PAJELANÇA – O XAMANISMO BRASILEIRO

img

É provável que a palavra Pajé venha da raiz pa-y = profeta, adivinho, curador, sacerdote, xamã. O termo pajelança é aplicado nas manifestações xamânicas dos índios brasileiros. Pode ser divido em pajelança indígena (rituais indígenas) e pajelança cabocla, que são praticas religiosas (não índígenas) mais comuns no Noorte e Nordeste brasileiro.

Há anos atrás, o amigo Walter Vetillo foi a Belém fazer uma reportagem para a Revista Planeta, cobrindo o VI Congresso Brasileiro de Parapsicologia e Psicotrônica onde se realizaou um Encontro de Pajés. Parte da mátéria transcrevo abaixo :

Afinal…quem são os pajés ?

Existe muito pouca coisa publicada no Brasil sobre este fascinante assunto. Uma contribuição preciosa foi o depoimento do estudioso dos mistérios amazonenses, Antonio Jorge Thor. Thor comenta o xamanismo e a pajelança :

” Um aspecto curioso deste assunto é que nos Estados Unidos, quando se fala em xamanismo, muitas linhagens dos xamãs são mulheres No Brasil não; aqui pajé é sempre somente do sexo masculino – primeira geração, que passa de pai para filho. Para sser um pajé, o candidato deve ser um paranormal e médium ao mesmo tempo. Ou seja, dve ter muitas força mental (paranormalidade) e a mediunidade, que mexe com a bioenergética, com as partículas biocósmicas (provocam a expansão da consciência fora da matéria, o espírito por exemplo), enfim aquela coisa da espiritualidade.

Entre as diversas tribos, como os Kraôs, caiapós e gaviões, varia muito o conceito de pajelança, mas eles tem alguma coisa em comum: o misticismo , o segredo. Você as vezes passa um longo tempo para conseguir uma informação, um segredo, como por exemplo, sobre um não-alucinógeno para você sair com facilidade do corpo (desdobramento) . O pajé penetra na área da encantaria, uma outra vertende da grande magia que pouca gente conhece., que é passar para uma outra dimensão e e muitos dele quando retornam dessa experiência , voltam curados. Eu fui iniciado pelas mãos de uma curandeira de terceira geração que foi tratada pelos pajés. Doente, ela passou algum tempo desaparecida e quando retornou, além de curada veio com dons incríveis.

A pajelança é uma forma de magia nativa da Amazonia, tipicamente indutiva, atuando sobre qualquer elemento vivo e mantendo estreita relação com os demais reinos da natureza: mineral, vegetal e animal. É praticada por curandeiros (principalmente pelos pajés da Amazônia), com base no xamanismo indígena .

Pelas suas ações, o xamã tenta estabelecer contato com outras formas de existência através de comunicações com entidades sobrenaturais, procurando restabelecer o equilíbrio perdido entre a natureza e a mente. Esse processo envolve curas, exorcismos, e outrois atos com objetivos diversos.

A visão holística da cultura xamanista não pode ser esquecida fornecendo ao pajé um importante elo que o integra ao todo. Nesse sentido Fritjot Capra, em ponto de Mutação, sintetiza: “A característica predominante da concepção xamanista de doença é a crença de que os seres humanos são partes integrantes de um sistema ordenado em que toda a doença é consequência de alguma desarmonia em relação à ordem cósmica. Com grande frequência, a doença também é interpretada como castigo por algum comportamento imoral.

A pajelância autêntica, abrange os pajés reunidos no conceito de “alta pajelança”, cujos segredos são guardados a sete chaves – haja vista não terem interesse em que profanos venham a desfrutar dessas dádivas. Ela se subdivide em diuas correntes :

  • Pajelança de “conta branca” : Atua em favor do bem, curando principalmente doenças físicas e mentais e resolvendo problemas do cotidiano da comunidade.
  • *Pajelança de “conta negra” : Atua em favor do mal. Visa facilitar a vitória na guerra com outras tribos ou a disputa de guerreiros para se tornar líderes. Serve também para matar ou adoecer uma vítima, sendo que em alguns casos é usada para dificílimos trabalhos de cura.

A verdadeira pajelança é restrita a uma minoria que ostenta os segredos e poções mágicas que rejuvenescem, curam, matam, provocam viagens astrais e outras grandes iniciações. Atualmente, existem poucos pajés desse tipo no Brasil. A presença da mulher é vedada.

Já a pajelança paralela (segunda geração) envolve as várias formas de curandeirismo popular – principalmente as rezadeiras e benzedeiras, que trazem no sangue a eugenia nativa, além de estar representadas em alguns rituais da Umbanda.

Finalmente, a pajelança afim (terceira geração) engloba o curandeirismo popular originado da pajelança mater, porém com atuação mais aberta que a anterior. Aoresenta influências visíveis de outras magias, seitas, misturando-se a -se a outras culturas folclóricas e crendices de povos diversos. É a pajelança com maior influência no Brasil, e suas benzedeiras, que utilizam ervas e rezasa para tirar o “quebranto” , muitas vezes conseguem imbuir-se de dons que são inerentes aos pajés. Já as rezadeiras, embora sejam incluídas nesse grupo, são originárias do Nordeste, submetendo-se assim a uma influência maior do catolicismo.

A pajelança deve ser usada por quem realmente a domina, manipulando o universo de magias que a constituem. A princípio todos os métodos usados são indutivos, sincronizados a um objeto (instrumento de poder) e resguardado pelos dons natos do pajé. Sua maior finalidade está na força de cura ou no resultado que produz a partir de três fatores básicos :

1 Força Mental – É um dos instrumentos fundamentais de um pajé. Existe um arquétipo-modelo que fornece meios para a paranormalidade aguçar-se à medida que o pajé passa a usar elementos oriundos da natureza: comer determinadas frutas ou raízes, ingerir certas bebidas sagradas através de fórmulas secxretas, etc. Esse comp0lexo aguça a paranormalidade e está associado a outros exercícios como a entonação de mantras.

2 Sincronia de elementos – Constitui o poder de invopcar elentos das diversas dimensões através de cânticos mântricos e imagens. Quando associado à natureza, esta força ostenta a verdadeira fórmula que muitos pajés, bruxos e outros magos guardam a sete chaves. O próprio maracá, qunado sacudido cadencialmente, cria uma estrutura energética que permite a abertura para a paranormalidade.

3 Agentes auxiliares – O auxílio a esses trabalhos provém de seres de diversos planos dimensioonais invocados para operar como reforço, com os elementais da natureza, os encantados (seres energéticos de outras dimensões) e outros agentes chamados “tetaianos” ou seja, otimizados pelas comunicações biocósmicas (espíritos de pajés e de outros seres).

Um elemento insispensável na pajelança é o maracá. O maracá de um xamã é recebido ou confeccionado durante a iniciação, sendo, portanto, sagrado para ele. em alguns casos é passado de pai para filho; ou ainda, o “escolhido” é induzido a achá-lo mediante as regras impostas pelo ritual de iniciação..

Outro elemento fundamental é o tauari , uma espécie de charuto natural semi-oco que ajuda o pajé a defumar o local ou a pessoa em questão. O charuto, com sua fumaça cheirosa, objetiva imantar o ambiente e criar uma atmosfera toda especial, para facilitar os cantatos que o pajé queira fazer.

Se o maracá e o charuto, são importantes para um pajé, pois assumem significados sagrados em suas mãos, existem outros elementos secundários uisados ao lçongo dos trabalhos desenvolvidos.

