contra mim. A doutrina espírita prova, por sua marcha progressiva, que nada tem a temer. Quanto a mim, não ocupo nenhuma posição, por isso nada existe que me pode ser tirado; não peço nada, nada solicito e, assim, nada me pode ser recusado. Não devo nada a ninguém, desse modo nada há que me possa ser cobrado; não falo mal de ninguém, nem mesmo daqueles que o dizem de mim. Em que poderiam, então, prejudicar-me? É certo que se pode atribuir a mim o que eu não disse e isso já se fez mais de uma vez. Mas, aqueles que me conhecem são capazes de distinguir o que digo daquilo que não sou capaz de dizer e eu agradeço a quantos, em semelhantes circunstâncias, souberam responder por mim. O que afirmo, estou sempre pronto a repetir, na presença de quem quer que seja, e quando afirmo não ter dito ou feito uma coisa, julgo-me no direito de ser acreditado.
Aliás, o que são todas essas coisas em face do objetivo que nós, Espíritas sinceros e devotados, perseguimos juntos? Desse imenso futuro que se desenrola diante dos nossos olhos? Acreditai-me, Senhores, fora preciso ver como um roubo feito à grande obra, os instantes que perdêssemos preocupados com essas mesquinharias. De minha parte agradeço a Deus por me haver, já aqui na Terra, concedido tantas compensações morais ao preço de tribulações tão passageiras, bem como pela alegria de assistir ao triunfo da doutrina espírita.
Peço-vos perdão, Senhores, por vos haver, por tão longo tempo, entretido com assuntos relativos a mim, mas acredito útil estabelecer nitidamente a posição, a fim de que vos seja possível saber em quem vos ater conforme as circunstâncias, e para que estais bem convencidos de que minha linha de conduta está traçada e que dela nada me fará desviar. De resto, creio que destas observações mesmas, fazendo abstração da pessoa, poderão resultar alguns ensinamentos úteis.
(Allan Kardec, reuniões gerais dos espíritas de Lyon e de Bordeaux, e publicado no livro Viagem Espírita em 1862.)