  • Mascar certos vegetais ou mesmo cheirá-los, ou até mesmo comer ou beber, também faz parte do ritual de entrada de um xamã. Essa situação varia muitoi de pajé para pajé, de trabalho para trabalho, dependendo do objetivo visado. O importante é que eles, usando recursos tiotalmente naturais, provocam os mesmos efeitos de certos enteógenos.
  • Chás ou pós de ervas, alucinógenos ou não, facilitam as viagens e a comunicação, com entidades de outros planos, bem como aguçam a paranormalidade.
  • Porções para mascar, feitas com plantas e raizes especiais, desenvolvem a sensibilidade do pajé e facilitam suas viagens, as quais poderão trazer soluções para os casos pendentes.
  • Cantos nativos produzem vibrações e facilitam contatos com outros pajés, pessoas ou ouitros seres invocados nos cânticos.

Dentro dessa estrutura a pajelança é associada a rituais de grande beleza e magia, qu extasiam a todos que se envolvem no processo de participação, ou mesmo como meros observadores.

Segundo Thor, o perfeito domínio sobre este incrível mundo mágico-natural pode por vezes levar alguns pajés de alta linhagem a alterar suas partículas atômicas, tornar-se invisíveis e deslocar-se no espaço, surgindo em outros lugares. Aqui vale a pena lembrar as experiências relatadas por Castañeda em seus livros, descrevendo casos semelhantes com Dom Juan e D. Genaro.

Geralmente o pajé exerce uma influência muito grande sobre sseu povo – sua figura está para a tribo na mesma proporção em que o médico está para a comunidade. Isso faz com que sua importânciae destaque assumam uma responsabilidade toda especial sobre os problemas que afligem seu grupo. Por outro lado, como um médico, o pajé segue as normas e obedece as éticas moldadas pela sociedade., e não poderia deixar de assumir um arquétipo blinbdado para sua tribo. Dificilmente alguma coisa lhe é negada, e ele, com justiça, exerce o poder e goza de fama e do respeito de todos. Os pajés vivem bastante tempo, e os mais poderosos são chamados de sacaca por sinal, o mesmo nome de um conhecido vegetal da Amazônia Oriental, detentor de inúmeras utilidades.

Extraído do site: http://www.xamanismo.com.br/

Anúncios

Falangeiros de Orixás

Saudações maninhos… Como foram de carnaval?

Aqui estou eu para tentar elucidar um pouco sobre a diferença de Orixás, Falangeiros e os Guias Espirituais dos quais trabalhamos.

Existe muita confusão quanto a esse aspecto e gostaria de tentar esmiuçar um pouco sobre um assunto tão complicado.

É notório que lemos em várias literaturas, aquelas legiões e/ou falanges de orixás, a mais conhecida é a falange de Ogum, que tem como chefes de falange Ogum Beira-Mar, Ogum Iara, Ogum Rompe-Mato, entre outros, outros falangeiros como os de Xangô, já começamos a encontrar algumas discórdias entre as literaturas, das quais existem Xangô Kaô, Xangô Sete Cachoeiras, Pedra Branca entre outros.

Primeiramente gostaria de elucidar dentro do que eu acredito a diferença entre Orixás, Falangeiros e Chefes de Falange ou Legiões:

  1. Orixás – Desprendimentos vibratórios Naturais, compreendemos como “Qualidades” de Deus ou “Centelhas Divinas”, são vibrações Universais que habitam o Cosmos trazendo para nós seus aspectos positivos e negativos, possuímos aquela Centelha nativa, da qual nascemos no momento em que foi concebida nossa existência e temos aqueles que nos regem em cada reencarnação que habitamos, afim de nos auxiliar a evoluir e concluir aquela missão da qual fomos incumbidos. Em suma, nunca encarnaram, nunca se casaram e nem tampouco se encantaram, em minha humilde opinião, essas histórias são alegorias para ilustrar como funcionam essas vibrações, energias, forças.

     

  2. Falangeiros de Orixás – São espíritos que atingiram um patamar de alta evolução natural daquela vibração, são os representantes naturais de nossos orixás, são espíritos que trazem consigo a vibração pura do Orixá bem como a sua energia elementar, RARAMENTE falam, apesar que em muitas casas, são trazidos para a realização de consultas, isso vai depender da cultura da casa, muitas vezes eles mesmos dão seu próprio nome ou enviam um erê ou outro mensageiro para dar o respectivo. É nesse assunto que encontramos diversas opiniões a respeito do assunto, os falangeiros não são Orixás, porque Orixás são Vibrações, os falangeiros são seus representantes, são aqueles que traz a energia pura e consequentemente, são incorporantes, alguns exemplos de falangeiros:

Ogum

  • Ogum Beira-Mar;
  • Ogum Sete Espadas;
  • Ogum Marinho;
  • Ogum de Ronda;
  • Ogum Sete Ondas;
  • Ogum Rompe-Mato;
  • Ogum Pedreira;
  • Ogum Naruê;
  • Ogum Dilê;
  • Ogum Sete Encruzilhadas;
  • Ogum Sete Estradas;
  • Ogum Megê;
  • Ogum Iara.

Xangô

  • Sete Pedreiras;
  • Pedra Branca;
  • Sete Cachoeiras;
  • Pedra Preta;
  • Pedra Bruta;
  • Cachoeira

Normalmente, são os mais conhecidos, foram os falangeiros mais estudados, esses são representantes da vibração pura do Orixá, obviamente existem diversos outros falangeiros. Esses falangeiros são conhecidos por muitos dirigentes como qualidades do orixá, representam o campo de atuação do Orixá correspondente, por exemplo, Orixás que carregam outras vibrações, como o caso de Ogum Rompe-Mato que carrega a vibração de Oxóssi, Xango Cachoeira que carrega a vibração de Oxum e assim por diante.

Encontramos muitas literaturas informando a qualidade de outros orixás, por exemplo, Oxóssi Ibualamo, Xangô Alafin, essas são denominações na nação e diferem um pouco na Umbanda, no Candomblé existem as QUALIDADES dos Orixás e junto com as qualidades, suas respectivas características, na Umbanda o termo qualidade não faz muito sentido e é substituído pelo tipo do falangeiro. Ex. Você é filho de Ogum, ao invés de indagarmos qual a qualidade, indagamos qual é o falangeiro, no caso, alguns exemplos foram citados acima, o mesmo ocorre com Xangô e outros Orixás.

Obviamente, alguns foram migrados da Nação, no caso de Ogum Megê, que na verdade vem de Meji, que significa duas cabeças, Ogum Xoroquê é um grande exemplo de sua existência tanto no Candomblé, como na Umbanda, é natural que herdemos algumas raízes da Nação justamente por ser nossa única referência ao culto dos orixás.

  1. Guias Espirituais – São os chamados “catiços” por muitos da nação, são espíritos que já tiveram sua encarnação na Terra, são espíritos incorporantes que dão consulta, trabalham sob as irradiações dos Orixás, são os caboclos, erês, preto-velhos e todas as demais linhas que compõem a egrégora umbandista, nesses também temos algumas subdivisões, das quais:
    1. Chefes de Legião – São guias espirituais que já atingiram alto patamar vibratório, raramente são incorporantes, eles são responsáveis por toda uma legião de falanges do mundo espiritual, por exemplo, APENAS PARA EXEMPLIFICAR, em algumas literaturas, dizem que o Caboclo das Sete Encruzilhadas é o chefe da legião de todos os caboclos que compõem a legião da Jurema, Sete Flechas e outros caboclos que trazem nomes de tribos, como Tupã, Tupi, Aimoré, Guarani, entre outros;
    2. Chefes de Falange – São os guias espirituais chefe de cada falange de guias espirituais, por exemplo, podemos ter um Pena Branca chefe de falange de todos os Pena Brancas, são os direcionadores dos guias espirituais que carregam o mesmo nome, são os mentores dos guias espirituais que trazem o nome de toda uma falange, nem todos são incorporantes;
    3. Guias Espirituais – São os guias que estão sob o comando dos exemplos acima, ainda possuem larga estrada para o caminho evolutivo, porém, já atingiram um grau vibratório necessário para trazer maiores encargos magísticos, são os mais comuns durante os trabalhos umbandistas;
    4. Protetores – Como eu sempre digo no blog, nem todo guia espiritual está isento do processo reencarnatório, muitos ainda possuem a missão de reencarnar e passar pelas mazelas do corpo carnal afim de atingir seu objetivo de evolução, entre esses espíritos, são mais comuns essas linhas que surgiram depois da Umbanda Tradicional, como baianos, marinheiros, cangaceiros, entre outros, vale enfatizar que NEM TODOS os guias que atuam nessas linhas são protetores, alguns já atingiram um patamar vibratório como chefe de falange ou até mesmo guia espiritual. Alguns exus também fazem parte desse grupo.

Mas o foco é o título do blog, os falangeiros em suma são os representantes da Força, na Umbanda não acreditamos que incorporamos os Orixás e sim seus representantes naturais, dos quais denominamos falangeiros, apenas para recapitular, raramente falam, raramente trabalham em consultas, normalmente chegam apenas para limpar o ambiente para que os guias espirituais possam trabalhar. Trabalham com maior eficácia com os elementais.

Apenas uma síntese para acabar com algumas pequenas dúvidas, ainda está em estudo o nome de outros falangeiros de Orixás, a tendência é que se apresentem e que paremos de utilizar denominações da nação, existem muitos centros de Umbanda que dedicam pelo menos uma vez ao ano, um trabalho destinado aos falangeiros e como os mesmos chegam muito pouco durante os trabalhos, a tendência de aprendemos com eles se torna mais reduzida, eu mesmo não dou muita importância ao culto dos Orixás, minha ligação é mais enfática com os guias espirituais.

Uma outra dúvida que existe, é se é possível ter mais de um falangeiro do Orixá e SIM, é possível, um filho trabalhar por exemplo com Ogum Rompe-Mato, Ogum Dilê e até mesmo um terceiro, por exemplo, Ogum Malê, vale lembrar que isso depende da missão do filho, vai depender de como ele realiza os seus trabalhos e da necessidade espiritual do mesmo, obviamente, filhos destinados a abrir uma casa, terão mais guias espirituais para a contenção do que filhos que tem apenas como missão evolutiva trabalhar dentro de uma casa de caridade.

Eu sempre digo aqui, sua linha será formatada de acordo com a sua missão, e sim, sua missão pode mudar, você pode evoluir, temos o livre arbítrio, se no meio do percurso você tiver mais saldo que débitos, obviamente novos guias espirituais se aproximarão e trarão mais força para a sua linha para que você possa desempenhar com maestria sua designação. Se existe algo escrito, temos a capacidade de mudar e nisso, obviamente novos mentores se aproximarão.

Tudo é dinâmico.

Namastê.

Neófito da Luz .’.

Salve Sr. Caboclo do Sol e da Lua

Saudações amados irmãos.

Gostaria de dedicar esse post a um dos caboclos do qual sirvo, talvez seja o principal trabalhador incorporante de minha corrente de caboclos. Me acompanha desde os primórdios do meu trabalho, precisamente, desde 1998, iniciei na Umbanda em 1997, precisamente em junho.

Sempre muito sério, nunca fumou ou bebeu em minha matéria, como um dos centros do qual servi e fui pai pequeno, existiam cômodos para realização de trabalhos individuais, o seu espaço era sempre um pouco mais escuro, munido de uma luz azul, verde ou laranja, dependendo do trabalho que o mesmo fosse realizar.

Trabalha com uma pena verde e uma vermelha, pede também uma camarinha caso precise deitar o consulente para a realização de algum trabalho energético, ele sempre risca uma estrela de sete pontas em cima do local onde ele vai realizar o trabalho e acomodar o consulente.

Eu não sabia o que significava a estrela de sete pontas, ou septagrama ou até mesmo, heptagrama, possui diversos significados nas mais variadas religiões e filosofias espirituais, os sete chakras hindus, a junção do número três que simboliza o céu juntamente com o quatro que simboliza as esferas inferiores, enfim, diversos são os significados e ainda não tive o privilégio de saber qual o simbolismo empregado por ele.

Quando chega, sempre salta em direção ao altar, dá o seu brado apontando os dois dedos da mão direita para o alto e depois dá gritos curtos com os braços cruzados em direção ao peito, trabalha sob a irradiação de Oxalá, Xangô, Oxóssi, Iemanjá e Ogum, fala muito pouco, apenas o necessário e sempre necessita de um cambone ao seu lado para interpretar a sua fala.

Se ele é chefe de falange, legião, se aquela listinha que vivemos lendo sobre os chefes de falange de Xangô são verossímeis, não sei dizer, ele vindo e desempenhando um bom trabalho auxiliando aqueles que ali adentram e o procuram, já fico extremamente feliz!

A forma que aplica o passe também é um pouco diferente, nunca o senti estalando os dedos, usa muito mais o sopro e imposição de mãos, depois ergue o braço esquerdo como se tivesse extraindo energia do Prana e com a mão direita aplica sobre a região de dor ou mazela do consulente.

Dois babalaôs me disseram que não existe o Caboclo do Sol e da Lua, ou ele é Caboclo do Sol ou é da Lua, o que seria uma informação equívoca, porque após ele dar o nome e deixar o seu ponto, foi confirmado por outro sacerdote e o da casa onde eu trabalhava a autenticidade do seu nome.

Mostra-se um efetivo curandeiro e manipulador de energias naturais, suas vestes são praticamente orientais, desde o seu cocar até suas roupas propriamente ditas, apresenta-se por volta dos 50 anos, não é cacique e não sei se já foi como disse, isso na espiritualidade não tem o seu valor, e sim sua posição de chefia em alguma legião ou falange, que também não faço a mínima ideia de onde ele se encaixa, porque eu não acredito nessas classificações que lemos na internet, um site copia do outro e fica aquilo que eu sempre digo aquele eco onde um nem sabe a veracidade da informação e simplesmente repassa e com isso, vivemos nesse ciclo vicioso.

Esses pequenos posts são simples dedicações aos guias que eu sirvo, como não encontrei nenhuma referência sobre os mesmos na Internet, isso pode ajudar a iniciantes acharem pelo menos alguma informação sobre os mesmos.

Essa é a única intenção desses posts sobre os guias espirituais que eu trabalho, que são informações que julgo fidedignas para uma fonte de pesquisa, é o que eu vivenciei e aprendi e não o que eu li e copiei, e é extremamente gratificante quando encontramos alguma coisa na internet que está de acordo com o que aprendemos com eles e eu gostaria de ser pelo menos alguma luz na escuridão para esses novos adeptos que procuram algo sobre seus guias espirituais.

Um forte abraço.

Neófito da Luz .’.

Pretos-Velhos e Caboclos Kimbandeiros

Saudações fraternas queridos irmãos de senda.

Aqui quem vos fala é o neófito, com mais um texto chato, porém honesto! Rsrs

Gostaria de elucidar um pouco mais sobre essas duas linhas, que em alguns locais já trabalham de forma paralela às linhas comuns como caboclos e pretos-velhos. Mas essas entidades, por possuírem o mistério, a energia da direita, como os caboclos e pretos-velhos, trazem consigo o mistério da magia africana, a facilidade em manipular energias deletérias, energias telúricas e consequentemente, o afastamento ou aproximação de eguns que podem ou não causar efeitos colaterais aos médiuns.

Eu mesmo trabalho com um preto-velho que é totalmente voltado à Kimbanda, Pai João da Costa, e o trabalho dele realmente se difere do outro preto-velho do qual dou passagem, a vibração é mais densa, mais agressiva, porém, é uma vibração de resolução imediata, na ocasião, uma consulente estava com alguns problemas psicóticos e outras questões que não é o escopo do post, e ao invés de dar aquela tranquila passagem do qual estava habituado, que seria o Pai Guiné, senti uma vibração extremamente diferente, de um preto-velho que mal vinha encurvado, pelo contrário, senti um preto-velho relativamente forte e andava relativamente ereto, com uma fala menos calma, mais contundente, muito sério, pediu charuto ao invés de cachimbo, fez o trabalho, pediu a fundanga e outros elementos mais comumente utilizados para exus e completou o trabalho que foi ali solicitado.

Eu não tenho nenhum preconceito contra entidades kimbandeiras, pelo contrário, acho que são de extrema necessidade para manter o equilíbrio e muito comum essas entidades trazerem contigo toda a força da magia ancestral africana, são antigos mestres do sacerdócio ioruba e culto aos ancestrais que trazem consigo a magia que se perdeu com o tempo.

Em hipótese alguma são entidades que praticam o Mal ou que de certa forma, atingem o que contraria a Lei Espiritual.

Os guias kimbandeiros, como já disse, são geralmente espíritos de ancestrais africanos de cultos de tempos remotos, é perceptível a divergência de trabalho em relação a outra linha de preto-velho, bem como a energia que traz, os movimentos são mais bruscos e são profundos conhecedores de outros meios de magia, como os utilizados na Pajelança, na Bruxaria antiga, são verdadeiros detentores de conhecimento com a manipulação de energias telúricas.

Existe uma grande falange de pretos-velhos que trazem consigo o poder da Kimbanda, e assim como outros orixás, foram negligenciados pela liturgia hodierna ou inseridos em sincretismos para facilitar a liturgia moderna. Como já coloquei nesse blog, há uma grande diferença entre a Kimbanda e Quimbanda, vide post aqui.

Assim como existiam os antigos sacerdotes iorubas, também existiam outras classes de espíritos que também traziam o conhecimento das ciências perdidas no tempo, não só na Africa, mas também nas Américas, existia essa mesma manipulação de energia telúrica, deletéria para que pudessem reverter para o bem, assim como existiam os negros kimbandeiros, comumente conhecidos como tatás e n´gangás, também existiam os índios, os espíritos mais jovens, o que denominamos na Umbanda como Caboclos Kimbandeiros, onde existem famosos caboclos dessa falange como Sr. Pantera Negra, Sr. Giramundo e até mesmo Sr. Treme-Terra.

Extraído do site http://www.paimaneco.org.br

As entidades kimbandeiras não se limitam apenas a caboclos e pretos-velhos, porém, é onde fica mais evidente e até mesmo mais conhecida essas características, por se apresentarem de forma mais firme, enérgica e até mesmo mais calada, são imprescindíveis para o equilíbrio da Lei e podem trabalhar tanto no mistério do qual são inseridos no polo direito da Umbanda, como caboclos, preto-velhos e até mesmo em outras linhas, como ciganos, e também podem trabalhar no polo negativo da energia, juntamente com os exús, o que possibilita maior campo de atuação e maior conhecimentos desses espíritos.

Então é importante salientar que não são espíritos que fazem o Mal, pelo contrário, são espíritos com profundos conhecimentos de Magia Ancestral que possuem livre arbítrio para transitar nos dois lados da Força tornando mais eficiente determinados tipos de trabalho.

Se presenciarem uma casa que dedica uma linha específica a eles, não estranhem, algumas casas já estão dando comunicação para essas falanges em especial e tratando-os de forma diferenciados dos caboclos e pretos-velhos tradicionais.

Lack’Ech

Neófito da Luz

Caboclos Bugres

A literatura que fala dos Caboclos Bugres na Umbanda é escassa, creio que quase inexiste. Fui pesquisar a respeito. Originalmente este termo “Bugre” foi uma denominação dada pelos colonizadores portugueses aos índios não “catequizados”, ou seja, aos silvícolas mais aguerridos, muitas vezes fugitivos perseguidos pelos capitães do mato, que se recusavam peremptoriamente a se submeterem a uma “conversão” religiosa imposta. Em verdade foi um “apelido” pejorativo, adaptado para a língua portuguesa da palavra francesa bougre. Afinal, a França estava na “moda” na época, pois era o berço do sistema etnocêntrico europeu que se impunha ao mundo. Originalmente esta palavra significava herege.
O termo capitão do mato passou a incluir aqueles que, moradores da cidade ou dos interiores das províncias, capturavam fugitivos para depois entrega-los aos seus senhores mediante prêmio. Há que se falar um pouco sobre estes capitães do mato, que gozavam de pouquíssimo prestígio social, seja entre os cativos escravos que tinham neles os seus inimigos naturais, seja na sociedade escravocrata, que os considerava inferiores até aos rasos praças de polícia, e os suspeitava de sequestrar escravos apanhados ao acaso, esperando vê-los declarados em fuga para depois devolvê-los contra recompensa. Os mais sangrentos e assassinos capitães do mato foram alguns “alforriados”, que tinham a benesse dos senhores dos engenhos de cana e cafezais por escravos trazidos vivos ou mortos – geralmente eram capturados e assassinados para servirem de exemplo aos demais, desanimando-os de tentativas de fuga.
Então, os índios, ditos popularmente como Caboclos Bugres, eram os mais difíceis de serem capturados e obtiveram a fama de serem mais esquivos e aguerridos do que as próprias onças brasileiras, matando muitos capitães do mato que por sua vez acabaram desistindo de os perseguirem, o que fez o ciclo escravocrata se concentrar nos africanos, mais “dóceis” e fáceis de adaptarem-se às propriedades agrícolas, por não serem nômades extrativistas como os índios.
A minha experiência com os Caboclos Bugres é que estas entidades ou linha de trabalho são espíritos sim, aguerridos, mas não no sentido pejorativo. São os Capangueiros de Jurema, os que fazem a “tocaia” e prendem os inimigos nas demandas astrais. Aproximam-se de OGUM como guerreiros, mas são originalmente enfeixados na vibração de Oxossi. São exímios nas tocaias, esperam pacientemente e quando atacam o fazem com precisão de um esmerado arqueiro, utilizando-se de dardos soníferos que são assoprados em espécie de “rifles” de bambu (falta-me nomenclatura mais adequada), assim “neutralizando” certeiramente os inimigos.

NP.

NOTA: Bugre é uma denominação dada aos indígenas de diversos grupos do Brasil por serem considerados não cristãos pelos europeus. A origem da palavra, no português brasileiro, vem do francês bougre, que, de acordo com o Dicionário Houaiss, possui o primeiro registro no ano de 1172, significando “herético”, que, por sua vez, vem do latim medieval (século VI) bulgárus. Como membros da Igreja Ortodoxa Grega, os búlgaros foram considerados heréticos pelos católicos inquisitoriais. Desta forma, o vocábulo passou a ser aplicado, também, para denotar o indígena, no sentido de “inculto”, “selvático”, “estrangeiro”, “pagão”, e “não cristão” – uma noção de forte valor pejorativo.

O Canto do Sabiá e o Pio da Coral

Por Thiago Luiz Ferreira Miranda

Já com algum tempo de leituras e pesquisas incessantes sobre o assunto, a Umbanda me aparece com o curioso aspecto de religião em formação. Muitas são suas faces. Teses são apresentadas sobre seus múltiplos aspectos, almejando sempre a expressão completa, a totalidade das Leis que a regem, ou seja, sua Codificação.

Do muito e do pouco já dito, aparecem alguns pontos comuns, a presença das manifestações espirituais de antepassados culturais brasileiros como o preto-velho, o caboclo, o boiadeiro e tantos outros que se “manifestam” nos inumeráveis terreiros espalhados por este Brasil afora. Do uso da magia para fins diversos e cânticos sagrados (as curimbas), não há terreiro ou tenda que não possua.

Estamos então diante de um caldeirão fervendo chamado Umbanda. Seus mistérios vão desde o seu nome correto – uns dizem possuir origem sânscrita! – passando por sua origem, histórica ou mítica, e pelos Orixás – quais seus nomes corretos, quais deles devem ser cultuados e de que forma. Uma dentre as várias correntes existentes no movimento umbandista, vem crescendo em aceitação, seja em sua prática ritualística, seja em sua parte teórica e mesmo no esboço para uma filosofia na ou da Umbanda. Digo pois da Umbanda Esotérica, cujo divulgador mais conhecido foi W.W. da Matta e Silva (1917 -1988) escritor de nove livros sendo que, o primeiro é também o mais importante deles, “Umbanda de Todos Nós”, primeira edição em 1956.

As dificuldades de entendimento desta raiz estão – assim como toda a Umbanda – imersos ainda em alguns véus, principalmente aos novos umbandistas, ou melhor, aos umbandistas que não tiveram a oportunidade de conviver com os primeiros praticantes desta religião. Infelizmente eu também não tive esta oportunidade, não obstante meu espírito intrigado e sedento por conhecimento das coisas às quais me interesso não me deixam desistir da pesquisa, da investigação, da procura pelos primórdios desta religião bem como suas diversas correntes que quem sabe num futuro próximo ou distante venham a se unir em nome de um conhecimento único ou constituir escolas de entendimento que apesar de distintas em suas práticas apenas fazem engrandecer a Umbanda.

Dois problemas lançarei à discussão neste texto. O primeiro deles é sobre a origem histórica desta Umbanda Esotérica e o segundo, sobre a mudança paradigmática operada por esta corrente no entendimento do Orixá, influenciando drasticamente em suas formas de culto, bem como o ponto arquimediano que vem permitindo esta operação.

Dois motivos principais me impulsionam a publicar este texto em caminhos virtuais: a busca por novas informações que possam engrandecer meus conhecimentos e a discussão por parte de todo o meio umbandista, principalmente os seguidores desta corrente, sobre as trilhas abertas nas Matas da Jurema por este diferente pensamento instaurado e nem sempre, creio eu, tão bem analisado ou discutido em seus alicerces. A sua adoção depende de modificações profundas no consciencial umbandista e que dificilmente estão sendo percebidas. E se o canto da Sabiá dentro das Matas da Jurema é sedutor, a picada da Coral é certeira, venenosa e quase sempre mortal.

Deixo claro que nenhuma das palavras que direi neste momento em nada afetam a importância dos personagens envolvidos, seja pelas idéias, seja pela influência que vem exercendo no espírito de tantos. Meu objetivo único é conhecimento, conhecimento, conhecimento. Respeitados aqueles que possuem conhecimento. Respeitada é a religião cujos integrantes tem conhecimento de suas origens e de sua doutrina.

No início deste texto disse que o maior divulgador da Umbanda Esotérica, teria sido Mestre Yapacani. Ao que nos consta, realmente o foi. Mas alguns fatos me levam a crer que apesar de reconhecida importância, não fora este insigne mestre o iniciador de tal doutrina dentre o meio umbandista. No ano de 1941 fora realizado, dos dias 19 a 26 de outubro, na cidade do Rio de Janeiro, até então capital brasileira, o Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, com a participação de médiuns pertencentes a diversas Tendas, almejando por objetivo a apresentação de teses relacionadas à Umbanda em suas diversas matizes e interesses (estas teses estão registradas em um livro editado em 1942 pela Federação Espírita de Umbanda na época sito à rua São Bento n. 28 – RJ) Dentre elas estava a Tenda Espírita Mirim cujo delegado representante fora o sr. Diamantino Coelho Fernandes.

No dia 19 de outubro do transcorrido ano a Tenda Espírita Mirim apresentava a seguinte tese:

“O Espiritismo de Umbanda na Evolução dos Povos – Fundamentos históricos e filosóficos”. Eis pequena parte da tese (transcrição literal) : “O vocábulo UMBANDA é oriundo do sanskrito, a mais antiga e polida de todas as línguas da terra, a raiz mestra, por assim dizer, das demais línguas existentes no mundo. Sua etimologia provém de AUM-BANDHÃ (om-bandá) em sanskrito, ou seja, o limite no ilimitado… A significação de UMBANDA (o correto seria Ombanda) em nosso idioma, pode ser traduzida por qualquer das seguintes fórmulas: Princípio Divino; Luz Irradiante; Fonte Permanente de Vida; Evolução Constante.”

Bem, nos encontramos diante do primeiro problema. Tais afirmações seriam editadas no ano de 1956 por Pai Matta o qual requer autoridade intelectual sobre tal tese, não por ter ele mesmo formulado tais explicações mas, como por ele mesmo escrito, em Umbanda do Brasil pag.74 em sua 2ª edição “…essa Revelação que originalmente nos foi feita pelo Astral Superior da Lei de Umbanda.” Lembremo-nos que a primeira publicação de seu primeiro livro ” Umbanda de Todos Nós” seria em 1956 ou seja, aproximadamente 15 anos após o Primeiro Congresso do Espiritismo de Umbanda. Estamos portanto diante de duas informações, de dois fatos que não se coadjuvam.

Segundo pesquisas feitas pela Internet existe uma Federação no Rio de Janeiro tendo por nome Primado de Umbanda que professa os mesmos conceitos expostos por Mestre Yapacani, quanto à designação de 7 Orixás (Orixalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Yemanjá, Yori, Yorimá) bem como a concordância com a origem sanscrita da palavra Umbanda e o Nheenghatu (língua indígena derivada do Abanheegá, também indígena) usada com diversas finalidades dentro deste movimento, por exemplo, quanto à formação de nomes iniciáticos e mântras sagrados. Ao consultar a bibliografia usada por tal Federação bem como por todos os terreiros a ela filiados, constatei a não utilização dos livros de W.W. da Matta e Silva não obstante, dois livros formam citados como fonte e ambos anteriores a 1956 ou seja, anteriores à publicação de Umbanda de Todos Nós. Portanto, ou esqueceram de citar o uso de tal bibliografia, ou realmente estas explicações são anteriores a W.W. da Matta e Silva.

E curiosamente a entidade fundadora desta Federação chama-se Tenda Espírita Mirim, cujo fundador sr. Benjamim Figueiredo, médium do conhecido Caboclo Mirim, mesma entidade que apresentou a tese sobre as origens sanscritas da palavra Umbanda no Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda.

Gostaria que pesquisadores, umbandistas ou não, mas sinceros e que de fato sejam conhecedores deste momento histórico na Umbanda possam me disponibilizar informações com as respectivas “provas” para que possamos traçar linhas mais claras sobre o desenvolvimento desta corrente na Umbanda. Volto a afirmar que meu interesse neste momento é única e simplesmente histórico e que quaisquer afirmações não influenciarão em nada a figura de Mestre Yapacani, portentoso médium cujo esforços em muito ajudou e ainda vem ajudando de forma vigorosa o movimento umbandista através de seus livros, mesmo após 45 anos de suas primeiras publicações e 12 anos de seu desenlace.Com todas suas bênçãos, Saravá Pai Matta!

Iniciarei neste momento o segundo ponto que me propus a discutir neste texto, as mudanças operadas pela Umbanda Esotérica no culto aos Orixás e o ponto arquimediano desta mudança. Peço a partir de agora um pouco da paciência dos leitores e atenção redobrada, pois talvez o texto se torne algo mais denso para compreensão.

Nada mais claro nos é hoje que, com a vinda dos africanos para o Brasil, vieram com eles também a suas religiões. Estas, com o passar dos tempos e outras causas que não cabe a este texto discutir se uniram e se amalgamaram constituindo então aquilo que hoje chamamos de Candomblé. O Candomblé possui como cerne de sua adoração os Orixás, chamados por uns de Inkices e por outros Voduns. Estes de modo geral foram antepassados dos povos que para cá vieram, como por exemplo, Xangô era rei da cidade de Oyó e Ogum da cidade de Irê. Com uma série de contos sagrados os itán-ifá, que hoje simplesmente identificamos por “lendas” do candomblé, constituem todo a base deste sério sistema religioso possuindo inclusive uma profunda filosofia nos conceitos para entendimento do Homem e a profunda integração com a Natureza.

Estes mesmos Orixás eram lembrados por seus feitos quando humanos, e pelos motivos de suas transformações em Orixás. A transformações destes homens importantes em Orixás por vezes remetem a uma guerra ou a uma grande paixão, podendo passar por grande ódio ou desilusão, ou por possuírem poderes de cura. Eram lembrados também por suas principais características na Terra ( Aye ), como ser justo, ou brigão, vaidoso, charmoso ou mesmo vingativo. A lembrança destes Orixás, portanto seus cultos consiste em oferendas destas ou daquelas comidas, panos de diversas cores, ou bebidas que mais os agradam e isto também relacionado a todo um sistema de práticas de magias e curandeirismos daquele povo, ou melhor daqueles povos.

Geralmente estes importantes homens ao se transformarem em Orixás tornavam-se elementos da Natureza como um rio, uma árvore, o mar, ou do Orum poderiam ter domínio de uma força natural como os trovões, as chuvas, as matas. Então podemos ressaltar que para os povos africanos e também em seus cultos no Brasil, a ligação dos Orixás é com a Natureza sendo eles próprios os elementos da Natureza ou Forças Divinizadas dela e não com os astros, cuja presença em todo o sistema de culto aos Orixás é inexpressiva ou mesmo inexistente. “Os iorubás como povos da floresta, pouco se interessam pelos astros, para eles, florestas e rios são mais importantes que a Lua ou as estrelas.” “A morada dos deuses iorubás, emblematicamente, não fica no céu, mas sob a superfície da terra.” ( Prandi ,R. 2002 ).
Tentarei agora a delimitar o problema que quero expressar.

A noção da “morada dos Orixás sobre a superfície da terra” é um conceito importantíssimo para este culto pois representa, a meu ver, um profundo enraizamento do homem na Natureza. Tudo está aqui e aos nossos olhos e mãos. Isto é o Orixá: os rios, o mar, as matas, as folhas e o vento e tudo isto que é a Natureza é o Orixá. Guardemos claramente isto em nossa mente e espírito.

Vejamos agora a mudança operada na Umbanda Esotérica:

Por diversas vezes Pai Matta em seus livros cita o nome de um pesquisador francês, Saint-Yves D’Alveydre. Este pesquisador parece ter sido escritor de alguns livros, dentre eles “L’ Archéomètre”, ou “O Arqueômetro”. Poucas informações temos sobre o livro ou o autor mas, sabemos que ele apresenta um alfabeto dito como adâmico ou wattan, ou seja, um dos ou o primeiro alfabeto surgido entre os homens, segundo Mestre Yapacani. Sabemos ainda que este arqueômetro permitiu a ligação entre o dito alfabeto adâmico com os alfabetos hebraicos, sanscrito e latino, e destes com a numerologia bem como aos signos astrológicos.

Creio eu que a aplicação que a Umbanda Esotérica faz é, associar o nome dos Orixás à estas correlações dadas por Saint-Yves associando o nome do Orixá com suas correspondências numerológicas e astrológicas e daí a correlação com cores e dias da semana. Esta nos parece ser a grande diferença existente no ritual da Umbanda Esotérica. Isto a meu ver implica em drástica mudança ante o entendimento e culto do Orixá.

O Orixá como anteriormente dissemos, não está relacionado com o culto das estrelas ou quaisquer outras correspondências astrológicas, (apoiados estamos sobre pesquisas de respeitados antropólogos). O Orixá relaciona-se com as coisas da Natureza e não com a Lua ou as estrelas, segundo a Tradição. Não que na Umbanda Esotérica a Natureza e seus reinos, sejam descartados mas tornam-se moradas deste ou daquele Orixá pelas influências astrológicas que estas exercem sobre este ou aquele reino. Então a relação do Orixá com a Natureza torna-se secundária!

Apenas sete tornam-se os Orixás cultuados, Oxalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Yemanjá, Yori, Yorimá, sendo estes dois últimos termos completamente desconhecidos. Com uma interpenetração um pouco maior neste estudos e atenção nas leituras conseguimos entender o surgimento deste dois termos. Yori é cultuado por todos como Ibeji, são as crianças, os erês, os populares meninos-de-angola. Existe uma discussão se Ibeji é Orixá ou não, mesmo nos cultos africanos onde parece realmente não ser. Aqueles que queiram se aprofundar nesta discussão, ver livro Os Candomblés da Bahia, Roger Bastide.

Quanto a Yorimá, peço a licença para a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino para reprodução de um pequeno trecho do artigo “Os Sete Grandes Mistérios” publicada na “Revista Umbanda – Uma Religião Brasileira” em seu número sétimo, mês maio/junho, do ano 1995, seu autor, William do Carmo Oliveira. Hei-la:

“Yorimá: conhecido nos meios externos da Umbanda , como Obaluayê, Omulu, Shapanan, Yorimá é o termo sagrado do Orixá que assim era fonetizado pela Antiga Raça Vermelha. Representa a terra.” Apresentando um mito de Obaluaye, que interpretado sob correlações numerológicas, chega-se a um mesmo valor numérico do termo Shapanan e Yorimá. Seriam portanto uma mesma força, um só Orixá.

A explicação dada para tais modificações seria que, os termos Yorimá e Yori seriam termos litúrgicos esquecidos nas “noites do tempo”, num glorioso passado da humanidade, de forma pura e límpida estas sete vibrações eram cultuadas. Os mais habituados a tais leituras verificam que sempre referentes aos termos Yorimá e Yori, estão vocábulos como, desvelado, reimplantado ou reaparecido. Estes mesmos termos constituiriam a “Coroa do Verbo”, isto significa, termos sagrados para a movimentação das energias. Realmente, existe um mito narrando um nome oculto de Omulu/Obaluaiê, sendo, por algum motivo, muito perigoso ser pronunciado. Seria Yorimá!?

Na página virtual do “Primado de Umbanda”, complementar a estas informações, dizem: “… os fundamentos continuam os mesmos.” Será? As alterações também estão nas cores que representam as divindades. Estas anteriormente lembravam d’algum modo o Orixá e seus feitos ou moradas – por exemplo o verde das matas de Oxossi, ou o azul dos mares de Yemanjá, na Umbanda Esotérica sob as correspondências astrológicas tornam em amarelo, Yemanjá, Oxossi em azul, Ogum em alaranjado e Xangô, verde.

Problemas podem ser identificados; o primeiro relaciona-se ao ponto arquimediano desta operação, ou seja, o “arqueômetro”. Este livro ou aparelho faz relações entre os alfabetos wattan, sânscrito, hebraico e latino, não parece fazer diante das línguas e dialetos africanos. Não havendo a ligação entre estes alfabetos, improvável se torna a relação. Talvez o motivo de ligar estes termos litúrgicos africanos a um passado na Índia ou de um antepassado comum entre eles, expressados por Pai Matta e seus seguidores seja este.

Um último problema que vejo seria que Orixás tão queridos e importantes como Oxum, Iansã ou Nanã não mais podem assumir a “cabeça” de um filho, função esta restrita aos sete Orixás supracitados. Quais funções passam a assumir estes Orixás? Será que, sendas futuras, assim como fazemos nós, também chorarão termos sagrados, esquecidos nas brumas de um passado áureo, que incautos reformadores e seguidores pouco vigilantes não souberam honrar ?!

Espero que não tenha sido eu, pedante ao ponto de afastar-vos de meus escritos. Também deixo claro que sou “filho” da Umbanda Esotérica e que minha vivência nesta religião já trilhada por 6 anos initerruptos de práticas e estudos. Porém de olhos bem abertos tento caminhar. Que a beleza do canto do Sabiá e a força presente na Cobra Coral acompanhem a todos os que por Amor à Verdade caminham devagar porém firmes

SIMPLES CHARUTO DE CABOCLO

Ligia segurava o charuto do caboclo que estava a cambonar enquanto a entidade em questão participava dos trabalhos em uma roda de descarrego.
Terminada a tarefa o caboclo dirigiu-se em direção a sua cambone e pediu o charuto de volta agradecendo-a por haver segurado o seu instrumento de trabalho, mas Ligia, não se contendo de sadia curiosidade, perguntou a entidade:
— Senhor caboclo?
— Pois não fia?
— O senhor poderia esclarecer-me uma dúvida?
— Pode fazer pergunta fia!
— O que eu gostaria de saber é o seguinte: por que o senhor sempre me agradece a cada vez que eu entrego o charuto que estou segurando de volta para as suas mãos?
— Suncê quer saber fia?
— Se for possível, gostaria sim.
— Fia, antes de caboclo responder, observe a atuação da nossa linha de trabalho nesta próxima roda de descarrego, sim?
— Sim senhor!
Após trabalhar com todas as pessoas que estavam naquela roda de descarrego a entidade estendeu sua destra a fim de que sua cambone segurasse o seu charuto enquanto ele e as demais entidades que participavam dos trabalhos na roda pudessem finalizar o trabalho.
Ao término daquela roda de descarga a entidade, então, tornou junto à Ligia dizendo:
— Entrega o pito de volta para Caboclo fia!
Ligia devolveu o charuto à entidade que, então, disse-lhe:
— Este caboclo agradece por toda sua atenção.
Ligia sorriu meio que ainda sem entender o porquê daquele agradecimento e o caboclo perguntou a ela:
— E então fia? O que suncê observou do nosso trabalho junto à roda de descarrego?
— Bem, eu observei algumas coisas, mas fica difícil de dizer algo, no aspecto geral, sobre o trabalho dos caboclos em uma roda de descarrego por que cada um trabalha de um jeito diferente em cada assistência.
— Isto até que é verdade, mas o que suncê observou de semelhante no trabalho de qualquer mano caboclo lá na roda?
— A fumaça do charuto! Nenhum dos senhores trabalha sem ela!
— Muito bem observado fia!
A entidade soltava umas baforadas do seu charuto enquanto fitava o semblante de Ligia e, após alguns instantes, perguntou a ela:
— Suncê ainda não entendeu porque que caboclo lhe agradece por segurar o pito dele, não é?
— Não senhor!
— Fia suncê tem o dom para isso e é por esse motivo que caboclo vai dilatar um pouco de sua percepção sensorial.
— Sim senhor!
A entidade estalava os dedos e soltavas algumas baforadas do seu charuto por toda a cabeça de Ligia. O processo durou poucos segundos e quando terminou a entidade solicitou a Ligia que abrisse os olhos.
— Nossa senhor caboclo!
— O que foi fia?
— É que eu fiquei com um pouco de tontura.
— Não se preocupe que já, já ela passa.
— Sim senhor, na verdade ela já está passando.
— Fia este caboclo vai participar de outra roda de descarrego e pede a suncê que continue a observar pra ver se descobre o porquê do nosso agradecimento, sim?
— Sim senhor.
Quando o caboclo terminou de realizar o seu trabalho com o charuto naquela roda ele, então, estendeu o braço para Ligia que, prontamente, segurou o charuto em suas mãos.
Minutos depois de terminada mais uma roda de descarrego a entidade pediu a Ligia:
— Entrega de volta o pito pra Caboclo fia!
Ligia assim o fez e ele novamente agradeceu-a para depois perguntar:
— E agora fia? O que suncê observou do nosso trabalho na roda?
— Nossa senhor caboclo! Parecia que eu estava ficando louca!
— Por que isso fia?
— Parecia que a fumaça do charuto dos senhores funcionava perispiritualmente para os assistidos na roda como se fosse uma espécie de chuveiro que tira todas as sujeiras do corpo físico.
A entidade sorriu com a comparação de Lígia e ela prosseguiu:
— É sério Sr. Caboclo! Quando a roda de descarrego terminou alguma coisa nelas parecia que estava muito mais limpo do que antes: algumas pessoas respiravam melhor, outras estavam como se tivessem retirado um peso do coração, enfim foi muito bonito de se ver.
— Fia antes de ir para a próxima roda de descarrego este caboclo pede que suncê segure o pito dele.
E, estendendo-lhe a destra, o caboclo entregou o charuto a sua cambone solicitando:
— Fia, agora feche os seus olhos e faça uma prece ao Criador pedindo bênçãos por todos aqueles que ainda passarão pelas rodas de descarga na gira de hoje!
— Sim senhor!
Ligia fez a prece com todo o fervor de sua mente e do seu coração e, então, abriu os olhos.
A entidade, assim, disse-lhe:
— Fia este caboclo agradece por suncê ter segurado o pito dele mais uma vez e pede que suncê observe o trabalho de nós em mais uma roda de descarga para ver se agora descobre o porquê dele agradecer a suncê por segurar o pito, tudo bem?
— Sim senhor!
Quando o caboclo terminou de realizar o seu trabalho com o charuto naquela roda ele, então, estendeu o braço e Ligia, prontamente, segurou em suas mãos o charuto da entidade.
O trabalho naquela roda foi finalizado e quando a entidade aproximou-se de Lígia esta estendeu-lhe as mãos na intenção de devolver o charuto para o caboclo, mas este lhe disse:
— Deixe o pito por mais um tempo em suas mãos que na hora certa este caboclo pede de volta a suncê, sim fia?
— Sim senhor!
— Este caboclo agradece por toda sua dedicação fia e pergunta: o que suncê observou nos trabalhos da última roda que caboclo acabou de participar?
— Senhor caboclo eu realmente observei algumas coisas, mas eu peço ao senhor que, se eu houver visto demais, que o senhor fale francamente comigo como sempre o fez.
— Nossa fia Ligia! Mas por que todo este alvoroço?
— Por que se na penúltima roda que o senhor participou eu percebi que a fumaça dos charutos funciona como a água de um chuveiro, nesta última roda parece que eu vi o que funciona como uma espécie de sabão ou sabonete.
A entidade deu um discreto sorriso para sua cambone e esta tornou a dizer-lhe:
— E então Senhor caboclo? Eu vi coisa onde não existia?
— De forma alguma fia! Suncê só viu o que havia para ver!
— Nossa, mas o senhor fala isto de uma maneira tão calma!
— E qual é o espanto nisto fia?
— Por que o desconhecido assusta um pouco e eu não sei nem um pouco do que eu vi.
— Fia, mas é como suncê mesma disse antes: o que tem de assustador em se tomar uma boa ducha?
— Ducha?
— É fia ou, como suncês encarnados mesmo dizem uma boa chuveirada!
— ?????
— Fia conte pra este caboclo o que foi que suncê viu!
— Bem, enquanto o senhor dava umas baforadas em uma pessoa da roda de descarrego milhares de minúsculos seres ficavam a rodear esta assistência em questão sempre na direção da cabeça para os pés. Estas espécies de seres giravam numa velocidade absurdamente alta e direcionada como se estivessem sendo controlados por alguém a distância. Eles apareciam e sumiam como que por encanto quando o senhor terminava o trabalho em uma pessoa participante da roda de descarga e passava para outra. Bom, foi isto que eu vi.
— A fia só está se esquecendo de um detalhe fundamental em tudo que observou da participação deste caboclo na última roda de descarrego!
— Verdade?
— Fia, fale uma coisa pra este caboclo!
— Sim senhor!
— Segundo a sua observação, participar desta última roda de descarrego foi mais fácil ou mais difícil do que a penúltima em que este caboclo participou?
— Ah, é verdade! Bom quem estava na dinâmica do trabalho lá na roda é o senhor, mas para mim que observava dava a nítida impressão que o senhor conseguia realizar o trabalho com muito mais facilidade, tendo em vista que na penúltima roda parecia que o senhor se concentrava muito mais para poder fazer o seu trabalho do que nesta última.
— Não foi impressão sua fia: para este caboclo, trabalhar nesta ultima roda, foi muito mais fácil que na penúltima e você fia teve uma grande parcela de responsabilidade para que caboclo obtivesse esta facilidade.
— Eu?
— Claro fia, não é suncê que é a cambone deste caboclo?
— Sou eu sim senhor, mas não sei dizer qual foi minha contribuição!
— Pense um pouco minha filha! Qual foi a grande diferença entre a penúltima e a última vez que suncê entregou o pito para este caboclo antes dele participar das rodas?
— Na ultima vez, diferentemente da penúltima, eu fiz uma prece ao Criador pedindo bênçãos para todas as assistências que participariam das rodas. Foi isto senhor caboclo? A prece que fiz a Deus?
— Fia toda prece a Tupã é sempre muito válida em nosso trabalho de fazer a caridade, mas suncê pode relembrar para este caboclo o que suncê possuía em mãos quando proferiu a referida prece?
— Meu Deus é verdade! Em minhas mãos estava o charuto do senhor!
— Exatamente fia! E então, suncê descobriu por que caboclo agradece suncê a cada vez que pede o pito dele?
— O senhor me desculpe, mas é que eu ainda não consegui chegar lá!
— Então este caboclo não vai mais fazer mistério fia: Caboclo agradece a suncê por que a cada vez que sunce entrega o pito de volta pra ele, acaba entregando junto boa parte de sua firmeza, de sua vibração, de sua energia.
— Eu???
— Não só suncê, mas cada cambone que trabalha junto a cada mano caboclo que milita em cada terreiro de Umbanda neste mundo de Tupã Nosso Pai.
— Isto é surpreendente!
— Antes da última roda que caboclo participou suncê fez prece sentida a Tupã e entregou o pito pra caboclo trabalhar cheio destas sutilíssimas e importantíssimas vibrações do desejo de caridade ao próximo.
— Sim, mas eu devo ser sincera e dizer que só fiz isto da última vez.
— Este caboclo sabe.
— Mas se das outras vezes que eu segurava o charuto do senhor eu não fazia prece alguma por que o senhor, mesmo assim, me agradecia?
— Independente de suncê fazer preces ou não, a cada vez que suncê entrega o pito para caboclo, suncê passa muito de sua energia para ele.
— Mas e se eu não estiver com energia boa no dia da gira? Eu vou acabar passando o pito para o senhor impregnado com minhas energias não muito positivas, mesmo assim o senhor me agradeceria?
— Já houve alguma gira que suncê entregou o pito pra Caboclo e ele não lhe agradeceu?
— Não senhor!
— Mas já houve giras em que suncê veio trabalhar com uma energia não muito boa, não é verdade?
— Isto é verdade, mas então por que o senhor sempre agradece?
— Fia, na verdade, o que caboclo agradece é a oportunidade de trabalho no bem que suncês dá pra nós. Umbanda é parceria fia!
— Desculpe, mas como é?
— Parceria fia: estar juntos por um objetivo em comum. Quando suncês cambones estão bem, então suncês fazem preces ou não as fazem, mas entregam o pito para nós com as energias boas que suncês estão naquele dia para nós trabalhar em favor do próximo, não é assim?
— É sim senhor!
— Já quando é suncês que não estão bem, daí somos nós que fazemos preces ao Criador, enquanto seguramos o nosso pito, rogando que suncês possam encontrar melhoras para as dificuldades de suncês e ajudar nós a trabalhar em nome da caridade cada vez mais e melhor e daí, somente após esta prece fervorosa, é que nós entregamos o pito de volta pra suncês segurar a fim de que, captando um pouco de nossa energia que deixamos no pito, suncês consigam encontrar um pouco de lenitivo que o merecimento de suncês lhes facultar.
— Meu Deus, mas isto é lindo!
Assim exclamou Ligia com a voz embargada de emoção pungente e sincera.
— Isto é Umbanda fia e Umbanda, como caboclo disse, é parceria: quando suncê não está bem e entrega o pito impregnado de energias não muito positivas para caboclo, ele então, quando pega este pito das suas mãos, agradece a suncê pela oportunidade que suncê está dando a ele de trabalhar junto a Tupã objetivando a sua melhora energética, vibracional.
— Nossa pelo que o senhor me diz a Umbanda é parceria mesmo, hein?
— Com certeza fia e é por isso que cada vez que um mano caboclo pede o pito de volta para seus cambone ele só tem a agradecer a este.
— Mas o ideal, quando o cambone não está bem, é fazer sempre preces, pedir auxílio a alguma entidade e ficar vigilante para sua vibração não cair e, assim, dificultar o trabalho das entidades, não é assim?
— Certamente não é fia!?! Mas este caboclo sabe que a filha põe em prática aqui no terreiro muito do que acabou de perguntar pra caboclo, não é verdade?
— Infelizmente não é sempre, mas graças a Deus acaba sendo a maioria das vezes, mas…
A voz de Lígia mal conseguia sair dos seus lábios tamanha era a emoção de estar aprendendo coisas tão básicas e importantes para o bom andamento de uma gira, mas de uma forma simples e prática. Mesmo percebendo a dificuldade de Lígia em falar, devido à emotividade, o caboclo incentivou-a dizendo:
— Pode falar fia.
E, fazendo um esforço grandioso para não embargar a sua voz com uma honesta emoção, foi que Lígia disse:
— Sabe o que eu acho mais lindo na Umbanda em relação a tudo isto que o senhor acabou de revelar para mim?
— A voz de suncê está embargada não é fia? Embargada de singela emoção por contemplar a prova do que disse Jesus sobre a simplicidade da misericórdia e benevolência das coisas de Deus materializada na religião de Umbanda pela presença de um simples charuto de caboclo, não é verdade fia?
As lágrimas de agradecimento por estar tendo aquela preciosa conversa com o caboclo deslizavam aos borbotões pela face de Ligia e esta emoção tão bonita e sincera a impedia de proferir qualquer resposta em relação à indagação feita pela entidade e ela, assim, só pôde respondê-lo positivamente acenando com a cabeça.
O caboclo então continuou a conversa dizendo:
— Caboclo agradece a Tupã pela parceria entre suncê e este caboclo e respeita cada lágrima de gratidão ao Criador que está deslizando pelo seu rosto, mas deve solicitar licença por um breve instante neste seu processo de agradecimento para pedir a suncê que devolva o pito deste caboclo para que ele possa participar de mais uma roda de descarrego em nome da caridade ao próximo.
As lágrimas continuavam a escorrer pelo rosto de Ligia e ela, assim, só pôde estender as mãos para devolver o charuto sem nada conseguir dizer a entidade.
A entidade pegou o charuto nas mãos, deu as costas para Ligia, andou um passo a frente e ficou parado de costas para sua cambone.
Talvez fosse para substituir um pouco daquelas lágrimas de alegria por um sorriso singelo feito da mesma emoção, talvez não, o fato foi que o caboclo novamente virou-se de frente para Ligia e disse:
— Pensou que caboclo houvesse se esquecido desta vez não é fia Ligia? Mas este caboclo não esquece nunca de agradecer a suncê por haver segurado por mais uma vez o pito dele. Que Tupã abençoe em dobro toda a atenção que suncê dispensa a este caboclo nesta nossa parceria e que seja abençoada também a parceria que Tupã tem com todos nós através da nossa sagrada e amada religião de Umbanda.
Ao que Lígia, já um tanto refeita em suas emoções, respondeu:
— Que assim seja!!!!!

Autor Anônimo